domingo, 22 de junho de 2014

Pedal Tô Fora da Copa - Parte 2

Dia seguinte, sexta-feira, ao contrário de ontem, pulamos cedo da cama. Não queremos mais repetir o feito de pedalar à noite como fizemos ontem. Quem gosta de escuro ou é coruja ou morcego!! Terminado o café, nos despedimos da boa Janete e pegamos a estrada que, segundo suas palavras, tem “3 tops”, motivo por que meus cabelos grisalhos já cheios de frizz ficaram mais arrepiados ainda. Foi susto à-toa, os aclives nem foram tão danados assim. Lá pelas tantas, por causa dum trecho cujo terreno exibia uma coloração avermelhada, a Fátima entrou numa que haviam estendido um tapete vermelho em nossa homenagem, hahahaha!! Adoro essa pequena, é muito engraçada! Uns 10 km antes de Guaraqueçaba, dum mirante, construído no lado esquerdo da estrada, se tem uma visão privilegiada da Serra Negra de Guaraqueçaba e duma nesga do mar. Chegamos por volta das 17 horas a Guaraqueçaba, cidadezinha localizada na baia de mesmo nome. Do hotel, a visão privilegiada de várias ilhas e parte do litoral paranaense. Hospedados, no estabelecimento hoteleiro, um grupo de ciclistas, alguns amigos de Fátima. Um copo de uísque passava de mão em mão tal qual cuia de chimarrão. Hidratação irrecusável! Afinal, há que se repor as energias perdidas ao longo dos 46 km de soca-bota. Aceitamos o convite dos guris para jantarmos juntos. A bem da verdade de guris eles não tinham nada. Exceto um, o resto do grupo já ultrapassou há muito os 50 anos. Desde terça, nossa dieta alimentar tem sido peixe, camarão e frutos do mar. No restaurante guaraqueçabense não foi diferente. Aliás, digno de menção, os croquetes de camarão, os mariscos ao vinagrete e o peixe empanado. Embora a companhia estivesse agradável, dia seguinte teríamos que acordar 6 da matina pra pegar o barco. Assim, nos despedimos do grupo e obedientes ao olhar severo de Morfeu fomos pra caminha antes das 22 horas.

 No sábado, contamos com a ajuda duns ciclistas curitibanos pra içar as bicis até o deque superior da embarcação Ilha do Mel que faz a travessia até Paranágua em 2 horas e 30 minutos. Bem mais vantajoso do que de busão cuja duração é 5 horas e meia! O porto, cheio de guindastes com milhares de contêineres, impressiona pela monumentalidade. Resolvemos fazer um brunch já que não tomáramos café da manhã devido ao horário madrugador em que havíamos despertado. Provamos então o famoso pastel do Mercado Municipal. Finda a refeição tratamos de pegar a estrada já que nos esperavam cerca de 60 km até Antonina. Acabamos saindo de Paranágua às 12 e 30 porque deu um problema na válvula da câmara da bici da Fatima quando nós fomos calibrar os pneus num posto de gasolina. Ficamos rodando de oficina em oficina até enfim consertar o defeito. Pegamos a BR 277, rodovia com 2 pistas e bons acostamentos, suficientemente largos para que 2 bicis pedalassem lado a lado. Mas por cautela, considerando o potencial psicopata dos motoras brasileiros, seguimos em fila indiana estrada afora. Paramos 3 vezes pra fazer xixi, beber água de côco e caldo de cana além, é claro, das indefectíveis fotos de nossas magrelitas! Passamos batido por Morretes, preferindo visitá-la dia seguinte quando faríamos o derradeiro pedal de nosso circuito turístico. Jantamos no restaurante em frente à praça da Matriz, com direito a 2 garrafas de vinho tinto, sem contar as várias doses de Domeq que entornáramos quando chegamos no hotel. Claro está que dormimos como anjos, exceto Fatima cujo sono deveras sensível foi afetado pelos ronronar vibrante de Juju.


Aleluia, no domingão, o céu, enfim azul, deixa o sol mostrar seu sorriso amarelo, hehe. Vamos a Morretes não só pra conhecer a cidade como também na intenção de completar 200 km. A ideia de fechar o pedal em tal cifra partiu de Juju quando percebeu, ao chegarmos ontem, aqui, em Antonina, que nossa quilometragem batia nos 170 km (segundo o cronômetro da Fatima, já o meu mais modesto apontou 165 km). Embora tenha uma pista, a rodovia PR 408 tem acostamentos em ambos os lados. Com alguns aclives e declives suaves, o trajeto ida e volta não ultrapassou 32 km. A pequena Morretes tem um atraente e bem conservado centro histórico, com casarios coloridos em estilo colonial. Almoçamos barreado, prato típico da região, cuja origem remonta às ilhas açorianas. A carne, de tão
cozida, torna-se esfiapada e ao seu molho mistura-se farinha e banana. O restaurante escolhido, à beira do rio Nhundiaquara, proporcionou uma bela paisagem. Como o vinho mostrou-se azedo, e mais garrafas dessa bebida não mais havia, mudamos pra caipirinha de maracujá, muito bem preparada. No retorno a Antonina, demos um rolê rápido pela cidade, parando apenas na estação ferroviária onde tiramos algumas fotos. Mais não deu pra conhecer porque tínhamos pressa de voltar a Curitiba de modo a visitar nossa amiga Denise MiuMiu, companheira do igualmente memorável pedal carnavalesco em plagas uruguaias. Nem bem terminou a viagem, já estávamos combinando futuros pedais. Com certeza, prezamos - e muito - a companhia masculina. Contudo, nessa pequena aventura, exclusivamente feminina, a ausência dos queridos guris não foi sentida nem pra trocar pneus.......até porque nenhum furou!

