sábado, 8 de março de 2014

Garganta Kaingang

Mal chegadas, quarta à noite do pedal no Uruguay, eu e Fatima planejamos nossa viagem a Praia Grande já pra amanhã. A guria curitibana tá louca pra provar dum canionismo embora já tenha feito cascades. Um inclusive numa cachu de 180 m em Prudentópolis. Mas cascade é moleza, basta rapelar a cachoeira e zé fini. Já canionismo envolve técnicas verticais (rapel, escalaminhadas e desescalaminhadas), natação e marcha aquática em leitos de rios. Saímos quinta de Porto no início da tarde. Como não almoçáramos ainda, resolvo desviar da BR 101 e seguir pela Estrada do Mar. Isso porque no Km 1, há um restaurante, o Luzzardo, cujos pratos além de bons são fartos e baratos. O risoto de camarão inclui salada, polenta frita e ...... feijão!! Quando estamos quase chegando em Torres, nova parada, dessa feita na Tenda do Véio pra degustar um suco de abacaxi feito na hora. Cada uma pilota seu carro já que Fatima veio motorizada de Curitiba. Quando começo a avistar os canyons, já bem próxima a Praia Grande, meu coração dispara de alegria. Faz tempo não sinto a sensação reconfortante de retornar a um dos lugares que escolhi amar deste planeta! Já não posso dizer o mesmo a respeito de minha cidade natal, Rio Grande. Pois é....o Rio Grande que eu amo, o da minha infância, não existe mais, só nas minhas recordações. Bueno, antes de ir pra pousada, passo no Flavio, guia e proprietário da Canyons e Peraus (http://www.canyonseperaus.com.br), e combino um canionismo pra sábado. Faremos a Kaingang, garganta que eu já fizera com Kaloca há 3 anos. Como não guardo o registro dessa indiada pois na época perdera a máquina na margem esquerda do rio Mampituba, topo repeti-la. Conosco irão mais 2 pessoas. Faço uma surpresa pros meus queridos da Colina da Serra e chego de improviso. Bom demais ser recebida com afeto e alegria pelos donos da pousada, Maria e Paulo. Nem bem sentáramos, abro uma garrafita de vinho branco que trouxera de Porto. Cheias as taças, a charla prossegue animada na espaçosa cozinha recém reformada. Um potreirão de grande a peça! Maria, minha querida Mariolinda, solícita como sempre, atende meu pedido: omelete mais salada verde. Fátima, que já tinha mandado a abstinência dianética pras cucuias, tragoleia como gente grande!! Na sexta-feira, acordamos sem pressa. A programação é light. Após o café da manhã, cheio de gostosuras, eu e Fatima pegamos a guia Monalisa, parceira de inesquecível perrengue dentro duma garganta das redondezas há um par de anos atrás, e vamos de carro até a porteira situada a 1 km da cachoeira dos Borges. A trilha, facílima, atravessa uma adorável mata atlântica que não exige destreza tampouco esforço físico. Ao fim do sendero,  eis a linda queda d’água de 70 metros, que se situa no outro lado do Mampituba, já em terras gaúchas. Aqui nestas plagas é assim: ou tu tá em Santa ou no Rio Grande! Basta cruzar o leito do rio pra trocar de lado. Voltamos pra pousada e, novamente a meu pedido, Maria se puxa e faz aquela maionese feita em casa. Acompanhada duma carne de panela que, de tão macia, até faca dispensa! E dale vinho tinto, dessa feita! Após a séstea, pegamos as bicis e descemos os 2 km da serra do Faxinal até a ponte enveredando pela estrada geral que leva à Vila Rosa. Mostro os canyons Índios Coroados e Malacara à amiga e voltamos pela rua Leão onde plantados às margens da estrada alguns arrozais já exibem espigas amarelas. Dormimos cedo neste dia sem grandes libações alcoólicas já que o horário combinado pra gente se encontrar amanhã é às 5 horas na cabana de Kaloca. Dali, Kaingang em nós.....uhuuu!!
Choveu durante a noite....ai ai ai. Maria, apesar da hora, 4 e 30, nos espera com um café quentinho na cozinha. Comento com Pauleca que se Flavio não telefonou até agora é porque a indiada está de pé. Pegamos meu carro e vamos até a cabana de Kaloca onde pouco depois chegam Andre e Laura, o casal que também irá conosco. Ele, milico reformado, mora em Curitiba; já ela é natural de João Pessoa onde vive e trabalha. Conheceram-se pelo Face, e aproveitando o feriado de carnaval, Laura veio visitar o namorado. Ainda sonolenta, cedo a direção a Paulo. E toca a subir a serra do Faxinal onde em Cambára, pra sacudir o sono, paramos numa padaria e fazemos um lanche reforçado. Pouca demora, pegamos a RS 020 rumo a São Chico. Ultrapassado o trevo pra Jaquirana, rodamos talvez coisa duns 15 km e quebramos à esquerda, enveredando por uma estradinha de chão batido marca diabo parando os carros a mais ou menos 3 km do Kaingang. Nos despedimos de nossos motoras e iniciamos a pernada até o vértice da garganta, de onde despenca uma impressionante queda d'água de 80 metros. Enquanto os guias armam a parada, baixa uma névoa tornando mais cinzenta a manhã. Apesar do mau tempo, sinto-me alegremente excitada, não só porque faz 3 anos não me aventuro num canionismo como por estar sendo guiada por dois queridos e velhos conhecidos,  os excelentes canionistas Flavio e Kaloca! Sou a primeira a descer e quando chego ao platô que antecede os 20 metros finais, sinto as ganhas o jorro forte da tromba d’água batendo no capacete, tanto que, quando alcanço o chão, sinto minha cabeça latejar um pouco. Laura pergunta a Flavio se não há uma rota alternativa que não seja a dos rapeis nas cachus. Desconfio que a paraibana se assustou com a altura da cachu de 80 metros, hehe. Não adianta muito ser verão quando nos encontramos no interior duma estreita e úmida garganta, sem sol que aqueça este buraco de 700 m de profundidade, motivo por que começo a encarangar. Pra espantar o frio, convido Fatima a caminhar comigo até a segunda cachu. É uma miniatura se comparada à primeira: deve ter 5 m, se tanto! A parada, igual à da anterior, é num grampo P. As distâncias entre as quedas d’águas são curtas, tanto que 500 metros adiante já alcançamos a terceira cachu com 50 metros, linda pra caramba. É uma rampa com degraus bem acentuados, facilitando em muito o rapel. A garganta vai se apertando mais e mais à medida que se perde altura. E o que é esse cheiro de mato, meu deus?!! Nenhum perfume, por melhor que seja, consegue rivalizar com o odor de terra úmida e matéria vegetal em decomposição. A quarta cachu, de 30 m, é outra bela rampa ainda mais horizontalizada que a anterior. A ancoragem é feita na borda esquerda da parede onde, embora haja maior volume de água, o musgo evita que a bota resvale no basalto. Percebo que, na metade do rapel, Fatima embatuca entre seguir mais à direita ou à esquerda. Como tem pouco conhecimento técnico, escolhe a primeira opção. Quando termina, chamo ela na chincha: “ô guria, te liga, no próximo rapel, não for-ça a cor-da, não tenta desviá-la pra longe de seu eixo de ancoragem, senão tu pode pen-du-lar.”  E segue a exaustiva caminhada ao longo do leito do rio. Poder, entretanto, desfrutar a exuberante vegetação da mata atlântica compensa a judiação do esforço físico. Adoro tal ambiente, a-do-ro. Quando Fatima percebe que estou filmando faz um gesto de ok mas perde o equilíbrio, hahahaha!! Essa guria me diverte muito. É engraçada sem querer. O pedregoso leito do rio, até então irregular, transforma-se num lajedo facilitando a caminhada até o beiral da quinta cachu. Está é das boas: 100 m de queda livre. Daqui já se pode avistar o paredão sudeste do canyon Josafaz. Contudo, pouca demora, se eleva do interior do canyon um nuvaredo, impedindo que se continue curtindo a paisagem. Necessário fazer 2 breves rapeis de aproximação. O primeiro, do final do lajedo até a borda mal sustenta os dedões dos pés, hehe. Pendurada na parede, olhando pra baixo, nem acho tão alto assim os 90 metros que me separam do chão. Tudo uma questão de perspectiva. Nos 10 m iniciais, desço em meio a um matinho enfezado grudado na rocha. Ultrapassada a miniflorestinha, o paredão exibe-se liso, sem vestígio de vegetação. Começa então a descida em negativo. Tento impedir que meu corpo rodopie livremente mas sou vencida pela força da corda. Acontece então o que temo: de costas pra parede não há como não encarar o vazio. Controlo o nervosismo respirando profundamente. Vez por outra até ouso brecar a corda de modo a contemplar, já com certa serenidade, a paisagem (mas sempre terei medo de altura, sempre). Após breve parada no largo platô, rapelo rapidinho os 20 m restantes, arribando no fundo do poço, raso que nem poça d’água, hehe. Apesar do medo, tanto que ela pediu pros guias não avisá-la quando chegasse na de 100 m, Laura desceu com galhardia a cachu. A essas alturas, Andre já exibe sinais evidentes de cansaço embora seu bom humor espante qualquer sinal de irritação provocada pelo cansaço. E quando paramos pro almoço, comenta que se pudesse escolheria um lugar tipo termas do Gravatal. Vem, contudo, na parceria, acompanhando Laura. Ela, por sua vez, não dá a mínima pro mimimi do namorado quando ele se queixa de dor na costela (o coitado caiu umas trocentas vezes nas pedras). Ala putcha, que durona a paraibana. Vai ver, é por isso que o homem gamou nela. Exemplo a ser seguido Laura, hehe. Começa a chover, ai ai ai. Quando chegamos na 6ª e 7ª cachus, com respectivamente, 20 e 55 m, somos obrigados a dar um balão na mata. Impossível encarar um rapel nelas. As duas cachoeiras formam um brete estreitíssimo e por causa do chuvaral de 3 dias atrás mais o de hoje estão bombadíssimas. Kaloca improvisa, então, no paredão norte da garganta, coberto de mato, um rapel com parada num tronco de árvore por onde descemos. Quando chego a terra firme, olho e percebo quão lindo é este lugar: a cachu de 55 metros desce verticalmente iluminando com a brancura de suas águas a grota escura por onde jorra. Infelizmente, acabou a brincadeira com as cordas, rapel nas restantes cachus nem pensar. Tão muito cheias. E dale a caminhar, ora pelo mato ora retornando ao leito do rio. Finalmente encontramos a trilha que leva à margem esquerda do Josafaz. Que por sua vez está com um considerável volume de água. Cruzamos o rio, entrelaçando as mãos em corrente. Ao chegar na casa de Zé Fernandes, Pauleca e Alberi já lá se encontram. Mas as emoções continuam porque, de dentro duma caixa de isopor, Flavio retira um espumante e várias taças, hahaha!!! Brindamos à vida, à deliciosa indiada e às futuras!! Que vengam otras!!

