domingo, 31 de março de 2013

Domingão no Itaguaré

Acordo na madrugada com o barulho da chuva! Espantosamente, às 6 da matina, o céu tá claro e a lua aponta brilhante no céu. Valha-nos deus, como essa Mantiqueira é imprevisível, putz grila!! Os guris, pilhados pelo meu vezo de pôr apelidos nas pessoas, pegam no pé de Natan. Tudo porque o guia usa um lenço vermelho cobrindo a cabeça. Não dá outra, passam a chamá-lo Chapeuzinho Vermelho da Mantiqueira, hehe. Nem bem 7 e 30, já estamos com o pé na trilha, motivo porque, varados de fome, paramos pra almoçar às 9 e 50. Considero este dia o mais extenuante de todos. Não pelas dificuldades técnicas do tipo trepa-pedras, ascensões ultra íngremes ou pirambas amedrontadoras. E sim porque a trilha rasga ora a mata atlântica onde predominam os perversos bambuzinhos, ora um labirinto formado pelo cortante capim-elefante. Por causa da neblina, nem percebo que não nos encontramos mais na crista da Pedra Redonda, porém na que dá acesso à crista do Itaguaré. Um ventinho frio sopra e esparge uma poeira úmida na atmosfera. A visibilidade é tal que não se consegue ver nada além dos 30 m. Somos os primeiros da temporada 2013 a fazer a travessia, daí porque as trilhas ao longo do capinzal se encontram tão cerradas. Esse o motivo que leva Willian vez por outra a perder o rumo. Como ele é guia galo cinza fodástico da Mantiqueira, logo logo se orienta.
Nem Johnny Dogue escapa de se perder lá pelas tantas! Desconsolado, o cãozinho se põe a chorar...pode?! Se subir uma crista já é dureza, imagine então percorrê-la, surfando num oceano de capim-elefante. Quando supomos que estamos livres dessa nojenta vegetação, nossas mochilas se embaraçam nas não menos odiosas varinhas de bambu. Úmidos, os trepa-pedras exigem certo cuidado na pisada. Ao contrário do basalto, rocha de superfície lisa, portanto sem muita aderência, o granito segura melhor nossa pisada. Porque se trata duma rocha granulosa, age como uma lixa, evitando mais eficientemente os escorregões e as quedas. Finalmente, atinge-se o vale donde tem início a ascensão ao Itaguaré. A névoa, que há dois dias vem encobrindo o pico, dá uma pausa e revela sua face norte: um colossal trapézio rochoso. Bem diferente das assimétricas e pontiagudas agulhas da atemorizante face oeste, que se deixaram avistar apenas por breves instantes durante o segundo dia.
O atemorizante maciço, apelidado castelo de Grayskull, de perto não passa dum monte de pedras amontoadas umas sobre as outras. É tudo uma questão de perspectiva cuja função é a de confundir nosso olhar. Curto atravessar os escuros e úmidos túneis de pedras. Mas os guris, pobrezinhos, passam trabalho com suas pesadas mochilas cargueiras ao se arrastar por entre os estreitos corredores. Como a garoa não dá trégua, Will comunica que, infelizmente, vai abortar o ataque ao cume. Ele não quer arriscar nosso pêlo, tampouco o dele, considerando que teríamos pela frente, antes da chegada ao topo, uma travessia sobre um abismo.  Quem tem cu, tem medo, uai! Como ninguém é de ferro e a caminhada abriu mais uma vez o apetite, atacamos vorazmente umas bolachinhas. Nesta clareira onde nos encontramos, distante 180 m do cume, a sensação que sinto é a de nadar, nadar e morrer à beira da praia, tsk tsk.  E me ponho a imaginar quão lindo seria o local caso houvesse sol. Rodeado  de pedras, forrado  por  touceiras  de capim,
aqui e ali, despontam delicadas flores, dentre as quais margaridas amarelas e avermelhados brincos de princesa. Entretanto, a tonalidade acinzentada da atmosfera rouba o brilho do cenário que, se não houvesse a neblina, seria estupendo. Só quem curte muito a vida ao ar livre, extrai prazer e vê beleza no apagado contorno dessa paisagem. Apesar das dezenas de totens marcando a trilha, Willian aconselha cautela. Alguns deles, adverte, são postos propositalmente errados, de modo a confundir o caminhante. Tem início a descida ao longo da comprida crista norte. Pra evitar a perigosa declividade duns 100 m de lajedo, damos um balão na rampa e descemos através da trilha que há ao lado. Um tanto caminhando, outro escorregando, eis utrapassado o crux do dia. Seguimos descendo, agora, dentro duma mata fechada. Em certos trechos, há degraus, naturalmente, escavados na terra, bem como profundas e extensas canaletas, resultantes da erosão pluvial. O terreno, super acidentado, exibe, de quebra, raízes e galhos que embaraçam as passadas. Will nos conduz até o topo dum  enorme rochedo.
O excelente mirante permite um visual tri das serranias que compõem a Mantiqueira.  Se durante os 3 dias de pernada nenhum córrego foi enfrentado, agora cruzamos três vezes o leito dum. Durante a caminhada, que dura bem mais duma hora, rola uma gostosa fofoca, envolvendo o francês. Tudo porque escuto Alex e Ivan se referindo a Zé não mais como da Pena. Chamam-no agora de Zé Natureza. Curiosa, indago o motivo. Os guris contam que, ontem à noite, deitados na barraca, conversavam animados sobre ciclismo, já que ambos partilham o gosto por este esporte, quando o francês os admoestou asperamente. Aos gritos - isso mesmo – aos gritos, ordenou-lhes que se calassem. “Querru escutarr os sons da naturreza.” Estupefatos - nem bem eram 9 da noite! – os educados guris resignaram-se e passaram, literalmente, a usar veludo na voz. A vingança dessa vez não falhou tampouco tardou. Veio a galope! No silêncio da noite, um ronco de moto-serra irrompeu na clareira onde eles se encontravam. Rapidamente, os dois identificaram o tonitruante ruído e caíram na gargalhada. Era Zé e sua habitual sinfonia noturna de roncos. E o danado, ainda por cima, ronca como barítono dramático,  hahahaha!! À medida que perdemos altura, não só o caminho vai ficando menos e menos íngreme como o tempo principia a exibir melhor feição.  Alcançamos o Sertão dos Martins, às 15, onde a Kombi nos aguarda. Segundo Zé e Ivan, molhados porém felizes!! Quando chegamos a Passa4, à tardinha, Joseane, ao ser questionada sobre o tempo na cidade, responde que se portou lindamente durante o feriado. É...mas lá em cima reinaram as brumas, oxente! E pra não dizer que tudo não acaba em pizza, acabou sim em pizza!! Compramos duas big formas, regando a comilança com copos de Coca-Cola bem gelada. De alma lavada, pancinha forrada, vamos pra caminha dormir o sono dos justos. E esta exuberante Mantiqueira que me aguarde, pois voltarei!

