Já em treinamento pro trekking que vou fazer no Peru, hoje a caminhada vai ser em Morrinhos do Sul, município gaúcho. Sábado saímos de Praia Grande, eu e Kaloca, percorrendo uma estradinha de chão batido que não é lá das piores. Eu, toda pimpona, até arrisco algumas manobras mais ousadas enquanto dirijo. Kaloca, que tem medo de andar de car
ro, vai meio tenso ao meu lado, hehehe. Um som maneiro rola no cd player, com direito a Pink Floyd, Los Hermanos, Nei Lisboa, Naná Vasconcelo, Nara Leão e músicas indianas. Deixamos o carro num sítio, na comunidade de Tajuva, cujos donos são pequenos agricultores. Descendentes de alemães, cultivam cana de açúcar pra fazer cachaça, banana e variados legumes que vendem na Ceasa. A dona da casa assa umas roscas de polvilho no forno de barro. Em vez de forma de alumínio, usa folhas de bananeira de modo a evitar que os bisco
itos queimem por baixo. Seguimos por uma estradinha até alcançar o topo duma colina de onde se descortina o litoral gaúcho. A visibilidade, magnífica, permite avistar nitidamente as praias de Arroio do Sal e Torres, além da lagoa de Itapeva. Dia lindo, céu claro, temperatura amena em torno de 23º C, embora estejamos no inverno. Adentramos o cânion por uma trilha aberta pelos tropeiros que conduz até o alto dos campos de cima da serra. Nada difícil, a caminhada é bem curta, coisa de 2 horas. A única dificuldade é carregar a mochila, cujo peso beira os 5 quilos. No mais, tudo é tranqüilo. Pela primeira vez, vejo um ban
do de bichos que penso serem lontras. Um deles me olha curioso enquanto aponto a máquina e o filmo. Logo dispara mata adentro, juntando-se ao resto do bando. Quando comento com Kaloca, ele explica que são coatis fugindo dos caçadores que se encontram, no vale, caçando. Eu bem que escutara uma barulheira, mas supus serem fogos de artifícios. Qual o quê! Eram tiros de espingardas, isso sim! Antes de armarmos o acampamento, damos uma banda pelos arredores, avistando ao longe a serra do Pinto. Uma beleza de paisagem. Escolhido o lugar, Kaloca monta a barraca e vamos ver o pôr do sol duma
pedra que se debruça sobre o vale. A luminosidade alaranjada do sol poente é um convite à fotografia, e os incessantes cliques da máquina tentam reter um pouco daquele esplendor do fim da tarde. As luzes das cidades e vilas começam a se acender e o cenário, daqui de cima, assemelha-se a uma gigantesca árvore de natal. Voltamos pro acampamento já noite fechada. Kaloca acende, rapidinho, um fogo e lá ficamos conversando enquanto jantamos em frente à fogueira. No céu, estreladíssimo, distingue-se perfeitamente as nebulosas da Via Láctea. Deito na grama e deixo meus olhos deslizarem pelo firmamento coroado de estrelas. A sombra escura dum pássaro voa, célere, sobre minha cabeça. É bo
a demais essa vida! Lastimo o sono que me pesa nas pálpebras e, assim, me recolho, enquanto Kaloca permanece bem contente ao pé do fogo. Durmo um sono só, acordando às 7 horas. Saio da barraca, sentindo na pele o frescor matinal. Tão revigorante isso tudo: o céu límpido, a grama molhada de orvalho e, lá embaixo, o vale recoberto, ainda, pelo manto branco da geada que teima em pairar sobre a terra. Sigo até o riacho pra pegar água e quando retorno, encontro meu amigo ainda deitado. Diz ele que, sem isolante, dormiu mal...
tadinho! Não quis trazê-lo pra não pesar demais na mochila. Também pudera, ela é qualquer coisa de pesada! Leva, além de barraca e outras traquitandas, 100 metros de corda pros rapeis que iremos fazer no cânion Tajuva. Às dez estamos já iniciando os procedimentos pra descer a primeira cachoeira que se revela, embora a altura seja apenas de 25 m, um pouco complicada. Trata-se dum brete, e as pedras, por onde escorre a água, são pontiagudas demais, exigindo certa cautela. Nem bem dez metros adiante, eis a segunda cachu. Maior moleza des
cer seus 10 m. A terceira queda exige duas cordadas, uma de 30 e outra de 45 m. Como meu neoprene não é lá dos melhores, damos balão em 4 cachoeiras porque apresentam poços fundos de águas geladíssimas. Uma pena porque são beleza pura de se rapelar, em especial a sétima e oitava cachoeiras, esta última com 45 m. Me aguardem, cachus porque voltarei no verão, com certeza! A nona e décima cachoeiras são barbadas de se rapelar. O Tajuva, na verdade, não chega bem a ser um cânion, está mais pra ravina. Mesm
o assim é muito bonita e fácil demais sua travessia, completada em cinco horas. Paramos num potreiro e de lá admiramos a linda parede sul do Tajuva enquanto me desvencilho da cadeirinha, capacete e neoprene, colocando roupas secas. Sentados na relva, comemos as sobras de nossas comidas. No retorno, colhemos, de um pé de bergamoteira, plantada ao lado da estrada, algumas frutas que saboreamos durante a pernada até o sítio. Compro dois litros duma cachacinha feita no alambique do tiozinho por R$ 2,50. Ao chegar a Praia Grande, olha só o que me espera!! Um baita pedaço de costela que Pauleca, marido de Mariazinha, estava assando há 4 horas. Como até fartar grossas fatias da suculenta e macia carne com aipim cozido, regando a comilança com duas generosas taças de vinho tinto. Afinal, o que regala a boca mal não faz, embora tenha dormido escutando uma algazarra esquisita no meu estômago.