terça-feira, 17 de junho de 2014

Pedal Tô Fora da Copa - Parte 1

Feriadão se aproximando, deu ganas de armar uma boa indiada. Propus então às amigas com quem pedalei no Uruguay um cicloturismo no Paraná. Das 5 somente 3 confirmaram. É assim então que Juju e eu, na terça, nos mandamos com nossas guerreiras magrelas pro aeroporto. Melhor que acondicionar em mala bike foi a sugestão de Ricardo, da Adventure Bike Shop, pra embalar as bicis: retirados os pedais e torcidos os guidons, encamisamos cada uma em 3 metros de espuma 18 mm, reforçando as laterais com mais espuma, de modo a proteger bem câmbios e freios. O embrulho, amarrado com 4 extensores, parecia ao final um gigantesco presunto. Não demorou mais que 20 minutos embalar as 2 bicis, que foram assim despachadas, pagando-se um excesso de bagagem irrisório. E nada aconteceu às nossas queridas, nem na ida tampouco na volta!! Isso que, durante o voo de retorno a Porto, Ju me acordou e, aflita, declarou “Senhorinha, esquecemos de esvaziar os pneus!” Foi um deus nos acuda. Torcemos as mãos, rezamos, prometemos mundos e fundos, inclusive agir com mais seriedade nas futuras viagens caso nada acontecesse às bikes. Mais sorte que juízo nós tivemos. A imperdoável distração não rendeu transtorno algum porque pneus e câmaras se mantiveram intactos, dá pra acreditar? Felizes da vida com a perspectiva de 5 dias de lícita vagabundagem esportiva, propus a Juju um brinde enquanto esperávamos nosso vôo. E assim foi que entornamos 2 tacitas de vinho Valduga. Quando passamos ao salão deembarque, infelizmente, só tinha um tal de vinho do Nono. O insuportável odor e paladar de suco de uva evitou que continuássemos nossa agradável libação alcoólica. Gostamos dum tragoleu mas que seja com vinho buenacho! Fátima, nossa anfitriã, nos esperava no aeroporto, em São José dos Pinhais com........uma garrafa e 2 taças de vinho!! Senti que inevitavelmente um tragoléu seria consumado. No carro, um típico cacacá bem feminino, com cada uma querendo falar mais que a outra, tamanha a alegria do reencontro. E a noite rendeu até as cinco da manhã pras duas doidinhas, porque esta senhorinha aqui se rendeu aos braços de Morfeu, comportadamente, por volta das 2 da madrugada. Antes de dormir, porém, curto a tagarelice de minhas duas novas amigas. Fatima, pequena e magra, é elétrica. Sua animada vozinha, importada da Disney, guarda longínquo eco de Pato Donald. Quando olha de viés e reduz seus olhos esverdeados a duas fendas desconfiadas, lembra Calvin. Ser de outro planeta, a Monster, é personagem saído diretaço de estória em quadrinho! Já Jucilene, quando a conheci, não dei um centavo por ela. Mignon (aliás, somos as 3 um trio de minis), tirei ela pra patricinha metida a aventureira. Ela não só é uma assumidésima pati como também tem pegada pras indiadas, tanto que obrigou esta senhorinha a morder a língua. E de nhapa ainda leva jeito pra mecânica, a danada! 


Bueno, dia seguinte, quarta, após um almocinho maneiro num restaurante asiático - regado só a refri pra curar a ressacona - nos tocamos pra Antonina chegando à noite na cidadezinha, localizada em frente a baia de mesmo nome. Com pouco mais de 18 mil habitantes, Antonina possui prédios antigos bem conservados, destacando-se a bela estação ferroviária, o teatro municipal, as igrejas da Matriz e de Bom Jesus de Saivá, dentre outros prédios históricos, certificados da fase áurea do mate que fez dela, à época, o quarto porto brasileiro. O roteiro, bolado por Fatima, a paranaense do grupo, é um pedal circular com 4 dias de duração, iniciando e terminando em Antonina. Destemidas, dispensamos carro de apoio e guia. Pra tornar a aventura ainda mais porra louca, nenhuma de nós sabia trocar pneus ou entendia muito de mecânica. No bagageiro da minha bici e no da Ju, pequenas maletas; às costas, mochilas, contendo o mínimo indispensável de roupa. Juju, sem qualquer pretensão, prendeu sobre a maleta havaianas petit pois. A guria causou! Charme que só as bonequinhas têm! Fatima, não tão amadora quanto Ju e eu, dispensou mochila, acoplando 2 alforges ao pneu traseiro. Cansadas, esgotadas de tanta excitação e ainda sentindo os efeitos da esbórnia da noite anterior, desabamos nas camas, dormindo sem muita delonga.