sábado, 30 de março de 2013

As Brumas da Mantiqueira

Acordada por Will às 5 e 30 para o ataque ao cume dos Marins, verifico com alegria que o tempo está bom!! A lua cheia brilha no céu livrésimo do antipático nuvaredo. Minha noite foi, pode-se dizer, bem dormida. Se se considerar que estou numa barraca, precariamente acomodada sobre um isolante térmico, embrulhada num saco de dormir que tolhe os movimentos, até que dormi bem, sim!! Ainda ensonada, caminho pela trilha que dá no paredão que leva ao cume do Marins. Quando inicio o trepa-pedra que conduz a íngreme rampa, já estou bem acordada. Com um pouco de medo, peço que Willian me dê sua mão. Embora ciente que a boa aderência do granito impede escorregões, meu medo de altura vence o racional. Após vencido este trecho, considerado o crux da via (teve um gordinho do grupo de Ribeirão Preto que não encarou e deu meia-volta), o resto é moleza. Em 30 minutos vencemos os 200 metros que nos separam do cume do Marins. Embora haja uma boa quantidade de nuvens tapando parte da paisagem, dá pra enxergar algo do vale da Paraíba e os picos do Marinzinho e da Pedra Redonda a nossa frente.
Do Itaguaré, nenhum vestígio, encoberto pela espessa cortina de nuvens que surge das bandas orientais. Durante a descida, apelido Ivan de Docinho, em razão de seu jeitão tranquilo e maneiras atenciosas. “Tento ser terrível”, comenta, numa evidente blague ao tirano russo, seu homônimo. Enquanto tomamos café, as nuvens dão uma pausa. E, assim, é possível visualizar o contorno pontiagudo do cume do Itaguaré. Mais ao fundo, a serra Fina. Impossível não notar o perfil desigualmente arredondado da Pedra da Mina que se destaca no meio da famosa serrania. Após alguns trepa-pedras exigentes – mesmo assim considero-o mais fácil que o Marins -, às 11, alcançamos o topo do Marinzinho. E  aproveitamos pra laricar. Mastigar algo se faz necessário. Há que se recarregar as energias perdidas na dura pernada.
Willian aponta uma trilha no meio do mato. Através dela, diz ele, se chega ao refúgio de Seu Maeda, responsável pela abertura da trilha Marins-Itaguaré. Mais uma vez o nevoeiro se impõe e toma conta do pico dos Marins, escondendo os belos paredões verticais que se projetam de sua extensa crista leste. Como a gente sobe pra descer, após termos culminado o Marinzinho, tem início uma baita descida em direção ao vale que separa a crista do Marinzinho da que ascende à Pedra Redonda. É nesse trecho que se enfrenta um rapelzinho duns 7 m pra desescalar a parede bem verticalizada. Pra tanto, cordas foram previamente instaladas em 2 paradas. E a íngreme descida continua percorrendo uma trilha estreita protegida ora por capim-navalha, ora por bambus, ora por vegetação arbustiva de pequeno porte até o estreito vale onde começa a subida pela crista que nos levará à Pedra Redonda. Paramos para almoçar. Enquanto estamos rangando, três jovens pedem pra se juntar ao nosso grupo. Na trilha fechada pela vegetação, muitas vezes é como surfar num mar de capim. Um casal de irmãos paulistas e um francês, namorado da guria. Quando chegamos ao topo da Pedra Redonda, o aguaceiro desaba sem dó nem piedade. Daí sou obrigada a guardar a máquina na mochila.
Não dá 5 minutos e todos estamos molhados que nem pintos. Will que programara o acampamento perto sopé do Itaguaré, decide armar as tendas numa pequena clareira rodeada do alto capinzal. É arriscado, comenta o querido guia, continuar com tal tempo, porque a visibilidade é baixíssima, não vai além de 10 m.Preocupado, alerta sobre os riscos de se caminhar sobre pedras molhadas e, portanto, escorregadias. Agora 15 e 30, abrigada, já vestindo roupas secas, escuto o tamborilar dos pingos da chuva sobre o teto de nylon da barraca. Durmo e sonho o resto da tarde, deliciosamente entocada em minha casa de lona, quando acordo lá pela 18 horas. A comida então nos é servida nas barracas por Natan que traz um PF com arroz, feijão, farofa e tomate. Dessa vez, o querido Will acertou a mão no ranguinho! A chuva dá uma estiada. Aproveito e saio pra esticar as pernas. Vou até a cozinha entregar o prato e o que vejo? Johnny Dogue bem baixado lá dentro. Enroscado ao redor do próprio corpo, nem ergue a cabeça quando o chamo. Só levantará, esclarece Natan, quando a barraca for desarmada amanhã. Que bolaço esse cão!! Willian aparece com uma garrafa de vinho tinto que bebemos no bico, a la piratas, hehehe.  Olho pra cima e o que veja me deixa esperançosa. Pois não é que o céu limpou, revelando zilhões de estrelas?