quarta-feira, 5 de março de 2014

Bafafá na fronteira

Deixo Villa Serrana com gostinho de quero mais. E nova improvisação acontece em nosso roteiro original de pedalada! Ed explica que se formos até a Quebrada de los Cuervos não dará tempo pra fazer as tais compra no free shop de Rio Branco. Propõe então uma segunda opção: manter as compras e pedalar, trocando, porém, a Quebrada pelo lago Merín (lagoa Mirim pra nosotros) cuja distância aproximada, ida e volta, dá 40 km. Claro está que vencem as forças de Mr. Hyde. Nem todos os cavalheiros de Jedi conseguiriam vencer a sanha consumista da maioria do grupo. Deus que me perdoe por não controlar a danada da minha língua mas esse pedal tá parecendo excursão de muambeiros do Paraguai (só de raiva escrevo com “i”, eles não merecem o escultural “ipsilone”). Quando chegamos a Rio Branco, cidade uruguaia separada da brasileira Jaguarão pelo rio de mesmo nome, eu que nunca viera aqui não lamento nem um pouco. Feia, sem quaisquer atrativos, salvo pela ponte internacional Barão de Mauá, construída no início do século passado, Rio Branco não apetece ficar nem um par de horas. Mesmo os free shops são fraquinhos se comparados aos de Rivera, onde o comércio dá de 10 a zero. Pela última vez, monto o pneu dianteiro - do caralho, se é a última vez, já que quando chegar em Porto, vou ter de montar a bici pra ir pedalando pra casa – , ou melhor, quem monta é Victor. E verificamos que o pneu traseiro está furado. Retiro da nécessaire, fixada abaixo do selim, câmara reserva e – merda – verificamos que a válvula não serve pra minha, pois 2 que tenho na mala e mais uma vez, pra meu desgosto, constato que as válvulas são também grossas, inadequadas pra minha bici que exige uma tipo francesa, de bico fino. Victor então começa a fuçar procurando o furo na câmara. Se houve demora não foi por culpa do querido rapaz e sim porque meu kit estava com validade vencida. Eu o tinha há 3 anos e nunca o usara desde que o comprara. Após pedir pra um e outro, conseguimos cola e adesivo em bom estado de uso. Como o pequeno grupo que ia pedalar (a maioria prefere ir às compras: seja porque estão satisfeitos com os km percorridos, seja porque já sentem os joelhos doídos, seja porque - galos cinzas fodásticos que são - esnobam pedalar em estrada plana e asfaltada, sem qualquer grau de dificuldade técnica) já tinha largado fazia quase uma hora, Ed pôs minha bici e a de Victor no suporte traseiro da caminhonete e nos deixa a uns 5 km do balneário, motivo pelo qual meu percurso ida e volta deu 28 km (http://connect.garmin.com/activity/456000994) enquanto o deles alcançou a boa marca de 48 km! Quando vejo aquela imensidão de água - mais parece um mar, nem se distinguindo a outra margem, tiro os tênis e entro na lagoa. Todo mundo se esbalda, mergulhando em suas mansas águas. Na lanchonete em frente à praia, peço um chivito de carne de porco, delicioso de bom. E a volta é osso porque sopra um ventinho contra que castiga o pedal. A velocidade que, na ida, atingiu fácil a média de 25 km/h, não sobe de 16 km/h. As carretas que passam provocam um forte e até – pode-se dizer com algum exagero – perigoso deslocamento de ar. A rodovia sem acostamento exige bastante cuidado, vá que algum projeto de psicopata queira tirar fininho só pra implicar com a gente, né? E há os que fazem isso só de sacanagem, os filhos da puta! Terminado o pedal, dá tempo pra ir numa das tantas lojas e comprar algumas latas de patê mais dois vidros de azeitonas recheadas com chilli. Não resisto e acabo levando mais 3 garrafinhas de  pomelo. Já dentro do veículo, preparados pra cruzar a fronteira, aqueles que retornam pras suas casas de avião, questionam Ed sobre o local onde ficarão quando chegarem em Porto Alegre. Ed pondera que é complicado largar cada um em seu hotel, concluindo que será, portanto, no aeroporto onde podem pegar táxis que os conduzam aos locais onde se hospedarão. Ele se despede pois não retornará conosco, permanecendo, contudo, os guias Vicente e Gabri como responsáveis. O pessoal comenta entre si que prefere ficar na frente do hotel “x” ao aeroporto, tendo em vista que os hotéis reservados localizam-se um ao lado do outro. Baixa então numa "simpática" moça "aquele espírito de síndica, zelando pela ordem e bons costumes". Ela chama o xerife -  Ed é claro - e faz “queixa” - isso mesmo que vocês estão lendo - "queixa" do pessoal!! Que eles estão se “amotinando” (sic). Que sem ele -  Ed - no busão será complicado lidar com a situação, pode? Denise, uma das queridas que pernoitará em Porto, não deixa barato. Aproveita que Ed ainda se encontra à porta do ônibus e, sem alterar a voz, bem classuda, explica que ninguém está se amotinando. Ed escapole de fininho, deixando o abacaxi pros guias descascarem. Ao ver como a galera fora tratada, tal qual perigosos delinquentes, cujo tratamento deve ser a ferro e fogo, não resisto. Levanto do assento, viro pra Denise e, em tom irônico, comento em voz audível: "Amotinada hein?!" Bah, a guria monta num porco. E estoura. Com olhar fulminante – se fosse raio eu não estaria aqui contando a estória - indaga o que tenho contra ela. Percebendo o descontrole emocional da criatura, deixo quieto, e sorrio vez por outra. Fazer o quê, né? Vá que a doidinha parta pras vias de fato, uai. Fatima, ao meu lado, chega a se encolher, sei lá se de medo que sobre pra ela, caso a mulher resolva mesmo partir pra ignorância, ou se de constrangimento pela tormentosa situação. Cada vez que lembro da carinha assustada da Monster, tenho frouxos de riso. No final, aleluia, o bom senso dos guias prevalece e o pessoal é deixado na frente dum dos hotéis. Fatima, eu e Greice, a quem convidara pra dormir aqui em casa, entramos madrugada adentro, no terraço, bebericando um vinhote branco bem gelado. E brindamos então à vida, à indiada do pedal e a nossa recém iniciada amizade, rindo e falando bobagem na quente noite portoalegrense!  

