quarta-feira, 17 de junho de 2015

Sobre Todas as Coisas

Engraçado que se eu comparar o cicloturismo feito em março na Patagônia argentina com o pedalado recentemente nos campos de cima da serra, na região de Ausentes, guardo melhores recuerdos deste último. Refletindo sobre tal sentimento chego à conclusão de que o pedal de 6 dias na chamada região dos 7 lagos, compreendida entre San Martin de los Andes e Bariloche, embora inegávelmente bela seja a paisagem, o pedal, friso, não foi de molde a que eu me afeiçoasse. Por quê? A principal razão foi que os deslocamentos entre as cidades praticamente se deu em asfalto, enfrentando a super movimentada Ruta 40, cujo tráfego intenso de caminhões e carros exigiu bastante atenção. Em segundo lugar, tais points, de óbvio apelo turístico (a semelhança de nossa Gramado), não me atraem muito. Sou mais a fim dos menos civilizados. Claro está que curto lugares charmosos e confortáveis, pero se me é dado escolher, sempre aponto o dedo no globo terrestre para aqueles pouco freqüentados, tanto pelos locais quanto por turistas. Enfim, as villas patagônicas por onde andei - San Martin, Traful e La Angostura - exibem aquele visual bonitinho, certinho, com os indefectíveis prédios e interiores estilosos – no caso o falso rústico que usa e abusa de pedra e madeira (mais uma vez Gramado me veio a cabeça). Nos dois primeiros dias, ficamos em San Martin, pequena e charmosa cidade, pertencente à província de Neuquén, aninhada à margem do lago Lácar onde pedalei, aí sim, em estradas de chão batido, até o mirador Bandurrias de onde se tem uma visão estupenda do lago Lácar e de alguns cerros adjacentes, dentre eles o Chapelco que mereceu uma visita no segundo dia de pedal. Nos outros 4 dias, conheci vários lagos, como o Villarino, Traful, onde às suas margens localiza-se a pacata vila de mesmo nome, Correntoso, Bailey Willis, Espejo e por fim o infindável Nahuel Huapi em cuja margem desponta a efervescente Bariloche, cidade a meus olhos super desinteressante, exceto pelas lojas especializadas no comércio de chocolate, diga-se de passagem, de excelente qualidade. Chamou atenção na ruta 63, estrada de chão batido que liga vila Traful à ruta 40, vestígios, no chão e nas árvores, das cinzas expelidas pela erupção do vulcão Puyehue, ocorrida em 2011. Se for para escolher do que mais gostei, fico com o bosque de los Arrayanes, de onde se tem uma admirável visão das águas azuladas do lago Nahuel Huapi e da laguna Verde, em Villa La Angostura. Graças a deus, uma semana após meu retorno, já tinha agendado um pedal com uma figuraça que atende pelo nome de Marcos Grandi, um caxiense sempre bem humorado e entusiasta da vida ao ar livre como eu. Assim foi que passei um fim de semana na serra, mais exatamente acampada no mirante Gelain, situado em Flores da Cunha, de onde se descortina uma das trocentas dobras do serpenteante rio das Antas. Pra celebrar o findi e nosso reencontro após um ano, Marcão bolou um pedal maneiro, bem light, de aproximadamente 50 km. Com início em Caxias do Sul, percorremos, inicialmente, a hoje asfaltadissima Linha 30, conhecida como Caminhos da Colônia até Otávio Rocha, onde almoçamos umas gordices empapadas de gordura que rebatemos com uma jarra de vinho rose da colônia. Pra fazer a digestão, uma pegadinha de chão batido até o sítio dos Bernardi onde experimentamos suco de mirtilo e cachacinha de alambique, retornando a Caxias pela Linha 60, novamente socando a bota no asfalto. No domingão, caminhada de 9 km na mata atlântica, percorrendo uma antiga picada aberta por caçadores que parte do Belvedere Sonda até um ponto da margem esquerda do rio das Antas onde fluem as nervosas águas da corredeira Armagedon sucedida pelo despencar furioso do Cachoeirão. No feriado de Tiradentes, mês de abril, resolvi aceitar o convite de Fátima e me mandei pra Telêmaco Borba/PR, onde pedalei por 3 dias, percorrendo basicamente estradas de chão batido cascalhadas (odeio esse tipo de estrada porque quando comprei um terreno me ralei toda) na companhia dum grupo de curitibanos, chamados Klandestinos. Com algumas subidas e descidas pegadas, o pedal transcorreu em meio à sombra dos altos e delgados eucaliptos e pinus, fruto duma ação de reflorestamento de 11 mil hectares realizada pela empresa de celulose Klabin. Em maio, na metade do mês, retornei a Caxias onde acampei mais uma vez na companhia do simpaticíssimo Grandi no mirante Gelain pedalando dessa feita na região de Nova Pádua. Foram 50 km de estradas asfaltadas e de chão batido tendo como cenário vales e serras da região dos vinhedos, conhecendo alguns travessões (nome herdado da divisão administrativa da época imperial onde colônia se dividia em léguas e estas em linhas ou travessões) cujo destaque foi o do travessão Curuzu. Ao longo das estradas, bergamoteiras e laranjeiras, carregadinhas de frutas maduras, eram um convite irresistível a que parássemos e as desfrutássemos. No final de maio, nos mandamos eu, Kelly, Henrique Butina Weyne e Carlos Armando pro sul de Santa Catarina onde, no sábado, pedalamos num bate-e-volta de 40 km entre Praia Grande e Comunidade São Roque com direito a uma escalaminhada até o topo da Pedra Branca. Já no domingão, um pedalito e pernada leves no Parque Nacional Aparados da Serra. Encerrando o primeiro semestre de 2015, a cereja dos pedais, sem sombra de dúvida, foi aquele organizado pela Guenoa e Akatu (empresas de Caxias do Sul), na região dos campos de cima da serra entre Jaquirana e São José dos Ausentes. Foram 3 dias pedalando sobre chão nem tão batido assim, com muiiitas subidas e algumas descidas bem técnicas, crivadas de pedras soltas. No 1º dia, pedal perrenguento que saiu de Jaquirana e terminou em Ausentes, com direito a travessia nas águas geladíssimas do rio Camisas. Tanta dor senti nos pés por causa da baixíssima temperatura da água que, por pouco, não pedi a um dos guris que, por favor, me pegasse no colo e me levasse até a outra margem. Já no 2º dia, a aventura  incluiu uma visita ao canyon Amola Faca, belíssima garganta situada a 15 km do distrito de Silveira. E no 3º e último dia, a indiada pedalícia terminou nas curvas deslumbrantes da serra da Rocinha. Sem sombra de dúvidas, os campos de cima da serra gaúcha além de serem bem mais preservados são muito mais belos do que os campos gerais paranaenses que eu conhecera no pedal de abril. Afora que lá não dão pinta os impressionantes canyons que aqui enriquecem sobremaneira o visual!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Uhuuuu......conseguimos!!

Dormimos no verão e acordamos no outono, tanto que esfriou de ontem pra hoje. O céu mantém-se quase totalmente nublado durante a manhã. Terminado o desaiuno, gostosinho, deixamos a pousada com instruções da gerente de pedalarmos um trecho de 300 metros na IB e, logo após cruzarmos o arroyo Solis Chico, dobrarmos à direita pra pegar a rambla que contorna o rio de La Plata, o que seguimos ao pé da letra. Tudo pra nos livrar da barulhenta rodovia. Quando vejo a estátua dum sapo à beira do arroyo, peço a Fátima que me fotografe ao lado do animal. No Facebook, registro o encontro pilheriando que finalmente encontrei meu príncipe encantado. Fico sabendo, posteriormente, por Mariângela, que o tal sapo se chama Ranulfo, personagem de estórias infantis apreciadíssimas pelos niños uruguaios.  A sugestão de seguir pela rambla revela-se uma dica preciosa. A estrada ao longo de 12 km atravessa uma zona ocupada por belas dunas e bosques de eucaliptos, percorrendo as praias Parque del Plata, Las Toscas, Pinares, Brava e Mansa, estas duas últimas pertencentes ao balneário de Atlântida. Neste balneário, bem maior que Floresta, fazemos uma breve incursão porque estamos a fim dum lugar onde possamos tomar um expresso. Abro um parênteses pra explicar que a cada lugar que conheço e me apaixono, sinto ganas de comprar casa. Se assim fosse, já teria a essa altura dezenas e dezenas de residências, hehe. Entramos num restaurante não sem antes perguntar se há wifi. Isso porque eu e Fátima, biriris internéticas, não podemos passar muito tempo desconectadas. De Atântida em diante, somos obrigadas a retornar à movimentada Interbalneária cuja única vantagem é contar com um belo dum acostamento. Cruzamos o largo arroio Pando onde, à sua margem direita, diversas pessoas pescam e nadam. O nublado do céu cedendo ao forte vento  começa a se exibir cada vez mais azulado. Isso mesmo o que vocês estão pensando! Continua a não nos dar trégua - desde ontem! - o sudestão! Resolvo, numa manobra pra tentar evitá-lo, não seguir pela IB e dobrar na avenida Giannattasio na ilusão de me livrar dessa porra de ventania. Qual o quê! Ele continua nos castigando com severidade. Paramos em um lugar chamado Pinar pra comer o sanduba que Jô, carinhosamente, preparara pra nós 4 ontem à noite. Dobramos então na avenida Eduardo Marquez Castro percorrendo 2 km, se tanto, até alcançarmos a rambla Costanera. Inicialmente, sem acostamento, tenso é o pedal neste trecho da estrada. Finalmente, respiro, aliviada, quando avisto a placa indicando a playa de Carrasco porque a partir daqui tem início o larguíssimo calçadão que vai até a ciudad vieja em Montevideo. Convido Fatima a pedalar nas internas