sexta-feira, 29 de março de 2013

Presente de Páscoa: Rolê na Mantiqueira

Percebo que estou próxima a Passa4 quando começo a visualizar, da rodovia dos Bandeirantes, o complexo de serranias que formam a Serra Fina, onde reina altaneira, com seus 2.798 m, a Pedra da Mina, considerada um dos 10 picos mais altos do país. Foi barbadinha subi-la. Fi-lo há 2 anos atrás, com a mesma agência, Harpia Adventure, que irá me guiar agora na   travessia Marins-Itaguaré. Mais uma vez eu na Mantiqueira....ebaaa!!!
Com 500 km de extensão, esta serra que nasce em terras paulistas, dá um breve rolê por solo fluminense e aquieta os costados em Minas, onde está fincada a maior parte de seu território.Pesquisando no google, fiquei sabendo o seu significado em tupi-guarani: gota de chuva....vejam só! Com dezenas de picos cuja altitude ultrapassa facilmente os 2.000 m, a Mantiqueira exibe 3 serranias famosas no sentido oeste-leste. A primeira abriga os picos do Marins, Marinzinho, Pedra Redonda, Itaguaré e Pico do Cristal que finda na garganta do Embau, seu ponto mais baixo. Segue-se, a serra da Gomeira com os picos Gomeirinha, Gomeira, Figueira, Jacu e Violero cujo ponto final é a Toca do Lobo, onde tem início a serra Fina. Esta serrania compreende os picos do Capim Amarelo, Pedra da Mina, Cupim de Boi, Cabeça de Touro, 3 Estados e Alto dos Ivos,  separados  do  complexo  de Itatiaia  pela garganta  do Registro.
A descrição de tais acidentes topográficos me foi contada por Davi, “nego veio” do mato, descendente, não comprovado, de Fernão Dias Paes Leme. Aqui nesta região, imprecisas são as fronteiras. Uma hora você tá em Minas outra em São Paulo acolá no Rio. Chego à tardinha em Passa4 após quase um dia viajando. Um avião me leva de Porto a Guarulhos, de onde pego um busão a São José dos Campos, esperando nessa cidade um par de horas até que outro busão me conduza finalmente a Passa4. Muito bom reencontrar Rodolfo Zangão Dourado da Mantiqueira, Willian Príncipe da Mantiqueira Peres e Josiane, namorada deste último. Beberico na cozinha do Harpia Hostal, uma construção datada do século XIX, uma cachacinha de estalar a língua tão saborosa é. E no velho fogão a lenha, borbulha sobre a trempe um café novinho que Rodolfo acabara de passar. Mal conheço meus companheiros porque sou arrastada por uma maluca pra jantar com ela. Quer porque quer comer feijão com arroz. Consigo a caro custo arrastá-la antes pra provar as deliciosas empadas do La Motta. Feitas na hora por Mauro, são uma delícia.  De pancinha forrada, então, vou com  a maluquete  (até esqueci o nome dela) comer o tal feijão com arroz.
 Pergunto se ela está há muito tempo sem comê-lo. Apenas um dia. Cada uma! Essa mulher me exaure tanto com seu conversê que, em chegando ao casarão, vou direto pro quarto. A bem da verdade, confesso que estava mais exausta das viagens que do papo monopolizante da criatura. Bueno, dia seguinte, quando chego na cozinha, lá estão, dentre as quais a querida da noite anterior, algumas das pessoas que vão fazer a travessia Serra Negra-Maromba, tomando café. E que café!! Pão de queijo quentinho, pão francês crocante, fatias de pão de sanduíche, distribuídos em cestas de palha, dispostas sobre o fogão a lenha. Na comprida mesa retangular, manteiga, requeijão, queijo branco e amarelo, mel, frutas. Enfim, um repasto de respeito, substancial o   suficiente  pra   fazer   frente  ao  primeiro  dia   de  pernada  que  promete  ser  dureza.
Embarcamos na boa e velha Kombi trafegando primeiramente por uma rodovia. Cruzamos a fronteira Minas-São Paulo. Decorridos alguns quilômetros, saímos do asfalto e nos internamos numa estradinha de chão batido. Tão enlameada está em alguns trechos que lá pelas tantas somos obrigados a descer do carro e empurrá-lo porque atolou no barral. Após uma hora sacolejando dentro da Kombi, chegamos no ponto donde inicia a pernada. Dá pra ver nitidamente o contorno do Marinzinho já que o tempo tá legal. Uma breve caminhada até o acampamento-base do Marins, cujo dono, o Milton, tá de saída pra comprar cerveja em Cruzeiro. “Heineken, só dessa cerveja vendo aqui”, frisa ele. Aproveito pra conhecer melhor os meus companheiros de viagem que são em número de 5, todos homens. Alex, carioca e ciclista, graças a deus, não parece ser aquele tipo de carioca da gema que, de tão bairrista, reivindica serem as tragédias de seu estado as piores do país, quiçá do planeta. Que ego os cariocas têm!! Zé e Ivan são paulistas. O primeiro, tão coroa quanto eu, trata de usufruir sua bem merecida aposentadoria.