Domingo, 21 de Junho de 2009
Canion Tajuva
Domingo, 7 de Junho de 2009
Conquista duma via de trekking
qui de hóspede, prefiro fazer as refeições na cozinha, super quentinha, graças ao fogão a lenha sempre aceso. Um aconchego só! A comidinha caseira que a gringa oferece está super apetitosa: bifes acebolados, arroz soltinho, feijão, batatinhas na manteiga, salada e de sobremesa, figo com pudim de leite! Deito cedo, estou podre de cansada, também pudera, acordei seis da manhã em Porto! Sábado, passo na casa de Kaloca e seu pai, seu Aniceto, nos leva em sua caminhonete, até o ponto de onde iniciaremos nossa caminhada. Vamos desbravar uma trilha rumo ao primeiro platô da parede norte do cânion Malacara. É meio-dia e lá vamos nós carregando nossas mochilas por uma senda que conduz até a crista da montanha. Carrego comigo os bastões que depois se revelaram não só desnecessários como incomodativos nesse tipo de trekking....enfim. Embora estejamos subindo, a trilha, no i
nício, não é difícil apesar das taquaras que vez por outra se emaranham no capuz da jaqueta presa no lado de fora da mochila com um pequeno mosquetão. Mas a moleza acaba porque logo adiante o mato se torna mais denso. É um tal de cipó enredando-se no meu corpo e raízes no chão dando calços nas minhas canelas que por pouco não me estabaco no chão. A trilha, feita por caçadores, é pouco utilizada nos dias de hoje em que a caça é controlada e punida. É um matagal sem fim, bem ruinzinho de se caminhar. Raros raios de sol penetram através da densa vegetação. Saímos, enfim, daquele cipoal e respiro, contente, de me ver livre de matagal tão enfezado. Mas qual o quê! A coisa engrossa quando deparo com um paredão de 245 m cuja escalada é inevitável. Obra de avalanches provocadas por sucessivas enxurradas, a encosta agora se apresenta desnuda de terra e vegetação, dificultand
o ainda mais o ascenso. Muitas das pedras nas quais me firmo deslocam-se, causando-me calafrios de pavor. Tremo nas bases. A vontade é de dar meia volta, volver. Kaloca, entretanto, dá uma força, ora me empurrando ora me içando. Eu só fico no aiaiaiai, gemendo, louca de medo de rolar ribanceira abaixo. E mal ouso lançar um olhar em direção ao despenhadeiro que se delineia aos meus pés. Pergunto aos meus botões o motivo pelo qual me meto nessas empreitadas. Concentradíssima em avançar e me ver livre de tal martírio, continuo a escalada, sentindo-me meio humilhada, porque estou sendo guindada, literalmente, pelo meu eficiente guia. Finalmente, chegamos ao fim da carrasqueira. Uma pequena façanha porque escalamos rochas super quebradiças sem segurança alguma (Kaloca esquecera de trazer corda). Segundo ele, fizemos uma escalada de 3º grau. Suspiro aliviadíssima
quando tudo termina. Triste engano. Espera-nos uma mata de bambuzal virgem, ultra cerrada, que Kaloca corta a golpes de facão. Ele, cujo cabelão comprido enrosca-se, amiúde, nos galhos dos arbustos, resmunga, entredentes, que vai cortá-lo a facão. Falo pra usar touca. Pois o, até então, paciente guia quase tem um chilique com tal sugestão. Explica que a tal touca – de lã – vai fazer com que sue. E segue dando faconaços nos bambus a torto e a direito! Antes eles do que eu, hehehe!! O terreno, forrado por folhas de bambu, é muito fofo, dificultando mais ainda a caminhada. E lá vamos nós subindo os 130m que faltam pra atingir o topo da parede norte do cânion Malacara. Demoramos, pra vencer esses 375 m, 2 horas e 30 minutos! Quando atingimos o platô, situado a uma altitude de 1.000 m acima do nível do mar, sou contemplada com a visão duma parte da parede norte do cânion Churriado. Lá e
mbaixo, no vale, Praia Grande parece uma cidade de brinquedo, tão diminuta está a essa distância. E a lua cheia já se mostra, perfeitamente, visível no céu, embora sejam apenas 17:30! Coisa linda tal cenário! Eu, bem feliz, supondo que agora a trilha seria sobre um terreno plano, rapidinho, percebo que estou andando nos campos sujos de cima da serra. Forrados de urtigão, capim alto e pequenos arbustos, a caminhada se faz árdua. Levo vários trompaços nas canelas quando esbarro nos caules duros dos urtigões e gemo de dor. Não paro de exclamar “merda” e “droga” a cada um minuto palmilhado. E o tal trekking nunca acaba. Pra piorar, o alto capinzal esconde Kaloca de meus olhos. E eu perdido