do belo bairro cujas residências suntuosas mostram que ali reside gente abastada. Perto do cassino, paramos pra almoçar no restaurante Garcia, especializado em parrilla. Fátima pede um suculento rack de cordeiro super macio. Eu, nhoques com presunto e queijo. Bebo tanat, já a ex-tragoleu Fátima, 3 cervejas sem álcool. Santa Maradona e Garcia são de longe os melhores momentos gastronômicos da viagem até agora! Bem alimentadas, faceiras, seguimos pela rambla. Fátima, não contente de pedir que a fotografemos (dezenas de vezes durante o dia!), ainda instrui como devemos fotografá-la. No momento em que estou me preparando pra sacar a tal fotografia, uma moça avança em sua direção. Atônita, a Monster pensa, inicialmente, que a jovem está se oferecendo pra tirar a foto dela, diante de minha visível má vontade. Qual o quê, quer sair na foto. E outras 4 saltitantes muchachas, soltando alegres gritinhos de "yo también, yo también" rodeiam Fatima pra aparecer na foto. Essa é boa, Monster tem até fã clube uruguaio, hahaha. Os 18 km restantes de pedal até Punta Carretas, onde fica nosso hotel, é feito com um pé nas costas! Tão feliz estou por ter conseguido chegar a Montevideo que lágrimas afloram aos meus olhos enquanto no Ipod rola um baita tango que me emociona ainda mais! Bienvenida Biazita!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Uma Floresta na Costa Dourada

Nosso bangalô realmente faz jus ao nome Bella Vista. Em frente à praia, a larga e ampla costa do rio de La Plata. Embora haja nuvens, o céu se mostra em sua maior parte limpo. Uma leve brisa balança suavemente os galhos das árvores. Não servindo café da manhã, saímos pedalando sem sequer um abanico à única pousada onde não fomos nada bem tratadas. Ao cabo duns 4 km, encontramos uma fruteira onde paramos pra fazer um ranguinho. Provo alguns pêssegos que, sumarentos  e carnudos, estão deliciosos! Por quase 5 km seguimos pela Ruta 10 até nova interrupção pela mesma Interbalneária onde pedaláramos na manhã do dia anterior. Embora seja feriado, o movimento na autopista é forte. O tempo muda e as nuvens, até então esparsas, se juntam tornando o céu agradavelmente encoberto! O que atrapalha é o vento sudeste, o famoso pampero (creio que equivale ao nosso minuano), que nos açoita impiedosamente durante os 39 km restantes até Floresta, nosso próximo destino. Por diversas vezes o ar deslocado pelos veículos - em especial, os provocados pelos ônibus - quase me derruba da bici. Fodástico no mau sentido pedalar contra esse vento que, se fosse de rajada, vá lá, mas nessa batida contínua é duro de suportar. Pra piorar, algumas subidinhas que aliadas ao super vento tornam mais pesado o pedal.  Já no departamento de Canelones, vejo anunciada numa placa que faltam 10 km até Floresta. Jô e Angélica dessa feita não conseguem se distanciar muito por causa da ventania. Só mesmo um sudeste a fudê pra conter as galos cinzas do pedal, hehe. Espero Fátima, pedalando quase 1 km atrás de mim. Ela atualmente não se puxa tanto como há 2 anos quando a conheci. Naquela época, adorava estar na linha de frente. Olho pro relógio e vejo que os ponteiros marcam exatas 15 horas. Floresta, aleluia, é o primeiro lugar durante esses 6 dias de pedal onde conseguimos chegar cedo. Pergunto prum cidadão onde há restaurantes abertos. Esfaimadas como estamos, já nem tendo mais no estômago aquele desaiuno frugal da manhã, só o que queremos antes de ir pra pousada é comer algo de sustância. "Están cerrados", responde o senhor, "solamente a la noche estarán abiertos." Que merdaaa! Pero, descobrimos, aleluia, um supermercado aberto onde praticamente todos os veranistas se encontram no momento comprando alguma coisa. Quando chega a minha vez de ser atendida no balcão da fiambreria, peço maionese, um bife a milanesa e um pote de salada de frutas. Claro está que não esqueço de também levar uma garrafa de vinho branco. O vento piora e começa a esfriar, dando uma refrescada geral na temperatura até então elevadíssima. Terminadas as compras, vamos a cata da pousada. Pergunta dali, fuça daqui, (com nova desavença entre mim e Monster, só que dessa vez, eu ganho a parada, hahahaha), encontramos nosso hotel....aleluia! Indicamos pras gurias, que haviam chegado antes de nós, onde é o super e lá se vão as 2 comprar seus mantimentos. A comida está deliciosa e não só porque estou faminta, não!! Tá boa mesmo, tanto que tenho de me controlar pra não devorá-la tamanha minha fome. Construída a beira do Arroyo Solis Chico a 1 km da praia, o Refugio del Solís conta com uma boa estrutura de lazer: piscina tanto ao ar livre quanto