terça-feira, 4 de março de 2014

Entre repolhos e antúrios, samba no pedal

Na segunda-feira, o dia amanhece tão aprazível quanto o anterior. No roteiro, o pedal promete entre 40 a 80 km, caso o retorno de Nueva Helvetia seja de bici. Após 30 minutos, trafegando pela Ruta 1, o busão dobra numa estrada vicinal e estaciona no acostamento. Montamos as bicis e começamos a pedalar, inicialmente, em estrada de asfalto rumo à Villa de La Paz. O lugarejo que, conta com pouco mais de 600 habitantes, exibe nas paredes de certas casas murais coloridos. Como o da carniceria, localizada em frente à praça, cuja pintura retrata a cena de dois gaúchos assando carne em fogo de chão. Ao sair da vila, uma larga e antiga ponte (piso de madeira e arcadas de ferro) sobre o rio Rosario nos obriga a descer das bicis porque a ausência de dormentes, aqui e ali, revela largos espaços vazios debruçados sobre as águas marrons do rio. Este foi o trecho onde pedalamos brevemente na única estrada de chão batido do dia. Em Rosario, o grande atrativo é curtir, durante o pedal ao longo das calles, o primeiro museu uruguaio de arte mural ao ar livre. Nos muros e paredes de residências foram pintadas imagens que reproduzem cenas populares e históricas da cidade. Seguimos por outra estrada asfaltada tão tranquila quanto as anteriores. Também uma maravilha a boa educação dos uruguaios do interior: guardam, aleluia, a distância regulamentar que se exige em relação às bicis. Nosso destino de almoço é Nueva Helvetia. Nos pórticos das residências abastadas, não há como não notar desenhos de escudos representando cantões suíços de onde vieram os primeiros colonizadores. A gastronomia da pequena cidade é famosa pela fabricação de queijos, fiambres e doces introduzidos pela colonada. Bueno, a ideia inicial era voltar pedalando até Colonia e curtir um pôr do sol em uma das praias que se encontram ao longo da ruta 1. Meus planos de fazer uma boa quilometragem vão por água abaixo quando entro no restaurante e me deparo com uma garrafa de tannat descansando numa prateleira. A danada faz olhinhos convidativos pra esta senhorinha. Ah, não dá outra: mando as favas minhas intenções esportivas. Afinal, o dever de casa está feito, meu relógio marca 32 km (http://connect.garmin.com/activity/456001035). Basta de engrossar as pernocas. Tratemos de encher a pancinha! Apenas os disciplinados Gabi e Marga cumprem a risca o programa original e chegam, suados e felizes, de bici em Colonia. No hotel, reunimo-nos, desfrutando da piscina térmica, eu, Fátima, Jucilene, Denise, Greice e Marcio. Seja por afinidade sentimental, espiritual, astral ou sexual, uma panelinha está se formando. Denise e eu, com os braços apoiados na borda da piscina, nos divertimos recordando os apelidos que déramos às nossas ardidas periquitas no dia anterior. Explico: calhou de nós as duas pedalar, lado a lado, na reta final. Num dado momento do conversê, deixei escapar uma queixa: “puta merda, minha periquita tá assando.” Fazendo coro, a curitibana, também, lamenta o estado da sua, comparando-a um repolho! Sem deixar a bola picar, respondi que, na minha, germinava um antúrio. Imersas na relaxante tepidez das águas da piscina, gargalhamos de alegria ao perceber que somos, de certa forma, pequenas latifundiárias: ela duma horta, eu, dum jardim.....localizados nas terras baixas, hahahaha. Meu deus, quanta bobagem, mas que desopila, ah, desopila!!