 
Na quinta-feira, dia de Corpus Christi, antes de deixarmos Antonina, nos fotografamos umas as outras com nossas magrelas diante do tradicional tapete feito de serragem colorida, montado ao redor da praça da Matriz. Ao cabo de 20 km, pedalando ao longo do acostamento da rodovia PR 440, dobramos à direita, entrando na PR 405, estrada de terra que conduz à Guaraqueçaba. O trajeto, até então plano, começou a apresentar aclives e declives que embora razoáveis exigiram certo esforço físico. Afinal, já estávamos subindo a Serra Negra de Guaraqueçaba. Foram 38 km assando a virilha no chão batido. Diga-se de passagem, um chão batido bem legal, com pouca pedra solta e sem muita buraqueira digna de nota. Passando por um armazém, não é que um cachorro se invocou comigo e fincou os dentões na minha panturrilha? O resultado foi que quando retornei a Porto tive de me vacinar contra raiva porque, abobada, não parei pra perguntar ao dono se o cachorro era vacinado. O tempo nublado não aliviou, permanecendo cinzento nos 3 dos 4 dias de pedal, sem falar da umidade em torno de 90%! Foi então que a bici da Ju começou a dar piti. Cada vez que ela acionava o câmbio traseiro pra subir as lombas, a corrente caia fazendo com que a guria, que pedalava clipada, comprasse vários terrenos. Mas têm males que vêm pro bem. Só assim Juju aprendeu a recolocar a corrente no cassete e iniciou seu aprendizado de mecânica. Após 48 km, paramos pra comer pastel na lanchonete da Corina. Um arraso o petisco, com farto recheio! Como havíamos deixado Antonina quase ½ dia, a noite nos surpreendeu. Sorte nossa que o pior do trajeto, as descidas e subidas, já tinham acabado. Acendemos nossos faroletes e enfrentamos a escuridão, pedalando (animadésima, diga-se de passagem) ainda 45 minutos, quando então chegamos a Tagaçaba, distrito de Guaraqueçaba, quase 19 horas. A pousada, das três que nos hospedamos, foi a mais xinfrim. Em compensação, a dona, Janete, mais atenciosa impossível. Jantamos uma pescadinha super saborosa com os devidos complementos de arroz, feijão, massa e salada. Finda a janta fomos pro quarto. Só queríamos saber de nos encostar porque o sono tava batendo forte. Também pudera, foram 58 km de giro. E não é que a Monster resolveu divergir de mim, sustentando que seu cronômetro marcara 61 km? A celeuma perdurou nos demais dias, com as duas abestadas batendo boca sobre uma pífia diferença de 3 km!

segunda-feira, 28 de abril de 2014

O lado B do país da felicidade

Na segunda-feira, deixamos Jakar às 7 e 30, iniciando o que será uma longa viagem porque, ao contrário da ida, quando pousamos em Trongsa, iremos direto e reto a Paro. Pema entra numa estradinha lateral à principal e estaciona em frente a um resort tribacana donde se tem magnífica vista de Trongsa e de seu Dzong. Lá permanecemos durante uma hora, a meu ver, desnecessariamente. Sua explicação é de que a camionete precisava ser lavada. Tenho pra mim que ele ficou de trelelê com algum amigo. Bueno, com a tal parada no resort e outras duas em razão de consertos na rodovia, responsável por interligar a parte oeste à central do país, a viagem durou 3 horas a mais num percurso que seria “normalmente” de 9 horas para cobrir 258 km! Muito cansativa a viagem num único esticão. Sobrando tempo, bem melhor fazê-la em dois dias. Porém, como retorno, na quarta-feira, a Kathmandu, o jeito é vir duma tacada só. O céu continua nublado, com chuviscos intermitentes. Chegamos em Thimpu às 19 horas. Como Pema Boss, dono da agência AB Travel (http://www.totallybhutan.com), responsável por toda a logística de minha permanência no país, manifestou desejo de me conhecer, vou ao seu encontro. Ele já está me esperando no restaurante. Podre de cansada, eu queria mesmo era ter ido direto a Paro mas noblesse oblige, né? Bem educado embora formal, Pema Wangchu mais escuta do que fala. Coitado, porque, a bem da verdade, meu inglês é sofrível. Questiono-o a respeito de dois assuntos que atiçam minha curiosidade. E fico então sabendo que não é pela religião, por considerá-las sagradas, que o governo butanês proíbe a escalada às montanhas. Temem as autoridades, isso sim, o chamado “efeito nepalês”, sinônimo de poluição ambiental!! O Nepal, em certos aspectos, é um exemplo a não ser seguido, conforme fica subentendido na conversa. Fazem muito bem os butaneses em assim agir. Uma vergonha os relatos da sujeira deixada por escaladores e sherpas nas montanhas nepalesas, em especial, Everest, a mais procurada das 8 mil. Eu, no Paquistão, fiquei apavorada com a imundície no Baltoro Glaciar: pilhas enormes de latas de alumínio, entre outros materiais altamente poluentes ali abandonados. Outro assunto que me intrigava é agora desvendado: é permitido, sim, ao turista realizar passeios culturais, ciclismo, trek e outros esportes de aventura sozinho no país. Porém, como salienta, Pema Boss, sem garantia de encontrar carro para alugar, hotel para pousar e guia para conduzi-lo. Enfim, dificultam a vida do viajante autônomo. Sei lá se como forma de controlar os turistas a fim de proteger seus costumes e tradições, ou como meio de antecipar capital de giro. Explico. É necessário depósito antecipado de todo o valor referente aos tantos dias de estadia no país. Claro que essa quantia cobre tudo, passeios, hoteis, refeições, guias, traslados e até água mineral. Semelhante ao sistema de cruzeiros all included. Provavelmente sejam os dois motivos. Quando, afinal, chego a Paro, tomo uma ducha bem rápida, dou uma bisolhada rapidésima na internete e caio, exausta, na cama, dormindo num piscar de olhos. Ah, antes disso tomo um golinho de uíque butanês que comprara em Thimpu. Pra relaxar de vez, hehe!! 