térmica, além de jacuzzi e restaurante. Nossa habitação é uma simpática cabana com cozinha, banheiro, sala e 2 quartos. Descansamos um pouco após o almoço, aproveitando pra postar fotos no Face. O que estraga a paz do lugar são uns monstrinhos exibidos, dirigindo uns barulhentos quadriciclos que devem ter ganhado de Natal. Que vontade de afogar esses diabos infantis no arroyo! À tardinha, Fátima me convida pra dar uma banda no balneário. Floresta localiza-se na assim chamada Costa del Oro. Ruas arborizadas, boas casas de veraneio e a panorâmica rambla com miradores tornam o balneário muito procurado pelos uruguaios de classe média. Embora tranqüila e familiar, seu centro é fervido à noite. Pedalando pela rambla mais uma vez, constato que o kitesurf é esporte muito apreciado no país. Pedalamos até a desembocadura do Arroyo Sarandi com o rio de La Plata, retornando então à pousada. Somente Josmara está acordada, Angélica ainda tá tirando aquela soneca pós-ranguinho. Grande parceira a Josmara! Com sua voz calma, a paulista faz um contraponto sereno ao nosso estilo mais enfezado. O que posso dizer de Angelica? É a falsa-tranquila. Ela confirma isso, declarando que se atingiu um estado de razoável serenidade foi após anos de intensiva prática de esportes. Com isso conseguiu burilar sua herança genética, caracterizada por extrema inquietude e energia inesgotável. É a parceira-dínamo enquanto Fatima se revela  como a parceira-mimimi e Jo, a parceira-serenidade. Eu? Sou a parceira-biriri, hahaha!! Bueno, o resultado da siesta de Angel foi que ela não conseguiu dormir cedo e saiu a pedalar à noite, não sem antes tentar "abduzir" uma de nós três para lhe fazer companhia. Enquanto ela ficou socando botina até as 2 da manhã, nós preferimos dormir agarradinhas a Morfeu, hehehe 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Reveillon en Bella Vista

Deixamos Ballena por volta de ½ dia porque, conforme meus cálculos, seriam apenas 27 km, previsão esta que se mostrou totalmente equivocada. Pedalamos o dobro porque mais uma vez ficamos “no mato sem cachorro”, indo e voltando à-toa, em razão de informações errôneas prestadas pela merda do hotel! Bueno, inicialmente, pedalamos 14 km na Interbalneária onde, no km 108 (a conselho do belo Arcangel), dobramos à esquerda, retornando à tranquilidade da Ruta 10 que retoma sua vocação de rodovia acostada ao litoral onde em Solis sofre nova interrupção. E uma agradabilíssima surpresa nos aguarda: Horacio e Chicho estão nos aguardando com bebidas geladas e frutas. É aquele festerê! Pois não é que os fofos se tocaram de Minas, a 60 km de Piriapólis, só pra dar um alô pra gente?! Meu bom deus, quem tem amigos não morre pagão, never!! Sinto-me abençoada! Durante boa parte da tarde, nos acompanham de carro, tirando fotos e fazendo vídeos com nossas máquinas. Esta parte da costa uruguaia, cuja posse passa a ser do rio de La Plata, exibe-se engalanada por rochas à beira d’água e por dunas de areia branca que tornam muito atraentes os diversos balneários em seu entorno, como Punta Negra, Punta Fria, Punta Colorada, Piriapolis, Playa Verde Bella Vista e outros. Alguns morros destacam-se dentre eles o inconfundível Pan de Azucar. O dia que começara lindo, com sol deslumbrante, vai nublando aos poucos, até que no meio da tarde o céu se torna escuro. Ventos fortíssimos fazem com que sejamos obrigadas a nos refugiar num restaurante ao lado duma marina. Aproveitamos a tormenta eu e Fátima para almoçar. Terminada a refeição, o sol pra nossa alegria, volta a brilhar e o céu exibe um azul impecável. Passando por Piriapólis, Josmara nos chama do interior dum restaurante onde se encontra o grupo do Rota Sul. Mais festerê com esses amigos! Mas não dá pra demorar muito porque nós temos ainda estrada pela frente enquanto eles permanecerão em Piriapólis pra curtir a virada de ano. Segundo as informações fornecidas pela Booking.com, a tal pousada localiza-se em Jaureguiberry. Ataco um cidadão pra obter infos. Muito gentil, o rapaz nos orienta a pegar a IB, passar pelo pedágio e, após cruzarmos o arroyo Solis Grande, entrarmos na primeira estrada à esquerda. E lá vamos nós no maior calor pra merda da IB, atravessando as 2 pistas com o cu na mão porque o movimento nesta rodovia é pesado. E aqui tem início a discórdia entre mim e Fátima acerca da localização do hotel. Buscando novas infos com um imbecil, dono dum restaurante, quase vou às vias de fato com o sujeito. Fátima, por sua vez, obtém informação completamente diversa da minha com dois sinhozinhos nativos que atravessavam a rodovia a cavalo. Informa que devemos retornar à Ruta 