Saímos de Colonia, na terça-feira, bem cedinho. Durante a viagem, começa a chover. Segundo informes meteorológicos, a previsão é bastante desanimadora (mais tarde soube que as fortes chuvas se concentraram praticamente no litoral), motivo por que Ed propõe postergar um pouco nossa chegada em Lavalleja, departamento onde iremos pedalar e pernoitar, de modo a dar um taime pra chuva se acalmar, gastando a manhã em Montevideo. Fazer o quê, né? O busão estaciona numa das arborizadas ruas do bairro Malvín, perpendicular àquela onde há uma loja especializada em roupas de aventura e equipamentos para bicis. O povo que gosta de comprar se derrete e sai de lá carregado de sacolas.  Limito-me a comprar apenas um lenço buff pra cabeça. E vinho num Disco em frente pois minha adega ambulante nunca se encontra vazia onde quer que eu vá!! Fazemos um lanche rápido com guloseimas compradas no supermercado e seguimos viagem. Nem presto atenção à paisagem porque durmo durante quase todo o trajeto, acordando somente quando o busão pára. Também pudera....acordada estou desde as 4 e 30! Observo que o terreno está seco, sinal evidentíssimo de que por aqui nenhum pingo de chuva caiu. Putz, e a gente perdendo tempo fazendo compras em Montevideo...tsk tsk! Transversal à rodovia principal, tem início uma boa estrada de chão batido cuja placa indica 7 km de distância até Salto del Penitente. Começamos os procedimentos de montar os pneus dianteiros nas bicis, atividade que nos consome uns bons 50 minutos. Acho chatésimo, até porque já é a 6ª vez desde sábado! Eu sei mal e porcamente tirar e pôr pneus de bikes, porque, além de meio desajeitada, sou, confesso, um tantinho preguiçosa nessas tarefas. Ainda bem que os queridos rapazes, sempre cheios de boa vontade - nesse tipo de coisa, bem entendido - ajudam a gente com prazer. Prontas as bicis, partimos felizes pra mais um dia de pedal. A paisagem, formada por serranias e formações graníticas esbranquiçadas por líquenes, torna-se mais austera à medida que nuvens blindam o céu e uma leve neblina paira sobre a Sierra de Carapé. Situada a 300 m acima do nível do mar, tal relevo é bem distinto da planura familiar a que meus olhos estavam até então habituados a conhecer deste país. Meu relógio marca exatos 13 km quando alcançamos a queda d’água. A tal placa dos 7 km é um engodo, hahaha. Como já vi quedas d’água bem mais atraentes, a demora é justo o tempo de filmar os arredores, após o que monto na bici e reinicio a pedalar. Segundo Ed, até a pousada dá em torno de 12 km. A paisagem começa a mudar, dando espaço a bosques de eucaliptos e pinus, plantados em ambos os lados da estrada. Embora de chão batido, são super conservadas as estradas uruguaias, bem diferentes das brasileiras, tão mal tratadas no geral. Um pouco antes de chegarmos à Villa Serrana, onde iremos dormir, cai um chuvaral típico de verão. Nem bem guardo a máquina na mochila, o aguaceiro já era. E o sol, coisa boa, dá pinta pela primeira vez no dia, revelando um céu azuladaço! Verão, verão....tão bom estar com você!! Decido acompanhar Denise que, devido ao joelho, pedala bem devagar. Não me importo de ficar pra trás. Tão boa a tarde, tão gostosa a temperatura, tão prazerosa a companhia, que vontade alguma dá de chegar ao nosso destino. Bom demais prolongar o prazer do passeio pedalando lentamente! Chego à Villa Serrana - vilarejo projetado na década de 1940 para ser um local recreativo ao estilo europeu - ao entardecer dum esplêndido e róseo final de dia. Mal dá para acreditar que passamos a maior parte do dia sob mau tempo. Hospedada uma parte do grupo na pousada Ventorrillo de La Buena Vista, declarada monumento histórico nacional, a rústica construção de madeira, pedra e vidro, situada na encosta do cerro Guazubirá, proporciona uma bela vista do verdejante vale que se estende abaixo. Confiro meu relógio: marca 34 km (http://connect.garmin.com/activity/456001023). Mais uma vez, Ed enganou-se quando disse que seriam 19 km. O querido guia já se tornou piada entre os clientes e amigos por sua capacidade ora de se perder ora de calcular com “precisão britânica” a distância dos percursos, hahahaha. Fatima, embora numa fase adicta, insiste em pedir cerveja sem álcool nos restaurantes. Raro consegui-la, hahaha!! Na janta, seu voto de abstinência é, definitivamente, testado. Vendo nós naquele tragoléu sem culpas, cacarejando com vigor, e entornando taça após taça, ela, meio sem graça, pede "só um pouquinho". Negamos com prazer maldoso. Ela insiste e seu olhar pidão é comovente. A Monster arregou, hahahaha!! Após a janta, nosso grupinho, agora definitivamente um clube de luluzinhas, permitindo graciosamente a entrada de certos bolinhas, arma um luau improvisado. Pra tanto, levamos mantas e almofadas que estendemos na grama. Conversamos e bebemos outros bons vinhos.........ah, e ainda vemos estrelas.

domingo, 2 de março de 2014

Carnavalizando Montevideo

Aproveito a festa pagã mais badalada pelos brasileiros pra fazer uma aventurazinha: pedal no Uruguay organizado pela Rota Sul Adventure (http://www.rotasuladventure.com.br). Fatima, que chegara de Curitiba na quinta à noite, recusa, pra meu espanto, o vinho que sirvo durante a janta. Recente seguidora duma doutrina, a tal de Dianética (que mais tarde venho a descobrir ser nada mais nada menos do que a Cientologia), explica que deverá guardar abstinência durante o tempo do tratamento que durará sei lá quantas semanas. E ela começou - dá pra acreditar? - antes da viagem!! Deus que me livre, mas por que essa maluca não deixou pra começar o tratamento após o pedal, santo cristo!! Cá, com meus botões, duvideó que ela vá resistir até o final de nossas pequenas férias. Já no espírito do feriadão, resolvo, na sexta, promover um esquenta esportivo, introduzindo Fatima nos embalos de minha mais nova curtição: o stand up paddle. Pegamos as bicis e nos tocamos até a SAVA, clube náutico situado às margens do Guaibão. Remamos uma hora e quando estamos terminando a atividade aquática, entra, de redomão um vento sudoeste marolando as até então tranquilas águas do rio. Por pouco não levamos um calço da ventania. Na madrugada de sábado, após Edgardo pegar um pessoal no aeroporto, emendamos BR 116 com BR 471,  rumo ao Chuy. Após os trâmites na fronteira, seguimos pela Ruta 9 até Montevideo onde arribamos por volta de 11 horas. No grupo de 35 pessoas, predomina a gauchada. No mais, curitibanos, paulistas e um deslocado magrão chinês. O busão estaciona em frente ao mercado do porto, onde iremos almoçar. O movimento é intenso: centenas de turistas desembarcam dos transatlânticos em rápidos city tours pela cidade. O prato escolhido pela maioria, por supuesto, é a indefectível parrilla. Peço, porque sem chance de roubada em termos de maciez, entrecot e papas fritas. Regado com um encorpado tannat, vinho tinto muito bem pisado pelos uruguaios! Ed oferece duas versões de pedal. Uma pedal tour pra quem quer fazer compras e rodar sem pressa, outra mais forte pros fominhas. Onde ainda me incluo, aleluia!! Nosso objetivo é o Cerro, uma colina de 132 m acima do nível do mar, situada no outro lado da baía de Montevideo. Ali, no início do século XIX, foi construído El Fuerte, com o propósito de defender a cidade dos invasores. Bueno, seguimos, inicialmente, em direção ao Prado, bairro cujo apogeu ocorreu no século retrasado quando a aristocracia uruguaia escolheu as imediações do arroio Miguelete para construir casas de veraneio. Fazemos uma parada no Jardim Botânico e passeamos por entre suas alamedas arborizadas, usufruindo da abundante sombra de seus corredores. Uma pausa bem vinda já que o calor não se mostra nada tímido. O tipo de pedal? Urbano, por supuesto, cabrón! Afinal, estamos no centro da capital uruguaia, trafegando ao longo de calles, avenidas e boulevards. Ainda que sábado, véspera de feriado de carnaval, o movimento de carros não é desprezível. Contudo, o bom de pedalar em Montevideo, em qualquer circunstância, é a educação dos motoras. Não ultrapassam, via de regra, a distância de 1,5 m que deve ser mantida em relação às bicis. Quando entramos nas vias rápidas, me torno uma Armstrong de saia. Motivo? O medo, hahahaha. Me cago toda com o fuzuê de carros zunindo a 100 km/h mesmo que seja a 2 metros de distância dessa senhorinha que vos escreve. Em chegando ao Cerro, não deixo de notar que muitas ruas ostentam placas homenageando países como Rússia, Etiópia, Bélgica, Suécia, China e outros mais que há neste planeta. A vista é panorâmica do alto da colina. Vislumbra-se em 360º a baía de Montevideo, distinguindo-se perfeitamente o enorme prédio da Aduana e sua azulada cúpula em formato de ogiva. Um transatlântico zarpa do porto em direção ao “Rio de La Plata de color marrom”, tomando de empréstimo esse excerto de Ya No Duele, belíssima canção interpretada por Bajofondo. Retornamos ao ponto de partida, o mercado. Meu relógio Garmin marca 37 km dum pedal sem grandes esforços já que a elevação máxima foi 123 m (http://connect.garmin.com/activity/456001067). Após o desmonte das rodas dianteiras das bicis, deixamos Montevideo rumo a Colonia Del Sacramento onde pernoitaremos 3 dias. Nem me dou conta de que é Carnaval.