Tanta a preguiça na terça que resolvo tirar a manhã e permanecer no quarto organizando o material audiovisual. O hotel é o mesmo onde estive hospedada quando aqui cheguei há 15 dias: o agradável Dewachen. Clara, a habitação, com paredes forradas de pinho, tem móveis do mesmo material. De sua varadinha, dá pra se curtir o vale onde Paro se aninha. Deixo a TV ligada no canal oficial do Butão enquanto estou escrevendo no computador. Volta e meia, entretanto, dou uma olhada no aparelho permanentemente ligado (nem em casa vejo tanta televisão como quando estou no exterior). E numa dessas olhadelas sou atraída por um programa. Denuncia a violência doméstica. A dramatização exibe chefe de família dando um tapa na mulher enquanto o filho, pequeno, chora assistindo à cena. O locutor em off discursa durante dois minutos. Embora não saiba butanês, bem posso imaginar o teor da conversa. E passa mais de uma vez durante a manhã! Sinal de que os desmandos dos homens levaram o governo a encarar seriamente a situação. Pois é.....o país da felicidade tem também os seus esqueletos no armário! Nem tudo é hapiness, conforme apregoa a propaganda oficial no exterior. O que importa, entretanto, é que estão sendo tomadas medidas para enfrentar a cruel realidade da violência doméstica contra as mulheres! À tarde, dou um chega pra lá em meu bicho-preguiça e vou com Pema até o centro de Paro. Lá nos separamos. Pema, que não veste seu gho, não pode entrar em trajes civis no Dzong, lugar que ainda não conheço. Já a caminho da bela fortificação branca construída sobre uma colina, paro pra fotografar 3 senhoras. Girando suas rodinhas de oração, recitam mantras enquanto circulam ao redor das várias stupas ali existentes. Coisas mais queridas elas com seus cabelos curtos e franja reta. Detalhe: as butanesas, depois duma certa idade, usam esse estilo de corte de cabelo. No interior do Dzong, tenho a sorte de presenciar os monges, alguns com 6 anos, alvorotados porque a aula terminou. Os turistas que lá se encontram endoidecem e tiram fotos de todos os ângulos possíveis. Embora não posem, os pequenos monges não se furtam de serem fotografados. Passeio sem pressa, super contente porque às vezes é muito bom andar sozinha, sem guia! E subo até o topo de outra colina, situada acima do Paro Dzong, para visitar o Museu Nacional. Em formato circular, foi originariamente construído para ser torre de observação do Dzong. Pobrinho, o museu exibe coleções de máscaras de várias manifestações de Buda, alguns animais empalhados e painéis descrevendo a fauna, flora e vegetação existente no país. Durante o passeio, paro e converso com duas menininhas. Bonitas, desinibidas, falam um pouco de inglês. O tempo que, pela manhã estava perfeito, com sol e céu azul, agora exibe uma feição acinzentada, tristonha, típica de dias nublados. Nem isso consegue empanar meu estado de espírito. Estou encantada, amando Paro, cidade que, em 2011, dela apenas conheci o Tiger Nest. Esporte nacional, o arco e flecha tem clubes em todo o país. Quando estou retornando ao centro da cidade, passo ao lado de um. Óbvio que entro na arena. Até parece que não iria especular, curiosa que sou. Alguns homens treinam, lançando os arcos numa distância de 150 metros. Tão sem graça quanto futebol, na minha opinião, o que me leva a sair dali sem demora, após bater umas fotos que nem boas ficaram. Embora tenha reservado apenas um dia para curtir Paro, lastimo agora o pouco tempo, tanto que quando retornar ao Butão, com certeza, aqui permanecerei por período mais longo! Posso dizer que encerro minha permanência neste adorável país com chave de ouro!