10 onde fica o Km 87, endereço da maldita pousada. Mantenho firme convicção de que devemos continuar pela IB porque a pousada fica em Jaureguiberry. Jo e Angelica não sabem bem a quem apoiar. Olham pra mim, olham pra Fatima e não dizem nem sim tampouco não. Na dúvida, pensam elas, fiquemos de camarote  em cima do muro, hahaha. Depois de muito bate-boca, a Monster ameaça que vai largar a gente de mão. Surge pedalando uma moça que, indagada, diz conhecer a dita pousada, o que é reforçado por um transeunte a quem as gurias, por sua vez, atacam. E a enxerida guria, ainda, se prontifica a nos guiar até o lugar. Daí não tenho outra alternativa a não ser segui-las porque até as vacilantes Jo e Angelica dão ouvidos à criatura uruguaia. Maldosamente, entretanto, torço para que ela, e consequentemente, a Monster estejam erradas. Com todas essas rateadas chegamos ao Bungallow Bella Vista, localizado não em Jaureguiberry e sim em Bella Vista, às 20 horas com o sol já quase se pondo no rio de La Plata. A recepção da pousada, curiosamente, fechada, sem vivalma pra nos recepcionar. Apenas um bilhete preso no vidro da porta-janela, avisando à sra Beatriz que o bangalô 10 está aberto e indicando 2 números de celular para contatar a sra. Virginia, caso necessário. Até aí até que estávamos tranqüilas. Mas quando entramos no bangalô, a indignação toma conta do grupo. Um cheiro de mofo horrível, um muquifo o lugar. A porta da geladeira, presa com um arame, é qualquer coisa de precária. Como nossa pousada fica ao lado de outra, vamos na recepção da pousada vizinha pedir pra telefonar porque nenhuma de nós habilitara celular pro exterior. Os funcionários muito amáveis fazem questão de frisar que não tem nada a ver com a nossa pousada embora no prospecto do Booking.com conste anúncio de que as piscinas são compartilhadas. Jô, por ser a mais calma, é escolhida pra telefonar pra tal Virginia e fazer as devidas reclamações. Enquanto isso eu e Fátima vamos a um mercado comprar bebidas e alguma comida pra nossa ceia porque a pousada - agora percebo - só aluga as casas e o resto que se virem os clientes. Quando voltamos, as gurias tinham conseguido novo bangalô bem mais apresentável, ulalalá. Fátima consegue convencer o parrillero do hotel vizinho a nos vender carne e salada. Cansadas que estamos, sem essa de ir a Piriapólis procurar restaurante pra comemorar a virada de ano. A parrilla muito sem graça - sem sal algum - está quase crua. E lá vão Jo e Ange devolvê-la para ser melhor assada. O que salva a festa são os vinhos - medio medio e um branco -, além, é claro, do maravilhoso espetáculo de fogos de artifício que ilumina toda a costa. O céu torna-se feericamente colorido de vermelho, prata, dourado e azul durante 30 minutos! Bem vindo 2015!!

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Mar de lagunas

Juan, nosso hospedeiro, abre uma exceção e serve, a meu pedido, desaiuno às 6:30. O crocante minipão francês está tudo de bom. Trato de comer 3 porque hoje o pedal vai ser o mais puxado de todos, em torno de 100 km. Despedidas feitas, pegamos a estrada. O céu meio enevoado e o frescor da manhã dão tanta energia que os 14 km ao longo da Ruta 10 até o entroncamento com a Ruta 15 se fazem num piscar de olhos.  A partir daqui, a 10 torna-se de chão batido até a casa de Olga, barqueira responsável pela travessia da barra. Decorridos 4 km, já se avista a imensidão da laguna de Rocha, considerada reserva da biosfera pela UNESCO. Na piscosa lagoa, diversas espécies de aves fazem dela ponto de arribada em sua rota migratória. Previdentemente, ontem, eu havia feito contato telefônico com Olga e acertado pras 8 horas nosso embarque. Com essa manobra, se evita contornar a lagoa pela Ruta 9, o que aumentaria o pedal em mais 30 km. O motivo da brusca interrupção sofrida na Ruta 10 tem como causa a invasão periódica da maré alta no estreito cordão de areia que separa a laguna do mar. Daí já viu, né, atravessá-lo com bicicletas, mesmo não sendo muito profunda a passagem. Quem ocupa o leme do barco a motor não é a solícita Olga, e sim seu irmão, o igualmente simpático Pepe. Com o acréscimo de Neivid e Claudia (abro um parênteses pra falar nele porque o fofo, embora tenha nascido na Irlanda, faz questão de frisar que é brasileiro já que está naturalizado há quase 30 anos) que encontramos perdidões perto da casa de Olga, um barco menor é atrelado ao maior onde vamos nós 6 e o tralharedo. Jô, Ange e suas bicis vão assim rebocadas durante os 20 minutos de travessia. O céu, graças a deus, se encontra nublado! Ao término da navegação, retomamos o pedal ao longo da Ruta 