Acordo domingo em Colonia e vislumbro da janela do quarto do hotel um céu azulão. Esbranquiçado aqui e ali por nuvens esfiapadas. Na medida certa pra se obter boas fotos. Além de fotogênico, o dia promete ser quente. Coisa boa...adoro! Retornar a essa adorável cidade, onde estivera há 2 anos atrás pedalando com uma amiga, é bom demais. O programa, pela manhã, é ameno. Pedal de 4 km até o centro histórico onde, graças a deus, ainda abundam charmosas construções, remanescentes dos tempos coloniais em que espanhóis e portugueses fincaram os dentes em contínuo revezamento até 1828, data da independência do Uruguay. Não acompanho o grupo no breve tour pelas vielas da ciudad vieja. Já as conheço. Prefiro fazer companhia à Dieini, intitulada, carinhosamente por mim, primeira-dama da Rota Sul Adventure. Não só por ser mulher de Edgardo, proprietário da agência, como pela sua postura elegante. Em frente ao portão de armas que guardava a vila em tempos dantanhos, tagarelamos as duas num conversê descompromissado. Quando o grupo chega da visitação, eu, Fatima, Greice, Denise, Marcio, Elke, Ana, Marcus, Silvia e Ju partimos em busca de algum restaurante onde almoçar. Escolhemos um de esquina. Sentamos ao ar livre, é claro! O dia está esplêndido. À nossa frente, a igreja do Santíssimo Sacramento, caiada de branco, confere um ar vetusto às nossas libações alcoólicas. No ar, a vibrante execução musical duma dupla de violonistas. Em uníssono, escolhemos a tradicional mistura montevideana de espumante com vinho branco, conhecida como medio-medio. A vida continua bela embora minha bicicleta nem mais seja amarela. Pena que quando voltamos ao hotel, não dá tempo pra curtir a piscina externa de onde se descortina a rambla e o rio de La Plata, porque o pedal até a Villa Celina inicia daqui a 30 minutos. Ed divide o grupo em 2, como sempre. Aqueles que não querem se puxar e os que amam suar e inchar as coxas. Como ainda tenho força, apesar de já ser uma senhorinha de ½ idade, acompanho os do pedal forte. Na saída de Colonia, contornamos as muralhas da Plaza de Toros, construção inacabada já que matar touros, nos dias que correm, é considerado politicamente incorreto. Bueno, pouca demora, ingressamos numa estrada de chão batido. Vamos quase até às margens do rio San Juan onde os endinheirados uruguaios possuem casas de veraneio, inclusa aí uma das residências presidenciais. No final da tarde, um vento forte torna o pedal mais exigente. Toco uma marcha mais leve na bici embora o terreno seja plano. Bota melhora na performance. O jantar na tal estância demora pra caramba a ser servido. E como prato principal, costela. Não consigo entender o porquê de os gaúchos tecerem tantas loas a esse osso com tão minguada e dura carne. O que salva do fiasco – no meu entender - a tal janta é o vinho. Tannat, por supuesto! Voltamos a Colonia de busão porque o povo depois da comilança arriou apesar de o script original prever retorno de bici. Contudo, não há do que se queixar: meu relógio marca 48 km (http://connect.garmin.com/activity/456001046). Quando chegamos ao hotel, eu, Fatima e Ju nem pensamos em dar um bordejo até o centro da cidade na intenção de conhecer “la movida colonense”. Estamos cansadíssimas. Assim, Ju e eu, ocupando a sala, cada uma deitada em sua cama (à Fatima coube o único quarto) exercitamos nossas línguas com vigor e alegria até 2 da madruga. O assunto? Homens, por supuesto! E um tiquinho, só um tiquinho, de maledicência sobre a vida alheia.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Campo dos Padres