E o segundo, quietinho, trabalha no ramo da Informática. De guias, Willian, meu velho conhecido, e Natanael, encarregado de carregar minhas tralhas e mais um pouco. Tanto que esse pouco faz com que sua mochila esteja pesando bem uns 35 kg!! Mas a cereja da galera é nada mais nada menos que um vira-lata todo esquisito, magrinho como seu dono, Natan, com um defeito na pata e uns calombos espalhados pelo corpo mirrado, de nome Johnny. Que guaipeca!! Feliz de estar na trilha, ele corre na frente do grupo e se posta como uma sentinela em cima duma pedra sinalizando o caminho. Quando menos se espera, passa bem doido por entre nossas pernas pra se juntar a seu dono que encerra a fila. Como temos hoje de vencer um desnível de aproximadamente 1.000 m, o trajeto é, óbvio, mais subida que descida. Chegamos ao Morro do Careca onde mal dá pra se avistar o visu do vale do Paraíba. Uma mal intencionada cerração tal qual uma perversa cortina tapa uma boa parte da paisagem. Puta que os pariu!! Tempo ruim...será? Quando paramos pro almoço, não resisto e trato de apelidar Zé. Como ele  veste garbosamente um chapéu com uma pena, passa a ser Zé da Pena. Enquanto estamos sentados na laje, comendo nossos sandus, o maledeto nevoeiro, como num passe de mágica, se evapora, permitindo que apreciemos o paredão do Marins contornado por um céu azul...aleluia!! Largo a comida e trato de pegar minha máquina. Sabe-se lá se terei outra oportunidade de fotografar a montanha! Guardada a matalotagem, recomeçamos a caminhada. Lá pelas tantas um paredão rochoso duns 4 m desafia os caminhantes. Escalaminhamos na boa. Zé nos supreende com sua agilidade, considerando que é seu debut em trekking selvagem. Até então só fizera trilhas sem qualquer tipo de perrengue, salvo o da quilometragem, tipo Santiago de Compostela, Caminho da Fé e outras do mesmo  gênero.
Somente  Johnny  tem  de ser  guindado. Essa   parada   o    valente   cãozinho   não consegue superar. E olha que ele é sangue nos “zóio”, o maroto, hehehe!! O tempo segue estranho. Ora céu nublado, ora céu despejado! Próximos ao local onde acamparemos, um paredão com uma aclividade mais acentuada exige certa atenção. Subo a encosta sem precisar de ajuda porque a aderência do granito é excelente. Gosto de tentar por mim mesma. Só peço ajuda excepcionalmente. Seja quando não consigo dar uma passada devido às minhas pernocas curtas – meço um metro e meio! – seja quando me deparo com um obstáculo que me deixa muito tensa por causa da altura. Em torno das 17 horas, chegamos ao acampamento, situado a uns 200 metros do cume do Marins, perfeitamente visível, porque,   coisa  boa,  o  nevoeiro   foi  dar  uma  banda  em  outras  paragens.  
Mais a leste, avultam as pontiagudas pedras do cume do Marinzinho. Muitas nuvens pairam sobre o vale. Um grupo, com quem cruzamos, subindo o paredão, monta barracas próximas às nossas. Will saca da mochila o precioso líquido fabricado nos alambiques mineiros. Todos dão valentes talagaços pra recompor as energias gastas na caminhada. Embora tenha sido apenas de 6 km, a pernada vale por 20 km em razão das dificuldades técnicas e dos muitos trepa-pedras enfrentados. Vou pra minha barraca descansar um pouco e constato que novamente o tempo se emburrou. Tudo o que vejo é um céu cinza e uma garoa assanhada umedecendo o ambiente! E a friaca começa a reinar. Antes da janta, trato de fazer uma social e vou até a barraca de nossos vizinhos. É uma garotada de Ribeirão Preto bem simpática. Estão em dúvida se sobem ao cume do Marins. Decidirão amanhã. Oferecem-me cachaça. Eita bebidinha boa. Não dá pra recusar, né? Janto na barraca dos guias e lá fico batendo papinho com eles. Will fica chateado porque sua massa passou do ponto. Consolo-o dizendo que sua galinha tá bem temperada. Quando retorno pra minha barraca, constato que o tempo continua uma merda!! Será que vai ser assim durante os dois dias restantes de pernada....será, meu bom São Pedro?!!