sábado, 26 de abril de 2014

Rodas de oração, templos e cachorros

Enquanto espero os homens desarmarem o acampamento e acondicionarem toda a parafernália em cestas de vime, vou ao encontro duma moça que me espia faz um tempinho. Ela fala quase nada de inglês o que não impede que mantenhamos um certo grau de comunicação. Peço autorização para fotografá-la e ao bebê que, enrolado num pano, é carregado nas costas. Resultam lindas fotos da mãe e de seu filhinho. Dedico-me então a observar o tanto de gente que passa na ponte pra lá e pra cá: uma senhora girando sua roda de oração, crianças com pastas nas costas a caminho do colégio, mulheres tagarelando, homens caminhando apressados, enfim, um vai-e-vem interessante que me distrai bastante. Terminada a arrumação, com o equipamento armazenado numa das casas existentes em frente à ponte (amanhã, um caminhão levará não só o tralharedo como Dorji Cook e Thukten pra Thimpu), embarcamos na caminhonete e retornamos a Jakar. E dale a escutar músicas do celular de Dorji Cook, dentre elas um rap butanês que deixa todo mundo super animado. Eu danço no banco abanando pra quem encontro na estrada. Pema, Dorji e Thuk cantam entusiasmadamente. Estamos todos muito contentes porque foi um bom trek em que tudo correu lindaçamente bem! Antes do resort, Pema estaciona o carro um pouco antes do templo Kurje Lhakhang. Descemos e subimos por uma íngreme escadaria até o topo da colina onde há uma fonte de água abençoada pelo guru Rimpoche. Não só os rapazes como outras pessoas, portando garrafas e galões de plástico, buscam se abastecer da tal holy water. E algumas ainda molham a cabeça na bica, provavelmente, buscando se purificar na santificada água. No almoço, já no resort Pelling, o mesmo onde me hospedei quando por aqui estive há 8 dias, constato deliciada que Dorji e Thuk estão envergonhados, os queridos! Desacostumados em freqüentar ambientes com certo grau de requinte e conforto, o encabulamento de ambos é comovente. Thuk que já fala baixo, sussurra, respeitosamente, como se dentro dum templo estivesse. Já Dorji, mais safo, consegue disfarçar um pouco melhor seu desconforto. Suponho também que o embaraço dos jovens se deve ao fato de estarem sendo atendidos por criados. Ensinados boa parte de suas humildes vidas a bancarem os serviçais, imagino o estranhamento em serem servidos por outros. Chove a tarde toda. Assim, passo o resto do dia no meu confortável quarto, com um belo fogo crepitando na salamandra a lenha. Quando canso de estar ao computador, dando um trato em fotos e vídeos além de postagens no Face, vou até a varanda pra esticar as pernas e curtir o visual. Só saio para jantar e dentro dum espírito de embalos de sábado à noite, convido os rapazes para um trago já que amanhã estarão retornando a Thimpu onde moram. O pequeno Thukten, surpreendentemente, recusa a bebida alcoolizada. Aceita, porém, um refrigerante. Brindamos, então, à boa convivência com a saborosa Druk 11000, cerveja de fabricação nacional, e, claro, com o refri de Thuk! 
Domingão, lá vou eu escoltada por Pema rever alguns sítios em Jakar que já visitara em 2011. Em frente ao templo Jambay Lhakhang, o mesmo onde há 2 anos atrás, eu assistira a dança dos homens nus, deixamos o carro para irmos a pé até Kurje Lhakhang. No caminho, passamos por Wangdicholing Palace, residência real de verão dos soberanos butaneses, Cercada por muros baixos, com o portão convidativamente aberto, Pema e eu entramos no parque onde os blue alpines dominam. Nenhum guarda, somente alguns cachorros que ladram mas não atacam. A residência, nem grande tampouco suntuosa, atualmente, se encontra desocupada. Encontramos o Kurje Lhakhang fechado (também já meu conhecido de 2011), porque é hora do almoço. Daí o motivo de nem lamentar não tê-lo visitado. Continuamos nossa caminhada agora por uma estreita estradinha rural de chão batido. Enlameada e com muita bosta de gado, amaldiçoo a ideia de ter calçado o velho e confortável Crok. Macieiras floridas dão um toque elegante aos quintais das casas. Nem o tempo nublado anunciando chuva iminente consegue empanar a beleza bucólica do lugar. Quando estamos retornando ao ponto onde Pema estacionou o carro, começa a chover e forte. Refugio-me no Jambay Lhakhang e observo que estão restaurando telhados e balaustradas deste milenar templo. Num cantinho, sentados no chão, um casal de idosos, sem descuidar de girar suas rodas de orações, mantêm animado diálogo. Não sei se é conversê ou briga o que rola entre eles. Merda não saber a língua do país, né? Fico encantada quando percebo que os cachorros têm livre trânsito dentro do templo, sem que alguém os enxote. E o tilintar metálico das duas grandes rodas de orações, postadas uma em cada lado do pórtico de entrada, anuncia o frequentar assíduo dos fieis no templo. Quando saio, o chuvaral cessou, o que me permite ir caminhando até a rua principal de Jakar. Entro em uma loja de artesanatos especulando o preço das mercadorias dum colorido vibrante. Aneis, colares, brincos, braceletes, chaleiras, vasos e potes são feitos com turquesa, coral, rubi e lápis lazuli. Lindos. Dá vontade de comprar tudo!! Volta a chover e, do interior do estabelecimento, vejo três monges abrigados sob um colorido guarda-chuva. Claro está que os fotografo! Não demora muito a chuva estia e vou à procura de Pema que se encontra mais adiante aguardando por mim. À tarde, vamos visitar o Jakar Dzong construído no século XVI. Essas fortalezas são espetaculares e me fascinam demais. Não canso de visitá-las. Seus pátios internos, rodeados de portas e janelas coloridas dão por sua vez em outros pátios. Monges com suas vestes vermelhas esvoaçantes caminham apressados. E novamente cai um pancadão que estanca tão rápido quanto apareceu. Ah, uma paz este lugar!