na naquela imensidão sem fim. Kalooooocaaa!!! grito eu, amedrontada (como sou cagona...santo cristo!). Obtenho como resposta apenas o silêncio, pois Kaloca, meio surdo, nem deve estar escutando meu aflito apelo. Fazer o quê, né? Sigo em frente. Lá pelas tantas - graças ao bom deus! - avisto a jaqueta dele e recobro ânimo, segura agora da direção a seguir. Quando o alcanço, ele já está armando a barraca. A clara luz do luar dispensa o uso de lanterna, tão iluminada está a paisagem ao redor. O silêncio que paira nestes ermos soa como a mais linda música nos meus estressados ouvidos urbanos. De comida, há queijo, salame e pão. Kaloca prepara uma sopa, a calhar com a baixa temperatura que já se faz sentir. Nem quero saber de curtir a fogueira, tampouco a lua no céu. Estou com muiiiitoooo frioooo!! Entro dentro da barraca, me enfio no saco de dormir e demoro quase uma hora pra aquecer meus
pés, duas barras de gelo. Nem bem nove da noite, a temperatura já atinge 0º C, e no teto da barraca há lasquinhas de gelo! Acordo apenas duas vezes durante a noite pra virar de lado! Às 7 da manhã, bem desperta, fico remanchando até as 8, quando não agüentando mais a vontade de fazer xixi, sou obrigada a sair de dentro da barraca. Quando retorno, acordo Kaloca. Ele me conta que ficou à beira da fogueira até 1 da madruga. Guri valente esse, segura todas as ondas, inclusive a de frio de renguear cusco!! E ficamos na boa ali em cima, curtindo o Malacara, o Índios Coroados e o Orbal que se avistam um ao lado do outro. Daqui de onde estou, consigo avistar, também, a tal garganta, ainda, inexplorada da parede sul do Malaca. Enquanto Kaloca desmonta o acampamento, vou buscar água num córrego, tropeçando nos urtigões. Desajeitada demais eu! E ficamos durante a fria manhã, cuja t
emperatura beira os 9º C, nos aquecendo em frente à fogueira. Conversamos, damos muita risada das bobageiras ditas e cozinhamos uma massa miojo a qual misturamos sardinha com molho de tomate. Um baita almoço domingueiro o nosso! Ao meio-dia, mochilas nas costas, partimos. Eu tremo só de imaginar que vou ter de descer aquela parede e ter de encarar o precipício de frente......aiaiai. E não deu outra! Foi uma tormentosa descida, auxiliada pela mão firme de meu guia. E o matagal inicial, que me parecera tão moleza na vinda, é trilhado aos trancos e barrancos em sua parte final. Cansada de tanta aventura, a irritação toma conta de mim e excomungo Kaloca durante aquela parte do trajeto (intimamente, é claro). Entretanto, o mal querer se dissipa quando avisto, por entre os galhos das árvores, a lua enorme, amarelona, a despontar na penumbra da tarde que se despede.Domingo, 31 de Maio de 2009
II Encontro Sul Catarinense de Escalada e Montanhismo
ego à tardinha, na pousada Colina da Serra, e na janta, Mariazinha, a meu pedido, preparou uma sopinha. Serve, ainda, a danada da gringa, uns croquetes e risolis de camarão – uma delíííciiiaaaa - que comemos, bebericando um vinhozinho tinto. Como sempre, o assunto entre nós rola fácil e ficamos naquela tagarelice bem feminina até que o sono bate e me recolho. Acordo trianimada e vou buscar Kaloca. Meu amigo pede que eu vá com Marcolino tentar soldar a antena do radioamador que quebrou. Depois de visitar três oficinas que não tinham a solda adequada, finalmente, encontramos uma, cujo dono, de nome Moderno, conserta, graças a deus, o artefato. Com o carro carregadinho de tralha, vamos felizes da vida estradinha afora. Marcolino se mandou na frente dirigindo a m
oto de Kaloca, que passa o trajeto todo me contando de seus últimos saltos de pára-quedas em Floripa. Em lá chegando, os guris, que já haviam construído um ranchinho, terminam de cobri-lo com lona. Não satisfeitos, constroem uma mesa de bambu pra colocar o computador e a aparelhagem de radioamador, necessária pra chamar resgate em caso de acidente. Kaloca, muito caprichoso, pendura capacetes e roupas de neoprene numa taquara e o barracão fica uma beleza de ajeitado! Esses dois, habilidosíssimos, são os Macgiver de Praia Grande, podem crer! Numa churrasqueira, feita de tijolos, assam umas lingüiças pro nosso almoço. Eu fico encarregada de cuidar do rango enquanto eles terminam de montar o acampamento. Qual não é minha surpresa quando, num descuido, vejo uma galinha bicando nossa comida. Foi aquele auê! Ka
loca dispara atrás da ave de pau em punho e a danada não corre, voa em louca disparada!! Muito hilária a cena! Nesta comunidade, localizam-se três canions: Josafaz, com 16 km, onde nasce o rio Mampituba, São Gorgonha e Faxinalzinho. Uma belezura de lugar! À tardinha, chega Sabrina, uma das organizadoras do evento, dona duns olhos azuis sensacionais, juntamente com Aline, uma loirinha rechonchuda, condutora local. E mais gente vai chegando e montando suas barracas ao longo da noite. A sonzeira rola em alto e bom tom. O ambiente, festivo, é pra lá de gostoso, é bótimo! À noite, acendemos um fogo na churrasqueira e sentamos a sua volta, bebendo vinho e conversando até as 2 da madruga. Aline e Joel tocam violão e cantam. Quer coisa melhor? Durante a noite, acordo com o barulho da chuva tamborilando o teto da barraca....que merda! Tantos fins de semana maravilhosos e logo neste dá pra chover?!! Droga, mil veze