terça-feira, 24 de julho de 2012

Esqueceram de mim!

Embora tenha saído relativamente cedo do pub, durmo pouco, tanto que às 4 da madrugada já estou de olho bem aberto. Sei lá se por causa da altitude ou porque estou sempre ligada nos 220! Aproveito e transfiro as imagens das tarjetas pro netbook, já as nomeando. Dessa forma, menos trabalho quando chegar ao Brasil. Entretida em responder emails e mensagens no face book, constato que já são 9 da manhã. Como o tempo voa! Cansada de tanto estar sentada, saio pra esticar um pouco as pernas. Compro duas camisetas de times de futebol bolivianos pro meu filho e umas coisinhas pra mim na Tatoo. Retorno ao hotel e continuo o chatésimo trabalho de nomear fotos e organizar as sequências de vídeos. Lá pelas tantas, me dou conta de que estou brocada de fome. Pudera, já passa do meio-dia! E nada do pessoal chegar pra me pegar, conforme combináramos ontem à noite. Dou um desconto porque a farra deve ter sido grossa. Como não aparecem, desisto de esperá-los e trato de sair pra almoçar. Terminado o sofrível prato típico servido no La Casona, escuto, enquanto estou escrevendo, “Bea...Bea”: é Marski que se encontra com o restante do pessoal no mezanino.Fico de cara ao perceber, rapidamente, que, se eles já se encontravam no restaurante quando eu lá chegara, fora porque não tinham ido ao hotel me buscar....caro Watson! Mas que coisa, igual ao filme “Esqueceram de mim”. Marski tenta me enrolar explicando que estivera no hotel cedo mas eu não atendera ao telefone. Tsk tsk....muito babaca a desculpa. Marquitus, mais sincero, admite que, sim, se esqueceram de mim. Os outros, indiferentes, estão nem aí. Confesso que fico chocada com o descaso do grupo. Reclamo, então, pros meus botões: “putz grila, que tipo de parceria fudida é essa? A tal camaradagem, durante os 5 dias de acampamento, virou pó de traque assim que a gente chegou na civilização, é? Ou o ‘esquecimento’ é porque sou uma senhorinha de ½ idade e não uma jovem gostosinha que nem Sabrine?”. Chego à dura conclusão que, fosse eu uma gatinha e não uma gastinha (legal esse jogo de palavras, né?), o macharedo, com certeza, estaria batendo entusiasmadíssimo à minha porta. Embora disfarce (sou metida a durona), tô deveras magoada. E com raiva! Por isso trato de me despedir deles. Necessito ficar sozinha pra deglutir o sucedido. Aos poucos, o ressentimento vai sendo distraído pelo burburinho de La Paz. Tão envolvente essa cidade com seu efervescente comércio! Me pego comparando-o com os bazares de Kathmandu. Uma loja atrás da outra vendendo não só todo tipo de bugiganga que se possa imaginar como produtos essenciais ao dia-a-dia. Os trajes típicos, a sujeira, o aparente caos no trânsito, os produtos falsificados, tudo isso lembra um pouco os bazares de algumas cidades asiáticas que conheço. A calle Santa Cruz, por exemplo, é dum ecletismo que desafia qualquer demanda. Começa com tendinhas de artesanato, depois passa para lojas de artigos desportivos que dão espaço a uma ativa mercancia de ferragens. Lojas de tecidos coloridos são sucedidas por lojas de produtos eletrônicos. Já na calle Garzon, confeitarias especializadas na confecção de bolos de noivas estão convenientemente instaladas ao lado de butiques onde são vendidos trajes nupciais breguésimos. Nas ruas apinhadas de gente, o tráfego incessante de veículos, a maioria, velhos e mal cuidados, resulta numa poluição tal que, ao final do dia, teu nariz está igual a uma chaminé: preto de craca. Subir as íngremes ladeiras desta cidade, por si só, já se constitui num treinamento para ascender às montanhas, hehe. Uma hora de caminhada aqui cansa o equivalente a 3 horas de pernada ao nível do mar, ala putcha! Ao anoitecer, as chollas preparam, em bancas dispostas nas calçadas, bifes, batatas e ovos fritos. Ao lado, em copos de vidro transparente, chás onde boiam rodelas de laranja e limão. Suponho que seja para facilitar a digestão. Mais adiante, estão expostas grossas fatias de abacaxi, enquanto, na banca vizinha, sacos de amendoins, de rodelas de bananas fritas, de abas e de castanhas constituem ardilosos chamarizes à gula. O sujeito tem a sua disposição uma refeição completa: do aperitivo à sobremesa! E, assim, com todo esse caleidoscópio de imagens girando na minha cabeça, recolho-me ao hotel para pôr no papel minhas impressões. Meu isolamento é quebrado pelo toque do telefone. É Bruno. Desço e encontro também Marquitus. Veio me chamar pra jantar com o grupo. E tudo acaba em pizza, literalmente, porque vamos a uma pizzaria celebrar nossos últimos momentos juntos. Retorno ao Brasil, no voo que parte de La Paz bem cedinho na quarta-feira,  ao passo que alguns deles ainda permanecem por aqui. Vão tentar novos cumes. Consigo dormir um pouco antes de partir pro aeroporto, já que tenho de estar lá às 5 horas. Enquanto o táxi roda, o que vejo é uma cidade diferente daquela que curtira durante o dia. Estranhamente silenciosa e vazia. As escadarias e o largo da igreja de São Francisco, que há um par de horas se mostravam apinhados de nativos e turistas, se encontram sem viva alma. Assim também a avenida Sta Cruz e a calle Sagarnaga. Sem a algazarra e o bulício diurno, parece uma cidade fantasma. Interessantíssima essa faceta paceña! Quando estou em El Alto, a última imagem que tenho de La Paz é a visão dum fiapo branco de nuvem pairando sobre a cidade. Como um véu de noiva.
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segunda-feira, 23 de julho de 2012