sexta-feira, 25 de abril de 2014

O banho de pedras quentes

Quando saio da barraca às 7 da matina, o que vejo? Cerração fechada, mal se distingue o contorno das montanhas em frente. Como se houvesse um muro acinzentado encobrindo tudo. E dale a trovejar. Desde ontem, ala putcha! Toró mesmo, nada. Apenas um gotejar, tipo chuvisco pinga-gota. Decorridas 2 horas, o nevoeiro praticamente se dissipou. Contudo, a umidade é fodástica e a temperatura deve estar em torno de 11ºC. Partimos do ">acampamento Khamgi às 9 e 45. Uma subida contínua, cansativa, carcando as botinas num acidentado e super enlameado terreno dentro duma floresta de pinheiros compacta e úmida. Mas não pensem que estou reclamando, apenas registro os percalços da caminhada. Vibro, curto demais tudo isso, inclusive perrengues. Hoje, infelizmente, é o último dia de trek....snifff. Ainda bem que os floridos rododendros voltaram a dar pinta, manchando de vermelho a mata. E os bambus, também, em quantidade impressionante! Não por acaso, no distrito de Bumthang, é comum confeccionarem cercas, casas e outros artefatos com este material. Após uma hora, castigando as pernas na íngreme trilha, chegamos a uma clareira onde fazemos uma providencial pausa. Hora do tea break. O tempo continua nublado se bem que as nuvens estão querendo se dispersar a leste. Mais uma vez, nos internamos na floresta, porém dessa feita o terreno não apresenta aclividade tão ríspida. De repente, a floresta de pinheiros desemboca num platô enfeitado por coloridas bandeirolas de oração onde alguns yaks pastam exibindo plácidas expressões. A paisagem é outra, bem diferente da que percorri durante estes 7 dias. Pradarias surgem pontuadas por suaves ondulações. Poucas são as árvores, arbustos há os de pequeno porte. Iniciamos a descida, já avistando ao longe a Vila Dhur, que se encontra a 2.900 m. À medida que baixamos, a temperatura torna-se mais amena e menos úmida. Durante o trajeto, vejo uma vintena de yaks sendo conduzidos, por alguns homens e cachorros, às terras altas. Com a chegada da primavera e do verão, os peludos necessitam viver em clima bem mais fresco. A quantidade de abrigos feitos ou de pedras ou de toras de madeira revela que os animais não são deixados ao léu. As rústicas moradias servem de abrigo aos donos dos rebanhos que dispensando, temporariamente, o conforto de suas casas em Dhur, ali se aquerenciam por alguns dias, a fim de cuidar dos animais. Entramos num desses abrigos > onde uma velha senhora cozinha algo numa panelona sobre um fogo de chão. Simpática, ela não considera invasiva nossa presença, tanto que nos brinda com um largo sorriso desdentado. Muito natural que onde haja gado, haja dogues. E os há, e muitos! Alguns furiosos com espessa pelagem escura. Amarrados a cercas, guardam as taperas. Na vila Dhur, de onde Dorji Horse é natural, vivem cerca de 1.500 pessoas, cuja principal fonte de renda é a pecuária. Cada família possui em média mais ou menos 50 cabeças de yaks, o que lhes proporciona razoável padrão de vida, haja vista a boa qualidade da maioria das residências. Algumas famílias, como a de Dorji Horse, são proprietárias de caminhonetes. Entramos na vila e caminhamos por um emaranhado de becos e estreitas vielas, com Pema perguntando aqui e ali onde mora Dorji Horse. O arriero, em sintonia com seus cavalinhos, disparou na frente e nos deixou pra trás, hehe. Chegamos à residência de Dorji, com dois pisos, em cuja fachada há desenhos de tigres, dragões, flores e outros símbolos relacionados ao budismo. Cozinha, banheiro, sala de visita e quartos ocupam todo o piso superior. A irmã de Dorji Horse, desembaraçada, fala alguma coisa de inglês, mas a mulher de nosso arriero apenas distribui sorrisos . Somos acomodados na sala de visita e nos oferecem de entrada arroz e flocos de milhos tostados mais chá e leite, seguidos do prato principal. Trata-se dum spagueti de cor escura, feita com trigo sarraceno, de largo cultivo na região. É uma comida tradicional de Bumthang, seu nome é putta. Após o almoço, despeço-me da família e a presenteio com uma barra grande de chocolate Lindt, providencialmente adquirida em Doha para situações como essas. Partimos. Com Pema à frente, percorro as vielas da vila. Passo pela frente do monastério e da escola pública cujo ensino abrange apenas o fundamental, até o 6º grau. Dois aspirantes a monjes, com suas vestes cor de vinho, jogam futebol. Os corvos passam voando baixo e seu crocitar soa como um lamento. Após 20 minutos de caminhada por becos e trilhas, chegamos ao moinho de farinha movido a água, retirada do rio Chamkhar Cho. Construído pelos aldeões, o moinho é partilhado por todos. Muito bacana constatar que, aqui no Butão, o espírito de coletividade é fortíssimo. Em 30 minutos, chegamos ao que será nosso último acampamento, montado em frente à ponte que une as margens do Chamkhar Cho. Justo ao lado do lugar onde deixáramos o carro há 7 dias atrás! Lá pelas tantas, como não podia deixar de ser, cai aquela chuvinha que nem bobo consegue molhar. O querido guia não desiste de tentar me compensar pelo malogro de eu não ter conhecido Hot Springs. Tanto que, ontem, contou-me que em Dhur os moradores têm o hábito de banhar-se em águas aquecidas com pedras quentes. Revela então que vão me preparar e oferecer tal mimo. Quando chegamos ao local do acampamento, ele me leva até um buraco retangular de cimento, ao lado do rio. Aponta que será aqui minha hot spring. Quando percebo a mão de obra que será encher a cavidade com água, catar gravetos pra fazer uma fogueira de modo a aquecer as pedras que serão colocadas no banheirão, agradeço comovida. Declaro que diante de tanta trabalheira - afinal todos nós estamos cansados -, eu os dispenso da graciosa oferenda. Pema nem insiste diante de minha recusa. E, assim, mais uma noite que durmo bem sujinha, hehe!!