Saio de Portinho na quarta-feira, já noite, e perco quase 2 horas na free way pra andar 15 km. Tudo por conta dum engarrafamento provocado pela manifestação de desabrigados em repúdio à negligência do poder municipal. Quase choro de raiva. Sou consciente de meu egoísmo. Entretanto, a pressa em chegar a Praia Grande é muita. Quero desfrutar daquele conversê miudinho com Mariolinda enquanto sorvemos algumas taças de vinho na cozinha da pousada. Na quinta, já respirando o ar fresco de Praia Grande, trato de descer a serra do Faxinal correndo até o centro da cidade. Paulo, marido de Mariolinda, me resgata em frente ao supermercado Assis. Retorno, assim, na garupa da moto de 400 cc, bem faceira, à pousada. Uma bela salada de maionese, feita pelas mãos caprichosas de Mariolinda, mais uma suculenta e macia carne de panela são o cardápio do almoço. Em homenagem aos meus 61 aninhos. Meu niver, graças a deus, antecede ao feriado da Proclamação da República. Daí, né, aproveito e me dou de presente um trek na região de Urubici. Com direito a este pit stop em Praia Grande. De pancinha cheia, trato de descansar um pouco após a refeição, escarrapachada no sofá do refeitório, curtindo uma tevê. Às 15 horas, sacudo a preguiça e trato de continuar a viagem. Subo a serra do Rio do Rastro, e na altura de Bom Jardim da Serra, paro numa casa de chá, a beira da SC 438. Lá pelas 20 horas chego a Urubici, me hospedando numa pousada bem maneira. Termino o dia jantando uma truta de-li-cio-sa no Parador Santo Antonio. Dia seguinte, bem cedo, sigo até o Albergue do Refúgio de Montanha do Rio Canoas onde vou encontrar Juan que será o guia nesta pernada de 3 dias nos campos de cima da serra catarinense. Em lá chegando, conheço Oscar e Federico. Ambos também participam da caminhada. Às 09:30, botamos o pé na estrada. Aleluia que os sinais de bom tempo, à noite passada – lua quase cheia se exibindo toda pimpona num céu despejado de nuvens – tenham se concretizado nesta bela manhã, embora vente bastante. Oxalá não se cumpra a previsão da meteorologia que vê com pessimismo pro dia de amanhã a boa disposição de São Pedro. Rezemos pra que tudo não passe dum mal entendido! O trajeto inicial não oferece dificuldade alguma. É uma estrada paralela ao leito do Canoas, cujo nascedouro jaz quase na borda do planalto conhecido como Aparados da Serra. É pra lá que vamos. Conhecer o Campo dos Padres, lugar há um par de anos na minha mira. Após a moleza da plana estradinha, segue-se uma subida, relativamente íngreme. O que torna o ascenso um pouco dificultoso não é a aclividade e, sim, o tanto de pedra solta que estorva a pisada. Como estou à frente de meus companheiros, resolvo esperá-los. Escarrapacho-me num relvado cercado por arbustos de floração amarela e araucárias, vegetações comuníssimas e abundantes na região. Enquanto aguardo a chegada dos 3 muchachos, admiro o relevo catarinense e me ponho a refletir como diferem dos campos de cima da serra do meu Rio Grande. Aqui, há montanhas e vales profundos e a altitude é bem mais significativa: varia de 1.000 a 1.827 m. A paisagem forma um mosaico intercalado por capões de mata atlântica, bosques com araucárias e os movediços solos turfosos, permanentemente úmidos o ano inteiro. Atravessamos uns 3 ou 4 riachos de águas rasíssimas. Basta pular algumas pedras e eis nossas patinhas saltitantes, já na margem oposta, sem vestígio algum de umidade. Chegamos ao Campo dos Padres, às 17 horas. Juan escolhe como lugar do acampamento o quintal da casa de seu Arno.  A tosca casa de 2 pisos, construída com toras de madeira e pedra, está no momento sendo ocupada por um casal de Anitapólis, Andreia e Marcio. Arrendatários de terras lindeiras às de seu Arno, criam algumas centenas de cabeças de gado. Assim a cada 15 dias vêm a estas paragens cuidarem do que é seu. No final da tarde, o céu se nubla e o vento que soprou ao longo do dia, arrefece. “Não me diga, Juan, que esse nome, Campos dos Padres, se deve aos jesuítas, hein? Até nessas bandas deram eles o ar de sua graça?” Confirmada minha suspeita, Juan esclarece que os indefectíveis padres teriam dado com os costados nestes ermos com o objetivo de esconder lingotes de ouro. Quer saber duma coisa? Considero esse tipo de fantasia, atualmente, bem babaca. Só quando criança, curti tal tipo de estorinha. Afinal, criança tem todo direito de ser tolinha. Bueno, sou a única mulher do grupo e a única brasileira já que os três homens são uruguaios. Oscar e Juan, gêmeos, são 5 anos mais moços que eu, portanto também compartilham comigo “a tal de sabedoria adquirida com a ½ idade” (só pode ser piada tal expressão, ala putcha!). O terceiro macho é o “jovem do grupo”, com seus 47 aninhos. Ao contrário dos irmãos, radicados hace mucho tiempo acá neste país tropical, Fred vive no Uruguay. Quando o vinho é aberto, o papo torna-se, quem diria né, mais animado. Ah, o álcool! O pó de pirlimpimpim dos adultos. Faz a gente voar alto, hehe. Abro uma lata de sardinha ao molho de tomate e jogo por cima do miojo previamente cozido. Como com sofreguidão. Estou esfomeada. Apesar da modéstia do ranguinho, uma sobremesa eu trouxe: tijolinhos de goiabada! Na madruga de sábado, acordo com o tão temível tamborilar dos pingos d’água no teto da barraca. Volto a dormir...fazer o quê, né? Só resta rezar pra que a chuva, se não cessar de todo, ao menos se aquiete de modo a permitir que façamos os passeios planejados. Quando acordo de manhã, nem sinal de chuva embora um céu cor de chumbo paire baixo sobre os campos. Menos mal! Desjejum feito (o meu incluiu café preto acompanhado dum pão com queijo polenguinho), partimos os quatro em direção ao canyon do rio Canoas, situado a 3 km do lugar onde estamos aquerenciados. Atravessamos uma campina, rodeada por um semicírculo de colinas, cuja aparência lembra um monumental anfiteatro. No espaço entre duas das elevações, descortinam-se algumas das dobras do rio Canoas. Da primeira cachu do canyon, tem-se uma visão frontal e sua queda d’água não ultrapassa modestos 10 metros, já da segunda, só se avista a traseira. Os altos paredões por onde as águas do rio escorrem assemelham-se a um gigantesco portal escancarando-se, aí sim, sobre um precipício de 70 m. O colorido das flores em meio ao verde da campina é um colírio pros olhos. Macegas de margaridas brancas e amarelas, bromélias em plena floração e outras tantas flores anônimas mas igualmente belas enfeitam os campos de cima da serra em mais uma primavera na minha vida. A garoa aperta e visto meu poncho emborrachado. O tempo melhora quando já estamos retornando ao acampamento, tanto que às 13 e 15 o sol vem com tudo tornando mais alegre meu frugal almoço. Que não passa duma sopinha de pacote e um naco de pão com polenguinho. Deliciosa refeição! Melhor tempero que a fome não há. Fred desarrolha um tinto argentino da vinícola Miguel Escorihuela Gascon que compensa o fracasso do Bardolino, aberto na noite anterior, visivelmente avinagrado. De penitência, a maledeta garrafa foi colocada ao sol pra azedar de vez! Os gêmeos são univitelinos, portanto, fáceis de confundir olhos desavisados. No final do primeiro dia, me dei conta dum pequeno detalhe que permitiu que eu distinguisse um do outro: Oscar deixou crescer um tufinho de pelos sob o lábio inferior. À medida que convivo com eles, percebo semelhanças e diferenças nos temperamentos. É fácil fazer Juan rir, já Oscar não se deixa levar pela piada fácil. Mais corteses que afáveis, os dois exibem modesto senso de humor. Já Federico, do alto de seus 1,83 m. conquista ao primeiro vistaço. Além de guapíssimo (aaah....se eu tivesse 20 anos menos!), sabe contar com malícia e vivacidade causos de personagens de sua terra. Terminado o almoço, nos entocamos nas barracas. Que seja pra sestear, pra ler ou pra devanear. É boa demais essa vida. Leio e cochilo até as 16 e 30, quando então chamo os homens. “E daí, guris, vamos até a borda dos Aparados?” Decorrida uma hora de caminhada, a cerração torna-se mais e mais espessa, impedindo que continuemos o passeio. Pesarosos, retornamos ao acampamento. No final da tarde, a garoa mantém-se firme e forte. Encasulados no interior duma gigantesca e úmida nuvem que paira sobre os campos, nosso ânimo, entretanto, é dos mais animados. Juan prepara um chima e rodamos a cuia de mão em mão jogando conversa fora. Quando a noite baixa, iniciamos os preparativos da janta. A única alteração em meu menu é a substituição da sardinha pelo atum. Morta de fome, lambo o prato bem feliz! E dale mariola de sobremesa. Claro está que não falta o bom vinho tinto. Somos um quarteto pra lá de pinguço, hehe. Andreia nos convida pra provar canjica cozida no fogão a lenha. Feita com leite tirado há pouco duma de suas vacas, está uma delícia o doce. Não há como não dormir bem depois dum prosa agradável regada com boa comida e excelente bebida....oigatê!! Em vez de galos fazendo cocoricó, desperto com mugidos de vaca. Adoro tudo isso! Quando saio da barraca, dou de cara com o céu deliciosamente azulado. Encortinado, ontem, pela cerração, o ponto mais elevado de Santa Catarina, morro da Boa Vista, exibe, nesta manhã de domingo, os seus arredondados 1.827 m de altitude. Embora não estejamos nos Andes, Juan contratou cavalos pra carregar nossa bagagem, tanto na ida quanto na volta. Levando nos costados mochilas leves, retornamos pela mesma rota percorrida na vinda. Despeço-me dos três companheiros quando alcançamos a estrada. Estou com pressa pois tenho ainda que pegar a estrada. Eles permanecerão em Urubici, só retornando amanhã pra suas casas. Quando estou a uns 2 km do refúgio, onde deixei meu carro, vejo o sol iluminando as três magníficas pedras que formam um cordão rochoso paralelo ao rio Canoas. Mesmo a minha máquina, uma saboneteira vagabunda, consegue alguns cliques bem maneiros delas. Desço a Corvo Branco a 5 km/h admirando a beleza desta monumental serra. E depois, dale pé no acelerador porque tem vinhote me esperando em Praia Grande, hehe! Beleza de feriadão esse! E que vengan otros!