s droga!! E durante todo o sábado chove quase sem tréguas. Claro está que pra galera da escalada isso é péssimo, porque sem chance escalar rocha molhada. Então só resta uma escalaminhada até a Pedra Branca, enfrentando uma trilha por demais lamacenta. Mas ninguém se mixa e lá vamos nós morro acima. Rafael, que veio do Paraná pra fazer base jump, não consegue saltar porque ao chegarmos ao topo de Pedra o nevoeiro é de brumas de Avalon. Sem condições de visibilidade, não rola o salto. Mesmo assim o pessoal curtiu demais a caminhada, e voltamos famintos pro acampamento. Cozinho pra mim e os guris (Marcelo, Marcolino, Kaloca e Rafael) aquele tradicio
nal ranguinho de acampamento: massinha miojo com atum e molho de tomate. À noite, há um festerê. Uma big janta preparada pelas mulheres da vila cujo cardápio caseiro faz todo mundo repetir e encher o prato com mais feijão, arroz, aipim, galinha caipira e saladas de cenoura, repolho, tomate e chuchu. São Roque é uma comunidade quilombola, habitada em priscas eras por escravos que fugiram de seus patrões, encontrando nesse fundão um refúgio pra tantos maus tratos. Como toda comunidade fechada, os casamentos acontecem entre as famílias. Assim é um tal de primo casando com prima, em infindáveis laços familiares. Frank, cujo sugestivo apelido é Piolho de Dread, apresenta Seu Afonso, um dos moradores locais, figura muito simpática que conta uns causos sobrenaturais. E um vídeo sobre a comunidade é exibido, além de sorteios de vários objetos. Eu, bem cansada, vou deitar cedo, mas soube, no dia seguinte, que a festa rolou até alta madrugada, com roda de viola. Estou eu dormindo a sono solto, quando Marcelo me acorda, pedindo a chave do meu carro. Os organizadores do evento, per
cebendo que o Faxinalzinho elevou o nível de suas águas, avisam à moçada pra que passem seus carros pro outro lado do rio porque, se ele encher, nós ficaremos ilhados aqui até que as águas baixem. Já pensou?! E assim inicia-se um fuzuê de carros atravessando o rio às 2 da madruga. E o acampamento ferve de tanta excitação. Claro está que levanto e vou ao barracão conversar sobre o sucedido, lá permanecendo até as 3 da manhã, quando então retorno pra barraca. Na manhã seguinte, domingo, embora vente muito, o sol está a mil, céu de brigadeiro, um dia esplendoroso. Decido acompanhar Bruno e Sergio, dois portalegrenses, até o outro lado do rio Mampituba, onde há, segundo Flavio, guia local, umas formações rochosas boas pros guris tentarem fazer boulder. As pedras molhadas, entretanto, impedem a escalada. Bem que eles se esforçam, porém mal conseguem avançar poucos metros parede acima já que está pra lá de escorregadia devido à chuva de o
ntem. Muito bem humorados, divirto-me deveras com os dois, filmando suas travessuras nas rochas. Gente finíssima. Aliás, muito bacana a galera toda: o falante Gil, natural de Brasília, radicado agora em Tubarão, e atual presidente da GMT, a esguia Monalisa, de olhinhos puxados, a meiga Gezaela em cuja barraca eu me hospedei, as três gurias escaladoras que vieram de Criciúma, o pessoal de Passo Fundo, os guris de Sapucaia, e tantos outros mais cujos nomes, infelizmente, não consigo recordar. Soube depois que alguns escaladores se tocaram pra Pedra Branca e conseguiram realizar duas ascensões: uma de três cordadas na via Urubu Rei e outra até a metade na via Xocleng. Apesar do mau tempo, foi um encontro muiiitooo legal, ninguém saiu insatisfeito porque o clima de confraternização foi alto astral, sem qualquer incidente negativo. Tudo transcorreu na santa paz. E ano que vem tem mais, podem crer!Domingo, 17 de Maio de 2009
Rapelando a Urubu Rei
na sexta vez, dia 23 de dezembro, iupi hurra, consegui, finalmente, passar (de tão feliz, sapequei beijocas não só no Rafael, meu instrutor, como no atônito examinador). Foi o melhor presente de Natal ganho até hoje!! Bye Bye Unesuuullll, coisa boa nunca mais ter de pegar o sacolejante ônibus com quinquilhões de paradas estrada afora, sem falar na preocupação constante, caso dê vontade de fazer xixi ou outra coisa, pois banheiro não há no veículo. Saio de Porto às 7:15 e chego às 11:20 na cidade dos canions. Paro duas vezes p