10 que se mantém de chão batido até a laguna de Garzon, limite entre os departamentos de Rocha e Maldonado cujo balneário mais emblemático é Punta del Este. A estrada plana, de areia clara, estende-se a perder de vista exibindo tímidos aclives que nem exigem troca de marcha. A pesada e baixa nuvem negra ao sul não passa, decorrido um tempo, de falso rebate de chuva. Pena, teria sido bem vinda uma manta d’água pra refrescar porque o calor tá começando a pegar. Encontramos Jo e Ange nos esperando para o costumeiro descanso coletivo. Como elas pedalam muito forte, galos cinzas que são, facinho se distanciam de nós em torno duns 3 km. Embora neguem energicamente, tenho cá com meus botões que ambas estão competindo uma com a outra, na fina. Por causa disso, tenho um baita insight e tomo então a sábia decisão de comunicar a elas que "por favor, gurias não se constranjam, tomem a dianteira, nada de ficar esperando por mim e Fatima a cada 20 km como a gente tinha combinado, ok?". Como elas têm o roteiro com os endereços das pousadas nada mais adequado que ir na frente e lá nos aguardar. "De preferência com uma garrafa de vinhote, viram?", acrescento eu, com ar maroto. Tal arranjo revela-se salutar. Se nossa convivência era até então ouro sobre prata, passa a ser ouro sobre ouro incrustado com diamantes, hehehe! Por causa duma informação errada dada por um sujeito a quem ataco pra perguntar os horários da balsa de Garzon, começa aquela correria pra alcançar a embarcação cujo último horário matutino é às 12, reiniciando a travessia somente a partir das 14! Revela-se inútil, entretanto, a desenfreada pedalada porque no verão tem balsa a cada 10 minutos, hahaha!! Fatima devido a uma distensão na panturrilha, veste, hoje, ao invés de calça comprida, bermuda curta e meias elásticas até o joelho. Assim fardada, a Monster lembra aqueles estudantes de colégio inglês. Atravessada a laguna de Garzón onde são figurinhas fáceis as velas coloridas das pranchas dos praticantes de kitesurf, paramos numa bodega bem xinfrim pra descansar e beber algo porque de comida já temos as empanadas que compramos ontem em La Pedrera. Merecido descanso, afinal foram 53 km sendo que 39 de puro chão batido! Aproveito pra carregar o garmim porque esta bosta de relógio tem autonomia muito curta. Não dura mais que 8 horas. E hoje o dia será longo, considerando que só fizemos metade do caminho até agora. O dono do lugar avisa que sua mãe está pondo no forno empanadas de marisco. Não dá outra, desisto de comer as empanadas que trouxera e trato de esperar as que estão sendo assadas. E, olha, vale a pena a espera! Quentinha, suculenta, de massa folhada, peço bis! Os 2 sucos de pêssego, feitos na hora, são grossinhos na medida certa. E a tartelete de morango ainda morninha está dos deuses. Embora não tenha sido nada barato foi o melhor lanche do pedal. Imbatível! A Ruta 10 nesta região encontra-se tão próxima do oceano que dá pra avistar a 200 metros o azulado de suas águas. Cômoros de areia são o divisor natural entre a praia e a estrada. Uma belezura tudo isso. E o sol volta a aparecer com força total. A falta de acostamento segue somente até Jose Ignácio onde tem início as bem vindas banquinas, aleluia! Passamos pela movimentada Manantiales e após da fervida Barra, cruzamos a Brava povoada por luxuosos prédios brancos, seguida pela praia Mansa onde o Atlântico se despede cedendo espaço às águas marrons e calmas do rio de La Plata. Novos momentos tensos quando deixamos a Ruta 10 e começamos a pedalar na Ruta Interbalneária. O tráfego pesado e o sol abrasador já estão me irritando um pouco. Desavisada que sou botei apenas protetor no rosto e esqueci de braços e pernas. O resultado foi tomar aquele torrão....merrda! Quando chegamos em Punta Ballena, começo a procurar o tal km 120, em frente ao mirador das baleias, onde se localiza nosso hotel. E nada de achar a tal bosta de hotel! Procura daqui, fuça dali, atravessa a perigosa IB umas 3 vezes, incursão num posto de polícia cuja antipática tira, com ar de sabidona, nos passa uma info falsa, sem deixar de mencionar o mala dum argentino, irritantemente solícito, tentando nos ajudar. Cansada e mal humorada, covardemente, desconto a irritação na pobre Fatima que, justiça seja feita, se mostra bem pacienciosa comigo. Já tô quase dando piti na beira da estrada quando escuto a voz fininha de Jo chamando “gurias, é aqui”. Finalmente, após rodarmos 110 km, chegamos no Hostal Punta Ballena Ocean View. Apesar do nome pomposo e da esplêndida visão que se tem de Punta del Este a Punta Negra, o hotel é meio, como posso dizer, bagunçado. Mais parece uma casa, daquelas desleixadas, que uma pousada. Seus donos, o apolíneo uruguaio Arcangel e a sensual holandesa Juliet revelam-se, contudo, anfitriões encantadores. Nos deixam absolutamente à vontade, como se estivéssemos na casa de amigos. Como o hotel não tem serviço de restaurante, Juliet pede delivery pra nós, compartilhando uma garrafa de vinho tinto comigo. Essa sabe das coisas boas da vida, toost!!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Charmosa Punta Rubia