Acabou-se o que era doce!

Embora já sejam 8 horas, a manhã, lindamente azulada, castiga ainda devido à gélida temperatura. Tanto que, quando vou escovar os dentes na bica, congelo rapidamente os dedos e uma puta dor açoita minha mãos durante uns 20 minutos. Yola serve um desaiuno à boliviana: api, beberagem obtida da fermentação do milho escuro, temperada com limão e canela, e buñuelos, massinha doce frita (equivalente às cuecas viradas). Em todas as viagens, rola sempre o mesmo sentimento de desolação quando vejo a movimentação dos guias e arrieros desarmando as barracas e colocando as bagagens nos lombos das mulas. Não é nada muito profundo, apenas uma sensação desagradável. Quem gosta, hein, de finais de festas, ainda mais quando o farrancho foi de arromba, não é mesmo? E expedições, no meu entender, significam exatamente isso: uma festa em movimento! Daí sentir-me macambúzia quando terminam. Voltamos pela mesma trilha por mim percorrida quando aqui cheguei há 7 dias atrás, a de Rincón. Posso assim curtir o cenário cuja visão me  fora furtada porque caminhara à noite. Durante a descida, surge, no fundo do vale, a pequena laguna Jankokota em cuja margem algumas lhamas pastam. Menos de 1 km adiante, jaz a laguna Kallankota que exibe, em seu espelho d’água, o branco reflexo invertido da Cabeza del Condor. Em alguns trechos da trilha, as águas do rio Condoriri ainda se encontram congeladas. Tudo porque durante as madrugadas a regra é a temperatura despencar alguns graus abaixo de zero. A duração da caminhada não chega a 1 hora, terminando na comunidade de Rincóncito. Vivem no lugar 4 ou 5 famílias de pastores de lhamas. Essa atividade pecuária é a principal fonte de sobrevivência dos índios do altiplano boliviano, embora, a cada ano que passe, o trabalho de arrieros (feitos majoritariamente pelas mulheres) engrosse substancialmente o magro orçamento familiar. A nossa espera, um ônibus amarelo lembra um pouco o bus school de filmes americanos. Um bando de lhamas tangido por duas índias passa diante de nós. Pouca demora, os índios colocam uma corda à volta do rebanho, improvisando um cercado, enquanto gritam em aimará palavras de ordens entre eles e para os bichos. Nem as mulheres, carregando às costas seus bebês enrolados em panos coloridos, se furtam da função. Embarcamos no velho ônibus cujos assentos duros tornam mais desconfortável a sacolejante viagem ao longo do esburacado trecho de chão batido. Antes de chegarmos a La Paz, uma parada em El Alto, a convite de Jenaro. Tudo porque o amável boliviano quer obsequiar seus clientes. E, pra isso, oferece, embora singelo, um delicioso almoço. Galinha e batatas assadas além de saladas são servidas num terraço. Esparramado a nossa frente, desfrutamos a visão luxuosíssima do Illimani. Que beleza! Davi, vegetariano de carteirinha, cisca no prato dos outros o tomate, a alface e a batata renegados, sem qualquer pudor. Muito irado esse Marski, hehe.... À noite, celebramos nossas conquistas num pub bem maneiro que fabrica sua própria cerva, o Heineke Fuks. Servida em canecões  de 1/2 a 3 litros, o cardápio oferece uma original caneca em formato de bota! Como não sou chegada nesta beberagem, vou de vinho. Peço um Cabernet Sauvignon, da Campos de Solana, vinícola boliviana que produz buenaços vinhotes feitos na província de Tarija! Harmoniza as mis maravilhas com o prato que pedi: um estrogonofe de carne de lhama com massa. Rafael lá pelas tantas surge todo pimpão escoltando duas belas gurias. Rola um certo alvoroço entre os rapazes e não demora muito para que Renato se desloque até a ponta da mesa onde o grupinho se encontra. O que não é de se estranhar! Afinal, na nossa expedição, as únicas duas mulheres são inalcançáveis. Uma não atrai – euzinha - porque é uma senhorinha de ½ idade, a outra – Sabrine -, embora atraente e jovem, está comprometida. O conversê torna-se mais animado à medida que mais canecas de cerva são depositadas sobre a mesa. Porém o estado de euforia não se deve exclusivamente ao álcool. A bebida apenas estimula o lado fanfarrão que, dependendo do temperamento de cada um, se manifesta com mais ou menos ímpeto. Pensando bem, nem se cuida tanto de fanfarronice e sim de vaidade por praticar um esporte que uma minoria, no planeta do futebol, se dedica. Acontece às vezes de os perrengues sofrerem um engrandecimento significativo, em especial quando o sujeito usa poderosa lente zoom ao narrar suas façanhas, como já tive oportunidade de constatar. Claro que deve ser considerado o lado subjetivo de cada situação. O que é difícil pra mim, não o é pro Joãozinho e vice-versa. Enfim, não sem razão, todos nós estamos prosas. Caramba, cada um de nós papou de um a três cumes em 7 dias, oigalê!!
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domingo, 22 de julho de 2012