ra descansar, tomar cafezinho e fumar cigarrinhos, na santa paz de quem pode partir a hora que lhe dê na veneta. Minha média de velocidade não ultrapassa os 70km/h nos 242 km de percurso entre as duas cidades. Estou adorando esta nova aventura, encantada em dirigir na estrada. A sensação de liberdade enche o meu coração de alegria. Lembro várias vezes de meu pai, exímio motora, agora, habitando outra galáxia. Ele, com certeza, deve estar sentindo um baita orgulho de mim. Pode crer, velhinho, é isso aí, tá no sangue! Abro um tantinho do vidro pra deixar entrar o
vento, e vou a viagem toda curtindo altos sons em meu cd player. Vez por outra arrisco uma olhadinha na bela paisagem das lagunas, abundante nessa região. Mariazinha me espera com um feijão tropeiro. Almoçamos enquanto botamos o papo em dia. Depois que baixa a adrenalina da emoção da viagem, vou descansar um pouco antes que Kaloca venha me buscar. Vou repetir - quarta vez? - os rapeis da Magia das Águas. O dia lindo, quente, sem nuvem alguma a embaçar o azul do céu. Desisto, contudo, de fazer as duas últimas cachoeiras porque minha coxa direita recomeçou a doer. Tenho de me poupar senão a leve distensão pode resultar em algo mais sério. Combinamos então uma ativi
dade amena pro domingo e retorno à pousada. Dia seguinte, o tempo permanece ma-ra-vi-lho-so. Kaloca surge lá pelas 9:30 em sua moto, e nos tocamos pra Pedra Branca. Vamos hoje fazer novos rapeis nessa linda montanha cuja cor, como o próprio nome indica, é esbranquiçada devido aos líquens que a recobrem. Subimos pela crista oeste (a leste, segundo palavras de Kaloca, é pra pêlo duro porque cheia de mato cerrado), uma encosta íngreme coberta de mata atlântica até o topo da Pedra. Paramos pra olhar o vale da Pedra Branca onde o rio Mampituba imprime, na paisagem, um sinuoso rastro prateado. Urubus voam ali e acolá. Nossos rapeis, desta feita, serão feitos a partir do colo que une os dois cumes deste maciço formado por pedras que, embora basálticas, são muito quebradiças. Pra alcançar a Pedra Branca, segue-se por uma
estradinha de chão batido passando pelas comunidades da Mãe dos Homens e Roça da Estância até alcançar a de São Roque, encravada nos fundões de Praia Grande. Na verdade, a Pedra Branca situa-se no Rio Grande do Sul já que se tem de atravessar o rio Mampituba, divisa entre os dois estados. Apresenta o colosso rochoso duas paredes, a norte e a sul. A primeira apresenta 9 vias de escalada, a saber: Formiga (50m), Decisão (75m); Caterpillar (60m); Morcegos (90m); Xocleng (90m); Ratazana (100m); Jararaca (80m); Urubu Rei (140m); Camaleão (130m). Já a segunda, muito úmida, porque não bate muito sol, apresenta-se, quase, inteiramente, coberta por densa vegetação, o que impede a prática desse esporte. Do topo dessa Pedra, é, ainda, possível aos amantes d
e base jump lançar-se em proezas aéreas, aterrissando no vale lá embaixo. Bueno, pra chegar ao pico onde os rapeis irão começar, desço uma parede quase vertical duns 30 m. O platozinho é estreito pra caramba, e vejo, a uma altura de 600 m, o vale da Pedra Branca, à esquerda, e o canion Josafaz, à direita. É de amedrontar a altura, pelo menos pra mim. A caro custo, chego na via, a clássica Urubu Rei (confesso, até pensei em desistir, usando como desculpa a distensão na virilha), e me posiciono. Kaloca rapela primeiro, soltando gritos animados de modo a me incentiv
ar. Eu já mais tranqüila, inicio os procedimentos de descida. Ademais, o dia ajuda muito. Um reconfortante sol aquece meu corpo, nem sinal de vento, e aquele mundaréu de lindas pedras sequinhas bem à minha frente! É moleza, bem diferente de canionismo. Pendurada a uma altura de 400m, aprecio as chaminés escavadas entre as rochas justapostas e os belos degraus formados na parede, facilitando a escalada pra quem curte este esporte. São quatro os rapeis, num total de 100m de descida. Ancorada na rocha, entre uma cordada e outra, tenho, como apoio, apenas pequenas agarras. Arbustos floridos
e bromélias nascem nos vãos das pedras. Líquens e musgos recobrem o basalto. Muito louco o visual. Agora, já bem à vontade, dou-me ao luxo de pedir segurança a Kaloca e largo a corda pra filmar. O medo se evaporou. Chego ao final da via, lamentando o término da aventura. Uma caminhada, por uma estreita trilha na base da pedra, me deixa um pouco tensa porque se faz necessária uma pequena escalada, porém com ajuda de Kaloca supero as dificuldades. E eis nós de volta à crista oeste já descendo em direção ao vale da Pedra Branca. O sol, de final da tarde, bate em cheio nela, iluminando seu cume. Beleza pura! E finalizamos nossa indiada, chupando bergamotas, as primeiras da estação, colhidas do pé por Kaloca.Terça-feira, 21 de Abril de 2009
O valentão se revela!