Quando acordo e olho pra fora, dou de cara com um baita dia...ebaaa! Desço a estreita e íngreme escada até o piso inferior onde Willi está pondo pra assar a primeira fornada de croissants. Melhor desaiuno impossível, partilhado com os recentes amigos argentinos à tosca e comprida mesa, colocada ao ar livre, fronteiriça à janela da cozinha. De onde estou vejo Willi lá dentro, indo pra lá e pra cá nos seus trâmites culinários. Ele dá uma espiada através da janela, eu encaro....será? Mas não perco muito tempo em conjecturas sobre ele estar ou não flertando comigo porque pouca demora nos despedimos. Urge pegar o caminhão das 11 horas de modo a não chegar muito tarde em La Pedrera. Conseguimos sair do parque por volta do ½ dia sob um sol de fritar ovo no asfalto. Sem vento, a temperatura é escaldante. Bem que poderia soprar um pouco, não muito, é claro, daquele sudeste de ontem. Paro a cada 15 minutos pra tomar água da caramanhola, a essa altura já totalmente morna....eca. E a merda da Ruta 10 continua sem banquinas como são chamados em espanhol os acostamentos. Merrda!! Embora o movimento de veículos não seja lá muito intenso, tô mesmo assim cabrera. O medo de que algum psicopata do volante atinja eu ou minhas amigas volta e meia aparece pra me assombrar...merrrda! Após 20 km paramos em frente a uma casa para breve descanso, hidratação e mastigar algo. Um atraente muchacho, super gentil, que se identifica como Chocolate, nos serve água gelada. Da guapissima criatura todas pensamos o óbvio: “desse chocolate eu provaria sem culpa alguma a barra inteira, hahaha!” Eu, investida da função de guia do grupo, crente de que nossa pousada fica em La Pedrera, oriento as gurias a entrar na rotatória que leva a este balneário. Como não sei direito sua localização, paro na frente dum mercado pra perguntar. Sentadas num murinho, duas jovens perguntam de onde estamos vindo. Conversa vai conversa vem, descubro que ambas moram em Rio Grande, minha terra natal! Que mundo pequeno, hehe. Muito queridas, as duas estão indo pra Cabo Polônio. Esclarecida onde fica a pousada, dou o grito de alerta: “gurias, voltem, a pousada é em Punta Rubia!” Retornamos então pra Ruta 10 e, após 2 km, enveredamos à direita por uma estradinha de chão batido, encontrando nossa pousada a 150 metros da faixa. No fundo da rua, após 39 km de pedal, aquela recompensa: o mar escancarando sua imensidão azulada se funde com o azulão do céu. A pousada Irsis é um charme com bangalôs de dois pisos, mobiliados com móveis da década de 50. Na parte social, um bar com balcão e, no jardim, espalhados, mesas, cadeiras e sofás fazem do espaço um estiloso lounge. Seus donos, Eneas e Juan, muito amáveis, logo tratam de nos deixar super à vontade. Pedimos o prato do dia, peixe e salada, servido ao ar livre. Sentadas, à sombra duma árvore, achamos tudo super gostoso de tão esfaimadas estamos. Melhor tempero que a fome não há, hehe. Assim que sente o cheiro da refeição, um baby gato se aproxima e encarna na Fatima. A Monster surta com a pentelhação do bichano que só tem olhos, ou melhor, focinho pro prato dela, deixando nós três na boa pra saborear nossas refeições, hahaha. Banho tomado, levo (hahaha) as gurias para passear em La Pedrera e conhecer a charmosa mureta branca que divide a calçada da praia. Fotinhas tiradas, levo-as à Heladeria Popi onde saboreamos cucuruchos. Na panaderia, compramos empanadas pro pedal de amanhã já que durante mais ou menos uns 50 km não haverá lugar algum pra comprar comida. À noitinha, voltamos ao aconhego de nossa pousada. A suave iluminação do jardim convida a que ali se permaneça. Peço então um branco gelado. Pra acompanhar, ceviche de pescado. Infelizmente, o prato fica a dever porque há mais do molho de cebola e tomate que, propriamente, do peixe. Na vitrola, rola uma música em volume adequado que - aleluia - não interfere no conversê. Maria Angélica e Josmara, solidárias, bebem também vinho enquanto Fátima (atualmente numa fase abstêmica), sem sucesso, não consegue a cerveja sem álcool que solicitara. Brindamos ao terceiro dia de pedal que tem sido ouro sobre prata!! Tintim!