domingo, 29 de setembro de 2013

Gotas de Chuva: eis a Mantiqueira!

Acordo a uma da madruga com o maior chuvaral. Inacreditável! Dois lindos dias com céu azul de brigadeiro, ouro sobre prata, e agora esse fiasco climático! Francamente, hein, São Pedro, podia ter deixado o mau humor pra amanhã, segunda-feira, né?! Pra variar, tô com a maior vontade de fazer xixi. Dou um tempo, me apertando toda dentro do saco de dormir, na esperança de que a chuva dê uma estiada. Quando percebo que o tamborilar dos pingos não soa mais que nem surdo na lona da barraca, saio e deixo a urina, até então cruelmente represada dentro de minha bexiga, jorrar, enquanto solto ahs de prazeroso alívio. Sensação comparável a de um bom orgasmo. Quando volto a acordar, de manhãzinha, dou de cara com o céu enfarruscado, sem sinal porém de chuva. O tom melancólico do dia é fortalecido pela ciência de que hoje é a finalera da pernada....sniiiiffff. Encontro os guris preparando o café, servindo a seguir um chima (aqui em Minas, é o contrário, hehe) para dar aquela energia à caminhada. Quando ontem, Rodolfo surgiu com o chimarrão no café da manhã, intrigada, indaguei donde ele adquirira tal hábito. Ele explicou que tem um pé no Rio Grande do Sul pois a mãe é de Sta Maria. Mundão pequeno sem fronteiras esse, oigatê! Passamos a cuia de mão em mão, esticando a conversa, de modo a fazê-la render até o início da pernada, hoje curtésima, não mais que 2 horas. Merda de tempo fodido, estragou nosso plano: tomaríamos aquele banhão no rio e depois retomaríamos a andança, devidamente, refrescados. Outro aguaceiro nos afugenta pra dentro das barracas. Aproveito e continuo a leitura do surpreendente Headhunters, policial magistralmente escrito pelo norueguês Jo Nesbo. Às 11 e 30, com o aguaceiro reduzido a uma poeira aquosa, Rodolfo dá o toque de levantar acampamento. Thomas irá nos resgatar às 14 horas num ponto do município de Alagoa. Urge que partamos, sem tardança. Ai que saco, que perda de tempo a ampla capa de borracha, tipo às que são usadas por pescadores, que visto quando partimos. A tal garoa não dura nem 20 minutos. Ao passar pela sede administrativa do Parque Estadual Serra do Papagaio, paramos prum dedo de prosa com um dos guarda-parques que lá se encontra. Senhorzinho entrado nos anos, ele concorda conosco quando chamamos a atenção pra grande ajuda prestada pelos guias na conservação e preservação da natureza. No horário aprazado, o falante Thomas está a postos nos esperando no local combinado. Sobressai, na paisagem, a pequena serra de Santo Agostinho e seu pico do Garrafão. Pelos meus cálculos, a distância percorrida - mais ou menos, é claro, - nos 3 dias de pernada foi em torno de 35 km. Voltamos a Passa4 onde chegamos no meio do domingão. Fico de bobeira, no casarão, arrumando minhas coisas. Amanhã, tenho de reiniciar meu movimento de retorno ao Sul. Meus planos iniciais previam, além do trek na trilha do Segredo, a ascensão ao Itaguaré que eu não conseguira culminar quando estivera, aqui na Páscoa, socando a bota na desafiante travessia Marins-Itaguaré. Com tempo chuvoso, mas chuvoso mesmo, castigando a pernada durante os 2 últimos dias de trek, Willian nosso guia, resolveu, a bem da segurança, abortar a subida ao cume faltando apenasmente uns 200 m pra atingi-lo. Fiquei com a tal síndrome da frustração, daí por que fiz questão de incluí-lo mais uma vez neste rolê na Mantiqueira. Infelizmente, em razão de dores no ciático, sou obrigada a desistir de subi-lo (te pego, ai se te pego, Itaguaré, hehe). Olha, tenho abusão ao tal bordão “a montanha tá ali, não vai fugir”. Esse tipo de consolo não cola muito comigo. Mas tenho de reconhecer que, de fato, essas pedrocas não se movem tão facilmente, não, hehehe!! À noite, diante da deserção de nossos guias -  Willian se mandando com sua Josi pro chatô deles (por que será que recém-casado só quer ficar em casa hein?), e Rodolfo só querendo saber de curtir filme com Tao, seu pimpolho - eu e Zé Natureza decidimos jantar no restaurante Seis e Meia, especializado em truta. Uma delícia os pratos por nós escolhidos. De pancinha saciada, quando volto pra pousada, não demoro nadica a pegar no sono de tão empaturrada. Dia seguinte, segundona, começa minha volta, despacito no más, em direção ao Sul. Mais uma vez, faço um pit stop de 2 dias em Campinas. Tão boa voltar a curtir a vibe gostosa da casa de Patricia. Se tivesse que escolher outra casa pra morar, com certeza, seria a dessa minha queridésima prima-irmã. Na quarta-feira, outra parada em Curitiba, alugando novamente o sofá na casa de Fatima. E pra variar, dessa feita, derrubamos só 3 garrafas de vinho (não pretendo tão cedo retornar a casa de minha amiga, o que se bebe lá é pra gente grande, hehe). Na quinta-feira, quase na fronteira do Rio Grande, resolvo, dar uma esticada em Praia Grande. Faz horas que não vejo minha querida Mariolinda. E Mariana, aquela Selau mimadésima, tá grávida! Tenho de vê-la barriguda de sua Isabela. Na sexta-feira, dia 4, chego triufante, gargalhando feliz da vida, em Portinho depois de ter percorrido em segurança 3.000 km!! Uhuuuuuu