Na segunda-feira, tiro o dia pra descansar. Fico na cama lendo o último livro da Danusa Leão, uma narrativa sobre viagens a algumas cidades européias. A prosa da capixaba é leve, bem
humorada. Ademais, fornece dicas de lugares que fogem do circuito convencional. É tudo do que preciso pra desopilar. Em torno das 9, levanto e vou pro refeitório. Bebo um copo de leite e descasco uma banana. Mariazinha, na cozinha, junto com sua ajudante Bia, outra xará (ultimamente, tenho conhecido tantas Beatriz!), prepara sei lá o quê no fogão pro almoço. Aliás, quando se encontra na pousada, está sempre às voltas com as panelas porque, cozinheira ciumenta que é, não admite intromissões em seu reino. Arrisquei uma vez e nunca mais, depois que vi sua cara feia me fuzilando com os olhos....eu hein?! Vá lá que resolva botar veneno na minha comida, né? Ficamos batendo papo e dando risada de bobagens Vez por outra trocamos pequenas alfinetadas, nos deleitando quando alguém, que não nos conhece, leva a sério esse jeito falsamente inamistoso de nos relacionarmos. Curtimos demais representar esse teatrinho! E assim continuamos na boa até a hora do almoço. Terminada a refeição, vou pra cabana descans
ar, assisto um pouco de tevê e depois vou visitar Kaloca percorrendo a pé os 2 km que separam sua casa da pousada. Durante a caminhada, paro pra fotograr flores e curto o vôo de um bando de gralhas voando no céu. Encontro meu guia saindo. Pego uma carona com ele e lá vamos nós em sua motoca até Praia Grande. Procuro uma loja que venda revistas mas nada encontro. Pergunto a uma vendedora como o povo daqui faz quando quer comprar alguma. Responde que as pessoas ou têm assinatura ou então vão a Torres comprá-las. Aproveito e visito Inês, uma conhecida, dona dum restaurante, já que me restam 30 minutos antes de encontrar Kaloca
, na praça, às 15:30. Retornamos à sua casa e lá fico batendo papo com ele mais um pouco na sede da Aparados. Retorno a pé pra pousada e vou ao refeitório bebericar minha tradicional cachacinha de ervas enquanto aguardo o horário da janta. Durante a refeição, os dois guris de Rio do Sul contam que irão rapelar a mesma seqüência de cachus que eu descera no Rapel do Café, sábado à tarde. Decido ir junto também. Pouco importa se já as fizera há dois dias atrás. Quanto mais pratico mais experiência adquiro. Na manhã seguinte, pego uma carona com eles de carro até a Aparados. Kaloca está com um amigo, Marcolino, e os dois seguem de moto na frente. O pai dos guris resolveu também fazer os rapeis e quando chegamos no café do Valmor, pegamos a tril
ha em direção até a oitava cachoeira. Já na subida, um pouco íngreme, o guri de 16 anos, que largara na frente igual a um potrinho marrento, começa a dar sinal de cansado e logo logo fica pra trás. Bufando nos alcança e reclama um pouco. Comento que não dá pra gente acompanhar o ritmo de Kaloca e Marcolino porque eles têm muito preparo físico (o guri tentara por isso está botando os bofes pela boca). Chegando na oitava cachoeira, com 37 m, desço primeiro e lá de baixo fico observando a rapelagem dos três. O guri é o primeiro. Percebo pelo jeito como posiciona as pernas e segura a corda com o braço direito, um pouco de medo, natural pra quem faz rapel pela primeira vez. Contudo, partindo dele que já houvera praticado um pouco dessa técnica, ainda que em parede de cimento, somada à sua atitude um tanto quanto presunçosa, quando dera a entender que tiraria de letra rapeis em cachoeira, eu estranho. Na segunda cachoeira, uma r
ampa suave, descemos sem quaisquer dificuldades. Até criança tira de letra essa cachu! Quando alcançamos a Sinistra com seus 47 m, percebo que o guri já está começando a sentir o cutuco. Ele, que, até então, não manifestara vontade de ser o primeiro, se escala pra ir na frente. Bem típico de quem está levando medo. Ele custa pra entrar na posição de rapel e mais ainda pra descer os primeiros metros da cachu, revelando com isso seu temor. E nas duas cachoeiras restantes, tenho oportunidade de confirmar que a presunção inicial, manifestada pelo garoto, escoou água abaixo, literalmente. E não resisto a um comentário levemente provocante: “bem diferente de fazer rapel em parede, né? Ele, embora mais humilde, ainda não dá o braço a torcer, lançando leves muxoxos de pouco caso. Seu pai e irmão que, em nenhum momento se jactaram, desceram bem mais tranqüilos porque não se furtaram a demonstrar seus temores. Pois é, eu não disse que ainda pegava ele? Hehehehe.