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Em terras de Dorji Horse

Acordo às 6 mas como hoje começaremos a caminhada mais tarde que nos dias anteriores, me dou ao luxo de ficar até às 7 dentro do saco de dormir. Pema achou por bem alterar o trajeto em razão de nossa ida inexitosa às piscinas térmicas. Pegaremos trilha diversa da que viemos de modo a conhecer, assim, Dhur, a vila de Dorji Horse, não incluída no roteiro original. Tão boa essa lei das compensações! Não conheci as águas termais mas vou conhecer uma vila....ebaaa!!! Nesta região há ursos pretos. Infelizmente, deles só vi marcas das patas e unhadas no tronco dum rododendro. Temperatura amena, afinal já estamos a uma altitude abaixo dos 3 mil e 500 metros. Destacando-se, no verde do pinheiral, o colorido rosado das flores dos rododendros! Saímos às 10 do acampamento Chok Chokma. A trilha acompanha uma encosta de montanha onde, à esquerda, jaz, no fundão, pequeno vale, delimitado pela montanha fronteiriça. Lá, vemos, encarapitado, um monastério, construído em lugar de dificílimo acesso. Sinal de que os monjes querem retiro espiritual mesmo. Nem bem decorridas 2 horas, pausa para tea break, numa clareira em cuja grama brotam milhares de prímulas azuis. Thuk e Dorji esticados no chão fazem poses tirando fotos um do outro. Temperatura agradável, em torno duns 16º C, embora o sol muitas vezes fique escondido por nuvens que, num vai-e-vem, o toldam. Desconfio de que esse seja o comportamento climático usual durante a primavera butanesa. Um ventinho sopra e move suavemente a copa dos pinheiros. Acabamos almoçando aqui mesmo nesta bela pradaria. A comida, ótima. Como estamos num lugar descampado, os rapazes aproveitam para verificar se seus celulares funcionam. E contentes porque apresentam sinal, conversam com seus parentes. Terminado o almoço, retomamos a marcha. Embora curta, é dura porque se trata duma subida íngreme dentro dum úmido bosque. Quando alcançamos a clareira que avistáramos daquela onde havíamos almoçado, paramos. O lugar, conhecido como Khamgi, será nosso acampamento. Situadas a 3.200 m, as terras pertencem à família de Dorji Horse. Pema chega botando os bofes boca afora, hehehe. Não resisto e gozo um monte dele. Cedo ainda, nem bem são 14 horas, cai a tradicional chuvinha miúda e intermitente. Nem chega a molhar o solo. Penso cá com meus botões, resmungos de chuva, isso sim, é o que é. Empresto meu ipod para Dorji Cook e ele, enquanto monta minha barraca, começa a dançar ao som da música. Acompanhando a chuva, que apertou, ruídos de trovões não muito distantes quebram o silêncio da tarde. Devem ser chuvas típicas da estação. De lanche, Dorji preparou masala tea – coisa boa - e pipoca apimentada, servindo também biscoitos doces cobertos com açúcar cristal. Preocupada com minha silhueta, sei lá se considero bom que meu apetite tenha voltado. Mesmo assim, mando ver na pipoca e nos biscoitos. Percebo os topos das montanhas ao redor cobertos pela neve que caiu durante a noite. Reina silêncio no acampamento Khamgi. Dorji Horse sumiu, deve estar no mato buscando lenha pra fogueira noturna. Pema descansa em sua tenda e os outros dois estão na barraca-cozinha preparando a janta. Dorji escuta o ipod com um só fone de modo a ouvir o conversê de Thuk, veja só! Reflito em meu ócio que Thuk tem um sorriso fácil, ao passo que o de Dorji Cook é mais contido. Já Dorji Horse sorri de canto. Deve ser tímido, concluo. Por fim, Pema, na condição de guia, exibe sorriso profissional. Vi, ou melhor, tive um fugidio vislumbre, durante a subida até o acampamento, do único animal selvagem de todo o trek: uma raposa. Daqui de dentro da barraca, vejo que a montanha em frente está encoberta por um fino véu de cerração. Agora 17 horas, a chuva se intensifica, trazendo consigo uma friorenta e desagradável umidade. O tamborilar dos pingos é incessante no teto da barraca, só varia sua intensidade: de forte a fraca e vice-versa. Eu, cá dentro de minha casa de lona, continuo a leitura dos contos de Alice Munro. Entedio-me contudo decorrida duas páginas. Gostaria mesmo é de estar ao ar livre, deixando o olhar vagar sem compromisso pela paisagem, ao invés de confinada em tão exíguo espaço. Largo o livro e fecho os olhos. Escuto os trovões e estiro o corpo....coisa boa essa vidinha!