Merda....queria tanto esse cume!

Acordo tarde no sabadão, com uma baita preguiça. Tenho, por motivo óbvios, uma bela justificativa. Não só a altitude deixa a gente molengona, como ontem culminei um 5 mil. Mereço, portanto, um dia de dolce far niente, ou num bom português, de ficar só na vadiagem. Dum azul imaculado, gostaria de riscá-lo não fosse tão inalcançável esse mata-borrão conhecido como céu. Na hora de meu sagrado alongamento, Sabrine, Marquitus e Davi resolvem me acompanhar. Claro está que Davi, como não podia deixar de ser, se queixa da insolente flatulência que o vem azucrinado desde que pisou em solo boliviano. Os demais fotografam e tiram sarro de Marquitus (porque é o mais jovem integrante da ala masculina, os demais, um bando de prevalecidos, se arriam no gurizinho) por causa de certas posições - digamos assim - um tanto quanto ginecológicas que resultam de alguns exercícios. O rapaz, cabra macho, sim senhor, nem se abala com tais picuinhas. O vento, até então uma simples aragem, se intensifica. E a leve brisa se transforma em rajadas curtas e fortes. No almoço, trutas (recém pescadas na laguna Chiarkota, estão fresquitas) servidas com fartas porções de batatas fritas fazem a galera delirar de prazer. Dos deuses esse prato! Como é usual, dale conversa fiada, terminada a refeição, embora a temperatura na tenda-refeitório seja saariana, atingindo a marca dos 37º C! E olha que estamos a 4.700 m! Resisto até certo ponto, porque, afora o calor, nada a ver prolongar ainda mais minha permanência, sentada nestes desconfortáveis banquinhos de campanha. Não há coluna vertebral que lhes resista! De pancinha cheia, tomo o rumo de minha tenda. Melhor posição que a horizontal pra fazer a digestão está pra ser inventada. Avanço mais um pouco na leitura em espanhol de Corta Fuegos, escrito por Henning Mankell, um sueco a quem considero um dos grandes mestres da atual literatura policial, quando escuto “baterem” à porta. É o bom Marquitus, convidando-me a ir até a laguna com eles. Próximo à margem, num barco, um casal de paulistas mais o guia se preparam pra pescar trutas. Fico sabendo depois que a guria é a Belle Duarte, escaladora paulista, que dois dias depois fez cume no Cabeça do Condor. E conheço outro escalador, o Bruno, que fornece dados interessantes sobre umas montanhas pouco frequentadas nas cercanias do Illampu. Na noite estrelada, desponta o fino crescente lunar entre a Cabeça do Condor e sua Asa Esquerda. Pena que não vou vê-la cheia. Deve ser uma beleza ela bem redonda refletindo aquela brancura fulgurante nas águas escuras da laguna. Cesso minha divagação, meio que a contragosto, e trato de dormir. Amanhã tem atividade...ebaaa!!!
Embora sejam 3 da manhã, estou na ponta dos cascos, tanto que saio do saco de dormir, rapidinho. Não há melhor estímulo pra curtir este domingo faceiro que escalar uma montanha. A bola da vez é o Pirâmide Blanca, outro 5 mil. Sinto-me forte e muito afinzona de fazer este cume. Dessa vez, do grupo, sou a mais fraca, motivo por que Davi decide que irei solita com Marco Antonio, ao passo que Jamil, Patucci, Tato, Renato e Rafael serão guiados por Fred, Davi e Mario. Saímos do acampamento 4 horas, já que o Pirâmide, situado antes do Tarija, demanda menos tempo. Demora pouco, o dia clareia, e o sol começa a dar pinta bem a nossa frente. Já durante a caminhada entre o acampamento e o glaciar, eu voltara a sentir o mesmo incômodo no peito do pé esquerdo que me aperreara na sexta-feira enquanto descia o Tarija. Tsk tsk tsk....nada bom isso! Calçados os crampones, subimos a íngreme rampa de gelo onde tem início o glaciar. O caminho já me é familiar. Afinal, é a minha terceira investida nestas paragens! Delimitado o glaciar a oeste pelo cerro Huallomen e a leste pelos cerros Aguja Negra, Ullusion e Illusioncita, avisto 400 m adiante, o pontinho escuro conhecido como cerro Diente. À sua direita, sobressai a imponente Pirâmide que de Blanca só no nome. Em tempos de aquecimento global, suas rochas escuras encontram-se pouco escondidas pela neve. E a merda da bota insiste em continuar machucando meu pé. Marco Antonio, atencioso, desaperta os cadarços dos botinões. De nada adianta. A porra da bota não dá refresco. É penoso caminhar assim, desse jeito. Após consultar meus botões, me dou conta de que pra fazer cume não basta apenas subir, há que se descer, cabrón! Jogo a toalha, ou melhor, dou meia-volta volver, após já ter palmilhado 1/3 do percurso. Se já é difícil caminhar num terreno acidentado como o de alta montanha, imagina fazer isso calçando equipamento fodido. Magoa o pé e também o ânimo! Chego à conclusão que se a desistência do Alpa não me abateu foi porque houve uma aceitação legal de minha limitação física. Mas ser obrigada a deixar pra lá o Pirâmide, por causa dumas botas de merda, ah, isso não! E dói mais porque eu estava imprimindo um ritmo forte de caminhada. Nem iria ficar muito atrás dos guris! Enfim, vivendo e aprendendo. Na próxima vez, não serei pão-dura, cuidarei, isso sim, de alugar um bom equipamento! Encontro na descida Fred e Davi que recém estão subindo, tudo porque estavam tendo problemas com os crampones. Perguntam o que há, explico e desejo-lhes bom cume. Enquanto se distanciam, escuto o conversê animado dos dois diante da perspectiva de mais uma aventura. Sinto, então, uma ponta de inveja do que eles enfrentarão e eu não...droga!! Durante o descenso, Marco Antonio conta que, ano passado, um dos instrutores do CAP (Clube Alpino Paulista) desistiu do Pirâmide devido ao cansaço. Fico super reconfortada com tal informação, porque essa galera do CAP é bem casca grossa. Seu treinamento tem uma levada de estilo militar. Tanto que, este ano, um deles luxou feio um ombro e teve de antecipar seu retorno ao Brasil. Quando chego ao acampamento, Oliver, Marquitos e Sabrine, que decidiram deixar pra lá o Pirâmide devido ao cansaço dos cumes conquistados na sexta, curtem uma caracará expulsar a bicadas o filhote do ninho. Ele, insistente, bem que tenta voltar. Ela não arrega, emite uns pios e barra-lhe, em definitivo, a entrada ao ninho doce ninho. Cá entre nós, mas como o bicho homem é cheio de dedos em relação à prole, não é mesmo? Muitas vezes sua tolerância é tanta que as crias saem de casa já quase idosos. No mundo animal, inexiste esse sentimento deletério conhecido como culpa! Por isso, na próxima encarnação, por Buda, quero retornar nem que seja na pele duma ameba. Sentados ao sol, ficamos jogando conversa fora até que um vento frio nos empurra pra dentro da barraca-refeitório. Pouca demora, lá vem Yolita trazendo um panelão – ebaaa – de sopa de legumes bem quentinha. À tarde, pela primeira vez nestes 6 dias em que estou no Condoriri, surgem nuvens cinzentas no céu. Cogita-se inclusive a possibilidade de queda de neve, caso a quantidade de nuvens teime em aumentar. Qual o quê, tudo falso alarme, porque, tão logo escurece, se vê o céu coalhadim de estrelas e uma lua crescente, já bem mais taludinha, brilhando lindaça sobre o Condoriri. Vidinha mais ou menos essa, né?
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sexta-feira, 20 de julho de 2012