Domingo, 19 de Abril de 2009
A assombrada cachoeira do Kalu
O domingo promete, o amanhecer violáceo, nos campos de cima da serra, está esplendoroso às 6 da manhã. Caminhamos até a borda do cânion e descemos a pirambeira do vértice sul do Malaca que conduz até o poço das Abelhas Zangadas. Hoje vou rapelar as cachoeiras que ainda me faltam desse cânion, cujo outro vértice, o norte, forma apenas uma cachoeira, cu
ja altura calculo, seja em torno de 60 m. Ambos os vértices unem-se à altura da sexta cachoeira. Na parede norte, enormes reentrâncias na rocha formam grutas suspensas a uma altura de 700 metros. Lembram os grandes nichos que há nas igrejas para abrigar os santos. Rapelo pela segunda vez a cachoeira dos Degraus, a do Poço Negro e a que lhe segue, justo na saída deste poço. O céu, até então límpido, começa a nublar. Minha roupa de 3 mm não me protege o suficiente das gélidas águas. Começo a encarangar enquanto espero que Kaloca termine os procedimentos de puxar as cordas, ancoradas numa chapeleta, no topo desta cachoeira, a décima segunda do cânion. Neste ponto, o Malaca é muito frio, devido ao estr
eitamento de suas paredes, que não permitem a passagem duma réstea de sol. Seguem-se mais duas pequenas cachoeiras. Eu as rapelo; Kaloca, entretanto, pula de ambas, mergulhando em seus poços. É o homem-peixe em ação! Ciente de que há a famosa cachoeira do Kalu, conhecida como do Salão, antes do acidente fatal que vitimou um jovem, peço que ele não me diga quando lá chegarmos. Do que se ignora, não se sente medo. Quando chego à próxima cachoeira, meu instinto assopra que ela é a crux da via por causa da tragédia aqui ocorrida. E repasso, então a vocês como tudo aconteceu. Chovera muito forte, ininterruptamente, durante três dias. Depois dum chuvaral desse naipe, as cachoeiras apresentam, invariavelmente, um fluxo muito agressivo, cheio de pressão em suas águas. O tal rapaz, que praticava mais escalada que canionismo, decidiu mesmo assim descê-la, utilizando um
a corda dinâmica, comumente empregada apenas em escalada, seu grande erro. Ora, o volume poderoso da água aliado ao uso da corda dinâmica, jogou o cara contra as rochas várias vezes. Ele não resistiu, por óbvio, aos ferimentos - fratura no crânio - e deu com a cola na cerca, como se referia meu pai quando alguém morria. Os seus outros dois acompanhantes presenciaram, do topo da cachoeira de 45 m, a trágica cena sem, contudo, poder acudi-lo. Prudentemente, trataram de dar meia volta e, buscando um carreiro lateral, saíram em busca de socorro. Desde então, a cachoeira passou a ser chamada do Kalu, em homenagem ao infeliz rapaz. Se Kalu houve
sse agido com prudência e observado certas técnicas de cascade, poderia, ainda, estar vivo, experimentando aventuras mis. Uma pena, realmente. Invocando santos e orixás, procuro manter a calma enquanto a rapelo, embora sinta um aperto no fiofó. Na verdade, ela não é difícil. Como adverte Kaloca, só quando chove muito. Daí não dá pra meter, nem mesmo usando corda estática. Chego, enfim, sã e salva em seu poço, com um sentimento de alívio e de missão cumprida. Desde que comecei a praticar canionismo, questiono-me muito a respeito da prática deste esporte. Será só pra afrontar meu medo de altura, ou pra ultrapassar certos limites convencionais, de modo a me sentir especial? Talvez sejam as duas coisas juntas. De certo, é que, atualmente, prefiro mais a ação às atividades intelectuais. Fazem com que eu me sinta mais viva! Mais uma breve caminhada e eis a a cachoeira dos 5 Fios, com 38 m, a última do dia. Como tem chovido pouco nesse verão, o
quinto fio secou. Uma descida sem grandes problemas. Depois disso, é só pernada, aliás, uma dura caminhada de 4 horas até a boca do cânion. E já a cerração começa a cobrir os seus paredões. Uma ameaça de chuva, graças a deus! limita-se apenas a uns poucos pingos esporádicos. Após a cachoeira dos 5 Fios, torna-se muito interessante a morfologia da parede norte: em seu topo, curiosas formações rochosas assemelham-se a ameias e torreões de castelos medievais. Esta parede, ao contrário da parede sul (com uma só garganta), apresenta sucessivamente 4 gargantas: das Gêmeas (dois rapéis, um de 100 m, o outro de 180 m), do Braço Solitário (9 rapéis), da Cascavel (9 rapéis) e, por fim, a via K (14 rapéis), primeira conquista de meu guia, feito esse realizado em 1998. Daí a sua denominação: K de Kaloca, o intrépido desbravador!