sábado, 28 de setembro de 2013

Acupunturando a Mantiqueira

Acordo na madruga e o que vejo? A lua minguante rodeada de zilhões de estrelas. Ver essa cena compensa a saída do quentinho do saco de dormir pra enfrentar o ar geladinho da noite na obriga de fazer xixi. Nem é tanto frio, assim! Aqui no sudeste não faz frio igual ao do sul. Quando acordo às 5 e 30, escuto os guris conversando e preparando o café. O dia amanhece lindo. No vale, em frente à serra do Chapadão, o nevoeiro paira baixinho. Durante o café Rodolfo conta uma estorinha acontecida há um par de anos atrás envolvendo 2 jovens daimistas. Estava ele com um grupo acampado aqui, neste mesmo local, quando foram surpreendidos pela chegada do casal. “Bom dia pessoas, sou Sideral”, apresenta-se ele. “E eu Celeste”, completa a moça em tom suave. “Vocês poderiam, por favor, não acender fogueiras? O risco de incêndio é bem maior”, frisa o rapaz em tom firme mas gentil. E Rodolfo, entusiasmado, continua a discorrer sobre o Daimismo. Seu conhecimento advém dos anos em que sua mãe seguiu essa doutrina. Fico então inteirada que na região há 3 comunidades: a de Pedra Negra, situada atrás da Serra do Chapadão, e as de Matutu e do Gamarra, sitiadas naqueles vales. Os daimistas, prossegue Rodolfo, são mal interpretados. As pessoas por desconhecimento de seus princípios doutrinários, cuja origem, a bem da verdade, é cristã, só se fixam no lance do chá e suas discutíveis propriedades alucinógenas. E, mais, enfatiza ele: os daimistas são autossustentáveis já que vivem do que plantam e fabricam, organizando-se em cooperativas. Zelosos em relação à natureza, reivindicam o direito de, em sendo filhos de proprietários de pequenos latifúndios, exercerem o ofício de guarda-parques das unidades de conservação existentes na Mantiqueira. Embora de fala-mansa, exigem observância das boas regras de preservação da natureza. Todo esse conversê é pra explicar o porquê de a trilha ser chamada do Segredo. A um, pelo mistério que cerca os daimistas, fruto da ignorância sobre os preceitos do amor e da fraternidade pregados pelo negro maranhense, Mestre Irineu, idealizador da doutrina. A dois, pela escassa frequência nos senderos que unem a serra do Papagaio a do Charco. Vem daí que os guias Rodolfo, Zangão Dourado da Mantiqueira, e Sir Willian, Príncipe das Terras Altas da Mantiqueira, seguindo a cartilha do arcadismo (tão em voga entre os poetas inconfidentes do século XVIII), tascaram o instigante apelido de trilha Do Segredo em mais um dentre os infindáveis caminhos que a Mantiqueira nos reserva. Mas bah tche, fico viajando na do Sto Daime e perco o fio da estória.... onde eu tava mesmo? Ah, lembrei! Saindo do Cerro Frio, entramos numa mata atlântica e 20 minutos depois desembocamos num descampado, conhecido como Campo das Macieiras. Rodolfo, visivelmente emocionado, pára e aponta uma agulha de granito fincada no extremo norte da clareira. “Este lugar foi onde o Professor Hemoto escolheu pra fazer a acupuntura na terra. Pra purificar mais ainda as águas que correm embaixo do solo!” Infensa, geralmente, às emoções pueris, não resisto a essa autêntica manifestação telúrica e deixo minha pele se arrepiar. Agradeço, em voz alta, ao maluco beleza do professor Hemoto pela sua genial realização! Depois dessa agulhada espiritual, percorro com mais alegria ainda o longo trecho da estradinha de chão batido que vem a ser a Transdaime. Explico, a Transdaime foi uma tentativa dos daimitas de unir a Serra do Papagaio à do Charco. Ainda bem que o Ibama impediu a continuidade da obra! Nessa aí os daimistas mandaram mal pra caramba! Vestígios da Transdaime evidenciam-se no estreito trilho que sulca o solo arenoso. Ao longe, uma longa subida me deixa meio assim-assim. Zé Natureza, coitado, chega a parar e se apoiar em seu bastão de bambu, reunindo forças pra empreitada. Como a toda subida corresponde uma descida, eis-me agora - coisa boa - caminhando faceira ladeira abaixo. Dura pouco minha alegria porque outra subida já se sucede. Mesmo carregando aquele fardão nos costados, os guias já vão longe. Que força esses guris têm, benza deus!  Zé, o lanterninha, vem na boa, naquele seu ritmo pachorrento de caminhante “devagar se vai ao longe”. Vegetação rasteira na crista da serra do Charco donde se vêem os morros da Campina, Sol, Nogueira, Mitra e Bispo, à esquerda. Já à direita, a face oeste do Pico do Papagaio e o topo plano e espaçoso do Cerro Frio, situado aos pés do Pico do Gamarra. Rodolfo chama minha atenção pra cachoeira do Fundão, encravada nos confins do vale do Matutu. Mais adiante, avisto mais nitidamente a Serra da Careta e seu ponto mais alto, Pico do Chapéu. Ao sair da crista, entramos numa mata atlântica, parando à beira dum ribeirão cujas águas formam uma pequena cascata. Fazemos uma boquinha, bebendo suco de limão e mordiscando amêndoas, castanhas e pistaches. O que tem de macela nessas paragens do Charco, salta à vista. E macela branca além da amarela!! Nem sabia que havia dessa cor! Nova subida pela encosta dum morrão onde as candeias fornecem um pouco de sombra. Após curta caminhada noutra crista, uma descida punk que dá noutro riacho. Mais uma subidinha e na descida já se avista o rio Santo Agostinho e suas cascatas e corredeiras. Cruzamos o rio cujas águas, um tantinho revoltas, inspiram certo cuidado. Percorrendo encostas de morros, ainda é visível o rio Santo Agostinho. Mas bah, tche, por essa eu não esperava, olha só: bosques de araucárias dando pinta na paisagem! Mas vem cá, essa árvore não dá só no sul? Tsk tsk tsk...vou morrer e não vou ver tudo! Basta de divagar, volta a narrar, mulher! Bueno, reza a lenda que os índios, no inverno, vinham até essas paragens atrás de caça e pinhão. Por deus, sinto uma vibe fantasmagórica pairando forte nessas paragens mantiqueirenses: índios, bandeirantes, capitães de mato, negros fujões e jesuítas. E, agora, nós, os loucos por aventura, querendo curtir um barato com a natureza....pois é! Nossos estômagos – afinal já são 14 horas - reclamam de fome. Se faz então uma parada pro almoço. Terminada a refeição (a mesma de ontem), caminha-se por mais encostas de morros. Numa curva da trilha, o rio Santo Agostinho se faz presente novamente exibindo em seu leito uma borbulhante corredeira. Céu azul de brigadeiro. Às margens doutro rio, onde há anos atrás houve uma zona de garimpo, paramos. Encho-me de coragem e encaro suas águas frias. Bem escandalosa, solto gritinhos ao mergulhar. Saio, entretanto, revigorada, pronta pra trilhar mais trocentos kms, hehe. Retomamos a caminhada e decorrida 1 hora, estamos diante doutro rio. Atravessamos até a margem oposta, caminhando por seu leito alajotado onde as águas escorrem calmas e rasas. Este será o lugar onde pernoitaremos. O terreno, plano e úmido, favorece o crescimento de touceiras de estrelas brancas, erva cuja floração ocorre justamente nesta época do ano. Rodolfo prepara um café e depois eu faço caipirinha. Na janta, pizzas!! Salgadas e doces, sendo que estas são Romeu e Julieta e de Nutela. De bebida, vinho tinto. Uma festa esta noite, pirilampos na terra, estrelas no céu e o barulhinho da correnteza do rio vibrando no ar!