domingo, 28 de dezembro de 2014

Pousada Santa Maradona


Quão boba fui ontem quando mal iniciada a jornada cheguei a pensar por um momento que não daria conta do pedal até Montevideo! Tendo como confidente os meus botões, abri o jogo e revelei-lhes meu medo de não poder cumprir o roteiro de 7 dias. Me xinguei de pretensiosa, megalomaníaca e por aí afora, numa descabida crise de baixa autoestima. À medida que pedalava, contudo, meu temor virava pó de traque e mais confiante ficava de que iria conseguir, sim!! Tanto que ao final do dia nem mais lembrava das dúvidas matutinas. Bueno, como a pousada não serve desaiuno, vamos até a bizcocheria Giannin, situada na esquina da calle principal de Punta del Diablo. Biscoitos recheados com doce de leite, empanadas com diversos recheios, medias lunas e postres divinos exibem-se tentadores à vitrine. Não há como não se render à pastelaria uruguaia! O café entretanto não faz jus aos excelentes petiscos. Saímos do balneário e pegamos a Ruta 9, pedalando durante 3 horas os 40 km até Castillos onde fazemos parada de 2 horas no restaurante (também hotel) de nome Mi Gente. A comida honesta é razoável. Mas os preços estão salgados. Já se foi o tempo que nosso real comprava muito com pouca moeda! Ange, Jo e Fatima comem assado de tira, eu pescado com salsa de camarão. Nem pensar em comer carne, considerando que se tem ainda mais 25 km de pedal debaixo dum sol causticante! O vinho, em copo, é muito ruim, tanto que só bebo 1/3 de seu conteúdo. Em compensação, a sobremesa, pudim de claras com cobertura de doce de leite é de comer ajoelhada! Terminada a refeição, deixamos a pacata Castillos e entramos na Ruta 16. De pequena extensão, apenas 10 km, a rodovia, sem acostamento, é bem pouco segura porque apresenta pesado tráfego. Diversos carros e motos tiram, sem piedade, fininho de nós. Tô percebendo que não é só no Brasil que há psicopatas do volante! Deveras tenso o pedal. Eu rezando pra que logo alcancemos a Ruta 10, onde a 16 termina, porque tô crente que, nessa, sim, há acostamento. No entanto, triste engano o meu: também sem acostamento, a 10 revela-se, aleluia, bem mais tranqüila devido a pouca circulação de veículos. Ufa, que alívio! Poderíamos ter ido pela Ruta 9 com acostamento até Montevideo, nosso destino final. Acontece, porém, um pequeno e bom detalhe: a Ruta 10 acompanha  o contorno da bela costa uruguaia e daí nem preciso explicar porque esta rodovia foi a escolhida né? Começa então a soprar o temível vento sudeste que nos obriga a fazer força pra vencê-lo muito embora seja plana a estrada. O esforço despendido é semelhante ao de subir ladeiras. Conquanto tenhamos rodado somente 6 km, pedalar com intensidade de vento, em torno de 20 a 28 km/h, dá a impressão de que pedalamos bem mais! Chegamos esbaforidas ao Parque Nacional de Cabo Polônio, mas nem dá pra descansar porque temos de prender as bicis no estacionamento já que não é permitida a entrada delas na vila. Subimos no caminhão que, após 20 minutos de sacolejos sobre a areia fofa, nos deixa no centrinho de Polonio. Carregando os alforges (pesados ai ai ai) andamos sobre as dunas, afundando toda hora na areia fina e fofa. Lá pelas tantas, Jô e Ange, menos hábeis em caminhar nesse tipo de terreno, pedem encarecidamente por um táxi ou carrinho de mão, hahahaha. Na finalera da Playa Sur, eis-nos enfim, na pousada Santa Maradona, cujo nome dispensa explicação quando descobrimos que o dono, Willi, argentino da gema, é torcedor do Boca. Branca, bem rústica, a pousada num desleixo gostoso oferece redes e cadeiras ao ar livre. Seu filho, Nicholas, nos oferece água de poço artesiano enquanto o pai prepara um café – brasileiro, frisa ele – e indica um prato com bolo. Arbustos ao redor da pousada fornecem aprazível sombra. Nosso quarto, no piso superior, tem 3 camas de solteiro e uma de casal.  Sobre caixotes de frutas pintados de cores vibrantes, usados como mesinha de cabeceira, velas e isqueiros, já que luz elétrica aqui não hay!! Fizemos o seguinte acerto, no início da viagem, nós as 4: quando uma dupla dorme em camas de solteiro, dia seguinte, ou melhor, noite seguinte, dormirá o outro par na de casal. Assim, hoje, eu e Fátima ocupamos camas de solteiro. Aleluiaaa!!! A bem da verdade, não gosto de dividir quarto com outra pessoa, o que dizer então de cama. Estou me superando nesta viagem, aleluia!!! O banheiro é qualquer coisa de bizarro!! Há dois vasos sanitários, assim, pipis e cocôs podem ser compartilhados em dupla, hahaha. O chuveiro não passa dum balde bem grande, pendurado no teto, com uma enjambração de ducha, controlada por uma torneira, hahaha.....muito tri!! Como não há eletricidade em Polônio, quem quiser tomar banho de água quente, tem à disposição, sobre uma mesa, um fogãozinho de 2 bocas de modo a esquentar água. Fátima, cheia de mimimi, claro está que trata de esquentar sua água, resmungando o tempo todo da precariedade do banheiro, hahaha....essa little monster na tpm é azucrinante! Por 30 pesos, um armazém, que conta com gerador de energia, carrega dispositivos eletrônicos. Assim, Ange e eu vamos até lá, deixando ela seu celular, eu, meu relógio Garmim, carregando até amanhã. Aproveitamos e compramos um Pinot Noir Sirah da Dom Pascual pra acompanhar a refeição. Willi prepara a janta, fazendo ele próprio a massa dos ravioles mais um pão. Servida em pratos fundos, a massa recheada com queijo e nozes e coberta por salsa rosada com pancetas é qualquer coisa de boa. O pão levemente adocicado revela-se providencial: ajuda a raspar o resto de molho do prato que se torna luzidio de tão limpinho. Comemos ao ar livre junto com o simpático casal Daniel e Isabel, pais de Tomas, além dos namorados Cassidy e Tomas, todos argentinos exceto Cass, americana, residindo em Buenos Aires onde trabalha ensinando inglês. Uma fogueira a 20 metros estala e suas chamas, além da lua já quase cheia, são a única iluminação na encantadora noite de Polonio!