quarta-feira, 23 de abril de 2014

De livros e árvores

Quando saio da barraca às 7, o solo está branquinho de geada, tanto que deve estar uns 4ºC. O lugar onde acampamos é lindo. Ao norte, a linda montanha Tshenjigang com suas encostas cobertas de neve. O dia lindo, céu azul com algumas nuvens aqui e acolá. Somente eu e Pema estamos à-toa, nos aquecendo em frente à fogueira, já que os demais homens cumprem suas habituais tarefas matutinas. A conversa recai em cremação, assunto pelo qual nutro interesse. O guia conta que das cinzas dos mortos misturadas à lama são feitas miniaturas de stupas. Colocadas, convenientemente, próximas a monastérios ou à beira de estradas recebem, dessa maneira, boas energias de quem por ali passa. O desjejum, servido ao ar livre, para que eu possa desfrutar da paisagem, oferece as gostosuras de sempre: uma fruta que pode ser bergamota, maçã ou pera, suco de maçã ou de manga, 2 torradas, mel e chá com leite. Tudo de bom! A barraca-refeitório, portanto, só é usada durante a janta. Já a pequena tenda que me serve de latrina, (consiste dum singelo buraco com um pedaço de graveto em forma de forquilha, sustentando o papel higiênico) uso-a de manhã e à noite. Temos acampados invariavelmente bem perto da margem do rio Chamkhar Cho, já que a trilha acompanha seu curso d’água desde que saímos da vila de Dhur, no primeiro dia de caminhada. Não são só moscas abundam no país, corvos há igualmente por toda parte. Não só no campo quanto nas vilas e cidades. Pitoresco ver guias e turistas butaneses com guarda-chuvas pendurados nas costas ou sendo carregados na mão durante o trek. Há 3 dias, as únicas pessoas indo também pra Hot Springs foram 4 jovens butaneses. E carregavam coloridos guarda-chuvas! Lembro inclusive de Pema, quando estávamos em Thimpu, ter perguntado se eu não gostaria de que ele levasse um pra mim. Bueno, com Pema à frente, portando nas costas sua inseparável umbrela, damos início ao antepenúltimo dia de trek, deixando o acampamento às 9 e 30. Após uma hora de caminhada, deixamos o árido vale de Tshochung Chung pra trás e já estamos percorrendo a trilha aberta na compacta floresta de pinheiros onde clareiras são raras. Essa parte da trilha é onde há trepa-pedras, muita lama e gelo cobrindo o solo. Onde há uma rústica ponte sobre o Chamkhar Cho, feita com tábuas, sem corrimão. Onde o rio volta a bramir, bem enfezado, porque voltou a ser de corredeiras. Onde os trechos de trilha ora são largos quando cruzam os bosques, ora são estreitos quando abertos no sopé das montanhas. Onde ora a trilha fica a mais de 30 metros do rio, ora fica no mesmo nível de seu leito. Onde há desmoronamentos – nada muito sério - de areia provenientes de encostas de montanhas. De tal forma estreitam a trilha que a reduzem a uma fina faixa de terra, delimitada por uma ribanceira com 20 metros de altura. E lá embaixo o destino, se o pé descuidado resvalar, é o leito empedrado e turbilhonante do rio. E, finalmente, onde os rododendros voltam a dar o ar de seu colorido vibrante e o bambuzal tece uma inextricável cama de gato com suas longas e finas varas. Isso que dá fazer trilha que não seja round trek. Tu vais e voltas pelo mesmo caminho. O bom é que se reconhecem os lugares como se fossem velhos conhecidos! Às 13 paramos para almoçar. Agarrada numa árvore, uma orelha de macaco enorme! Muito parecida com a que vi na floresta amazônica quando fiz o Pico da Neblina em 2010! Sentamos sobre troncos de árvores caídas. A mesa improvisa-se sobre uma pedra plana. Caso não haja, coloca-se a comida no chão mesmo. Dorji superou-se nesse almoço! Está maravilhoso: carne de carneiro, arroz, queijo com molho e finas fatias de batata levemente salteadas na manteiga. Sobremesa: bergamota. Tukthen faz questão de servir a comida a francesa. Como não fala inglês, gesticula bastante. Expressivo e desinibido, o guri se faz entender. Ele só come após eu terminar a refeição. Decorrida nem bem uma hora e trinta já estamos no acampamento Chok Chokma, montado na bela clareira onde lanchamos no 2º dia. Há hemlocks altíssimos, cuja altura atinge, pelos meus cálculos, uns 30 metros. Começa a cair uma chuvinha mansa, daquelas que não impede de se estar ao ar livre. Tanto que Dorji Horse continua a catar gravetos pra fogueira. Thukten lava os pratos do almoço à beira dum córrego. E eu faço meus alongamentos diários. Já deitada, confortavelmente, na minha barraca, dou uma olhada nas fotos e vídeos do dia. Da barraca-cozinha, escuto a conversa e o riso dos homens. É lá onde os Dorji e Thukten dormem, exceto Pema que, por ser guia, tem sua barraca. O humor deles é um tanto infantil como venho observando. Pema, por exemplo, adora dizer que está doente. Aí quando tu perguntas, alarmada, o que ele tem, o safado abre um sorriso maroto e, candidamente, explica que está com fome. Na 1ª e 2ª vez até ri, nas vezes seguintes, só sorria e amarelo. Hoje os três membros do staff me pegaram, desprevenida, e viram minha bunda enquanto fazia xixi. Deram risada, deliciados. Durante a janta, resolvo perguntar a Dorji Cook o que ele achou. Galante, responde “good good”.....hahaha. Salta ao olhos a superioridade do nível de instrução de Pema sobre os demais. Não só por ter o segundo grau quanto por ter curso de técnico em turismo. Tukthen e Dorji Cook estudaram em monastério porque provêm de famílias pobres. Já de Dorji Horse nada sei. Pouco conversador - o único entre os quatro que não fala pelos cotovelos -, super na dele, é o que se chama um tipo discreto. Usa uma boina de lã meio atravessada na cabeça que lhe confere certo estilo. À noite, sob um céu estreladíssimo, comemos ao ar livre. Ao redor da crepitante fogueira cujas gordas labaredas iluminam o espaço em volta, provo o bathup preparado por Thukten. E o guri, expectante, não esconde a faceirice quando elogio a comida. De fato, o bathup de Thukten é muito mais saboroso se comparado ao que provei há uma semana. Terminada a janta, faço um pouco mais de social e me mando pra barraca. Minha lombar está dolorida, quero mais é me esticar. Antes de dormir, termino a leitura do conto Madeira. Encanta-me a descrição precisa e elegante de Alice Munro sobre certos tipos de árvores. Adoraria escrever como ela! Agradável descoberta a dessa escritora canadense. Não há melhor companhia que um bom livro em determinadas ocasiões!