Sábado, 18 de Abril de 2009
E viva Tiradentes!
agência de Kaloca, situada também na estrada da serra do Faxinal. Quero combinar com meu guia a aventura do dia. Fica de me pegar de moto às 14 horas, assim, diz ele “dá pra a gente almoçar tranqüilos, Biazinha”. Já na pousada, brinco com Maria, dizendo que a Colina caiu uma estrela porque não encontrei flores enfeitando meu quarto como das vezes anteriores. A gringa não se aperta, tem sempre uma resposta na ponta da língua, e esclarece que eu mereço coisa melhor que as comuns quaresmeiras e hortênsias, únicas flores que ainda vicejam em seu jardim. Tá cara que ela esqueceu! Essa Mariazinha tá me saindo uma deslavada mentirosa, isso sim! Terminado o almoço, serve uma ambrosia, receita dada por mim. Troçando dela, digo que a minha é muito melhor. Ela faz biquinho fingindo-se zangada. Tudo jogo de cena, é uma artista que o mundo desconhe
ce ainda. Kaloca, pontualmente, dá as caras. Eu já vestida com meu neoprene azul-piscina, novinho em folha, subo na garupa e lá nos tocamos pela estrada da Roça da Estância até o café do Valmor, de onde pegamos a trilha pra descer as cachoeiras do Rapel do Café. Serão apenas as cinco últimas porque pra fazer todas as 12 teríamos de ter começado de manhã cedo. O dia está ensolarado e as cachoeiras, mansas, sem muita água, ao contrário da véspera de ano novo, quando foi aquele stress devido ao grande volume de chuva que caíra durante os rapeis feitos com Gabriel, Camile e mais o grupo dos cariocas. Tiro de letra a temida cachoeira Sinistra. uma tranquilidade rapelá-la com pouca ág
ua. Oxalá, todos os rapeis fosse assim! No retorno, desço na Aparados. A cabana de madeira está uma beleza. Praticamente construída por ele, encontra-se quase pronta. Aproveito pra acessar a internete e depois vamos até a residência de seus pais, situada a uns 50 m adiante, cruzando o bosquezinho existente no terreno. Dona Edi, mãe de Kaloca, cativa pela simplicidade. É uma santinha. Chama-me de Dona Bia, mesmo sendo mais velha do que eu. Educação antiga, gente, educação antiga! Convida-me pra pousar. Recuso o convite, explicando que, se aceito, Mariazinha é bem capaz de botar fogo na casa deles de ciúmes. “E um cafezinho com mistura, Dona Bia? Mistura vem a ser o pão, bolo ou bolacha que acompanha a bebida. Bebo uma chávena de café preto e provo um pedaço de bolo de laranja feito por ela. Peço, então, a Kaloca pra me levar até a pousada. Hoje a janta está caprichada porque têm mais hóspedes (se sou só eu, a comida é mais simples, afinal, já sou d
e casa). Sento à mesa com uma família de Rio do Sul, os pais e dois rapazes. O mais moço, com 16 anos, conta que praticou rapel quando foi bombeiro mirim. Onipotente como todo guri dessa idade, faz cara de pouco caso quando narro minhas aventuras nas cachoeiras. Dá a entender que tirará de letra quando for fazer rapel. Pergunto a ele o que rapelou. Responde que apenas uma torre de concreto. Explico que não dá pra comparar com os rapeis em cachoeiras. Seu irmão, mais velho, concorda comigo. Mas o guri não se dá por vencido e fica minimizando minhas façanhas. Eu deixo a coisa quieta. Ainda te pego na curva, seu presunçozinho....podes crer! E vou deitar cedo, apesar do pedido de Maria pra que eu permaneça, enquanto arruma a cozinha. “Só não, abençoada, tenho de acordar 4:30, Kaloca vai passar aqui às 5.” E vou pra cabana encerrando a conversa. Mariazinha, hoje, vai ter de lavar a louça sem a ajuda de minha prosa, hehehe.bmp)