...dos cumes!

Acordo às 02 da madruga com céu estrelado e - 6ºC. Em se tratando de alta montanha, tal temperatura é ameníssima! Uma merda andar com bota dupla de plástico em terreno irregular e pedregoso, tanto que durante a caminhada até o sopé do glaciar Tarija, pareço um robô devido à perda de flexibilidade na região dos tornozelos. Em lá chegando, calçamos os crampones e nos encordamos ao guia Marco Antonio que segue à frente de nosso pequeno grupo. Decidem que eu por ser a mais lenta vou atrás do guia dando o ritmo da caminhada. Nem discuto, deixo quieto, embora internamente, reine a firme convicção de que Sabrine é a mais lenta de nós três. Há algum tempo atrás eu me incomodaria, e muito! Atualmente, o que importa é subir bem, ou como diz o Marski, caminhar como um velho pra chegar como um jovem ao cume, hehe. Duas vezes paramos devido a problemas nos crampones de Marquitos. Meus pés, até então quentinhos da caminhada, esfriam durante a espera....merda! Após três horas de subida constante, começa a clarear e consigo visualizar, emoldurado por duas montanhas, o Huayna Potosi. Abaixo, no vale, a laguna Chiarkhota destaca-se entre os cerros que a cercam. No mais, impera a brancura ofuscante do glaciar refletindo a jovem luz matutina. Coberta de pequenos penitentes, o cenário do glaciar está distinto do ano passado, dificultando mais ainda o ascenso à íngreme rampa que conduz ao platô, situado a 50 m do cume do Tarija. Justo neste local, Sabrine tem um acesso de choro. Arriada no gelo, é a própria imagem do desconsolo, declarando que não quer mais continuar. Marquitos, inconformado com a decisão da namorada, tenta dissuadi-la, o que gera um pequeno entrevero entre o casal, com ele insistindo e ela negando-se em prosseguir. Se Marco Antonio não intervém, o bate-boca iria se estender sabe-se lá até quando. Graças a deus, ou melhor, a Marco Antonio, a rusga é interrompida. O guia toma as rédeas da situação e convence Sabrine, com seu jeito manso e tranqüilo, em continuar a jornada. Usa para tanto o manjado argumento “é logo ali”. Só que o “logo ali” demorou bem uns 40 minutos, hehe. Vou fazer um pit stop na narrativa pra tecer algumas considerações sobre as causas prevalecentes dos sucessos ou fracassos em alta montanha. Até ano passado, eu concordava com a “corrente do fator psicológico” cuja tese defende que, se o cara “amarelou”, foi o emocional que o impediu e blá, blá, blá. Este ano, contudo, revejo meu ponto de vista e tenho pra mim que se atribui exagerada importância ao emocional em detrimento do condicionamento físico. Ora, ora, se neguinho tá fora de forma, não há força de vontade que o leve ao cume. Equilíbrio mental não se adquire enquanto se está na montanha! Ou se tem ou não! Com esta afirmação, longe de mim, passar a impressão que menosprezo o aspecto psicológico, só não! Apenas quero destacar também o lado - digamos, assim, mais material da questão - físico. Ah...e aproveitando o ensejo, ponho na roda uma qualidade moral meio fora de moda, ou melhor, totalmente “out”, chamada estoicismo, sem a qual atletas ou aventureiros chegam a lugar nenhum, tá ligado? Bueno, o caso de Sabrine é emblemático. O estresse emocional foi resultado de seu esgotamento fisico, tanto que posteriormente admitiu, que necessitava de mais preparo físico. Se não fosse a atitude de Marco Antonio, incentivando-a com as palavras certas, ela teria retornado ao acampamento sem fazer cume. Ciente de que este assunto rende muita polêmica, trato rapidinho de retornar aos 5.300 m do platô que antecede os cumes do Tarija e do Pequeno Alpamaio. Daqui a visão da Cordilheira Real é, sem sombra de dúvida, considerada unanimemente bela. Não só dezenas e dezenas de cerros localizados ao sul, quanto as espalhadas encostas do Huayna Potosí, ao norte, são avistadas. Se a visibilidade estiver 100%, e o sujeito for dotado de olho de águia, periga enxergar inclusive o Illimani. Depois duma curta pausa, de modo a recuperarmos o fôlego, continuamos a ascensão. Agora já pertíssimo da estreita crista (o crux da via) que me separa em 10 m do cume do Tarija, escuto risadas e percebo acenos daqueles que já lá estão. A travessia exige cuidadosas passadas com os crampones: uma após outra, sem pressa, de modo a evitar que as pontas se cruzem. Se isso acontecer, periga você tropeçar e cair. Claro está que uma queda no vazio é bem improvável porque, afora a gente se encontrar sempre encordada ao guia, os caras são super treinados e dotados de muuucha força física. Qualquer resbalão, eles te seguram forte, impedindo conseqüências mortíferas. O mínimo que pode acontecer, afora o cagaço, é sofrer alguns hematomas. O mais grave? Algum(s) membro(s) quebrado(s). Como ainda tenho bastante medo de altura, me atrapalho um pouco com os crampones mas logo venço o último degrau e, ulálá, estou enfim encarapitada no topo do Tarija. Pela primeira vez, dá pra acreditar? Ano passado, ledo engano, quando eu pensara tê-lo conquistado, alcançara apenas o seu antecume, o tal platô onde estivera há pouco. Sinto uma puta raiva quando me dou conta do baita equívoco. E põe baita nisso. Tudo resultado da “boa” - arghhhh!!! - comunicação entre mim e o baixinho do meu guia, aquele nanico ignorante, aquele ser praticamente analfabeto que mal sabia falar espanhol, quanto mais entender meu “castiço” portunhol!!! E eu que ainda tive a soberba de proclamar em alto e bom som que achara o Tarija sem graça...pode?! Ai meu deus, que vergonha...puta merda, meu, que horror! Fico de cara comigo mesma. Totalmente desavisada e desorientada eu. Nunca vi igual. O que esperar duma criatura que consegue se perder dentro dum shopping hein?! Dura pouco meu desgosto até porque agora tenho real motivo pra comemorar. Sem grandes espalhafatos já que sobrou pouca energia devido ao super desgaste físico. Acho ótimo quando verifico que apenas nosso grupo se encontra no cume. Caso houvesse mais gente, ia ser uma muvuqueira das mais apertadas, porque nós 13 estamos quase o ocupando por inteiro. O cume, de fato, não passa dum corredor estreitíssimo com pouco mais de 10 m de comprimento, coberto quase totalmente por neve firmemente compactada, salvo em alguns trechos onde afloram rochas graníticas. No lado que leva ao Alpamaio, um brete rochoso, ao passo que, no lado oposto, um precipício branco escancara um vazio duns 60 m. O contentamento circula entre nós, tanto pra quem fez cume pela primeira vez (e não é que Oliver conseguiu apesar das apostas em contrário?!) como pra quem já é macaco velho como Marski e Fred. Sempre bate uma emoção quando se está encarapitado num pico andino de mais de 5.000 m! Marski pergunta quem vai fazer o Alpa. Quando olho a super íngreme ladeira que leva àquele cume, desisto, após breve reflexão. Sem chance de eu encarar. Não vale a pena tanto sacrifício. Aqui, começo a traçar, não sem um quezinho de frustração, meus novos limites. Do grupo, Patucci, Tato, Marcus, Rafael e Renato encaram o desafio de subir essa jóia da Cordilheira Real. Os dois últimos, contudo, dão conta apenas da desescalada de 2º grau ao longo do corredor rochoso que sai do topo do Tarija e termina numa rampa de gelo. Seria moleza, caso não estivessem a mais de 5.000 m e ainda por cima, calçando crampones! Conscientes da debilidade de seus corpos, os dois guris retornam ao Tarija. Mais tarde, no acampamento, Patucci me dá uma ideia do que foi a escalada ao cocuruto do Alpa. Após o tal brete de pedras que desemboca numa rampa de gelo, segue-se outra desescalada, curtíssima, novamente sobre terreno rochoso, iniciando uma curta ascensão ao longo duma rampa de gelo que desemboca num terreno relativamente plano coberto de neve. Aí então inicia o perrengão dos 200 m de subida na rampa totalmente nevada cuja inclinação varia de 45º a 75º. Lindo ver Tato, Patucci e Marquitos mais os guias Mario e Marco Antonio enfrentando a penosa ladeira tão linda quanto técnica. Os guris não levam mais que uma hora entre subida e descida (rapelando), exceto Marquitos, o menos forte dos três. E fico de boca aberta, quando vejo Mario encaminhando-se lépido e fagueiro em direção ao cume, indiferente aos efeitos dos 5.000 metros acima do nível do mar! Chego ao acampamento às 14 horas, tão cansada que nem tento alongar. Também pudera! Na trilha, desde as 2 da manhã, após caminhar durante 9 horas, sobra pouca energia. Yola traz água e eu sedenta, bebo, avidamente, 3 copos um atrás do outro. Quero mais, mais e mais!! Cumbres, por supuesto, hehe !!
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