quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Pedal do Gritiriu

Pois não é que se apresenta uma nova oportunidade de pedalar no Uruguay? Aparentemente carcando o tênis (recuso-me a usar sapatilha, basta de comprar terrenos!) nos mesmos lugares por onde pedalei no carnaval. Não será isso, contudo, que vai embaçar meu entusiasmo e fazer eu desistir de pôr o pé, ou melhor, a bici na estrada. Muito pelo contrário! Além de adorar o país vizinho (nem tanto tempo assim a primeira visita, apenasmente, 46 aninhos atrás), aprecio o estilo gerencial de Fabiano e Cristiane Pellenz. Proprietários da Ekonova, agência de turismo de aventura, com sede em Nova Petrópolis, o jovem casal sabe administrar com sensibilidade e pulso firme as indiadas pedalísticas. Na sexta, nos tocamos, eu e Denílson, velho conhecido de pedais passados, direto e reto pro aeroporto, ponto de encontro dos portoalegrenses que estão aderindo à caravana ciclística. Pontualmente, o confortável busão sai de POA às 23 horas rumo ao departamento de Treinta y Tres onde, no sábado, rolará o primeiro pedal duma série de 4. Ultrapassada a fronteira após os chatos trâmites burocráticos - putaqueospariu, esses procedimentos já não deveriam ter sido ou abolidos ou então simplificados em prol do tal de Mercosul (e esse organismo ainda existe?) -, chegamos no encruzo da Ruta 8 com a estrada de chão batido que conduz ao nosso destino, a Quebrada de los Cuervos. Encaixadas nas magrelas as rodas dianteiras, iniciamos o pedal lá pelas 10 horas. Acompanha-nos um cão muito do ordinário que, se aproveitando dum descuido da boa Josmara, come o sandu (o descarado ainda teve o cuidado de tirar o papel filme com a pata, pode?) que a única paulista do grupo deixara no chão de bobeira. O interesseiro animal “pedala” junto conosco durante os 25 km do trajeto, sei lá se na esperança de filar outro petisco ou se por genuíno espírito vira-lata. O pedal é tranquilíssimo. Subidas que se sucedem naquela topografia sutil de ser das serranias uruguaias onde nada é muito dolorosamente íngreme. Proibidas bicis no interior do parque, percorremos a pé os 8 km de trilhas que circundam a pequena garganta. Situado na Serra do Yerbal, o minicanyon alcança em alguns pontos mais de 100 m de profundidade, em cujo interior serpenteia o arroio Yerbal Chico, curso d’água com bons poços prum mergulho no verão. Devido ao adiantado da hora, não é possível pedalar de volta até a Ruta 8, já que teremos de viajar mais duas horas até Minas, onde pernoitaremos e pedalaremos amanhã. Situada no departamento de Lavalleja, a pequena e simpática cidade exibe essas árvores tão caras em plagas uruguaias: os plátanos! Infelizmente, ainda, desfolhados. Ao redor da praça, bares, restaurantes e a centenária confeitaria Irisarri, cujos doces e salgados tiram a gente do sério. Impossível comer só um! Quando começo um pedal, trato de não me atucanar caso venha a esquecer um que outro nome. Olha só, neste, os participantes são em número de 14! Daí haja memória pra guardar tantos nomes, assim, de supetão, né? Chamo-os, então, no início, indistintamente, de meu querido, minha querida, até saber na ponta da língua quem é fulana, sicrano ou beltrano. Tampouco fico me refestelando logo de cara, pois, como decana do bando, tenho de manter a pose. À medida que passam os dias, alivio a mão no freio emocional e vou me apaixonando, pedindo amizade no Facebook e tratando os queridinhos como se os houvesse conhecido desde o ventre materno. Alguns relacionamentos perduram. Outros vão se esfumando com o passar do tempo. O que importa se restam boas lembranças, né?! Bueno, o domingão em Minas amanhece sob cerrado nevoeiro. Nem esquento porque nada mais certeiro que o ditado gaudério “cerração baixa, sol que racha”. Dito e feito, 10 da manhã, a névoa se dissipa e revela o belíssimo contorno do cerro Arequita. O sol, emitindo seus trilhões de megawatts, ilumina e aquece o dia. Vai ser um baita pedal, tô sentindo, uhuuu!! Juntam-se a nós 30 animados muchachos e muchachas uruguaios, alguns amigos do casal Pellenz, outros amigos dos amigos. E, alegremente, iniciamos a pedalera rodando ao longo dum curto trecho de asfalto (graças a deus), logo enveredando por estradas de chão batido. Embora tenha sido um humilde giro de 38 km, o pedal não é facinho, não!! Às estradas de chão batido sucedem-se trilhas cobertas de grama, tornando pesado rodar as bicis. E dessa vez não falta uma boa e forte subida. Na finalera do passeio, pegamos um vento contra que bota quase todo mundo de língua de fora, embora já estejamos em terreno plano. Pra repor as calorias consumidas, os hermanos nos oferecem uma farta parrillada regada a uísque (sim!!), cerva e refris. Ao som de cumbias e merengues, tem início o fandango. Somos convocados (não há palavra melhor pra expressar o que se passou, hehe) a bailar, não admitindo, em especial, as hermanas qualquer recusa. No que iniciamos a dançar, os uruguaios riem, deliciados, de nosso jeito de rebolar. Melhor dominguera impossível de inventar. E chega então a sempre mal-vinda segunda-feira, amaldiçoada por 9 entre 10 terráqueos. Pra nós, entretanto, um prazer recebê-la, o que fazemos de braços bem abertos. Afinal, é por uma boa causa: continuamos a pedalar! O próximo passeio partirá de Nueva Helvetia, situada no departamento de Colonia, onde chegamos por volta das 11 horas. Terminada a função da montagem de las ruedas, pedalamos 7 km até as ruínas do Molino Quemado, monumento histórico uruguaio, situado num belíssimo e verdejante parque. Da outrora imponente propriedade, restam apenas as grossas paredes externas. Daqui a Rosario é um tapa onde, na praça em frente à bela igreja Nuestra Señora Del Rosario, paramos pra lanchar. E saímos da cidade pegando novas e agradável estradinhas de chão batido cujas pequenas ondulações ajudam a quebrar a monotonia dos 47 km de superfície plana até a Ruta 1. A partir desta carretera mais 25 km, dessa feita já rodando no asfalto. A movimentada rodovia tem bom  acostamento, exibindo, ao longo de 10 km, a famosa alameda adornada com palmeiras do tipo butiá. Chegamos a Colonia Del Sacramento às 17 horas, felizes que nem pinto no lixo. Afinal, saiu-se da zona de conforto, finalizando em 5 horas um pedal de 72 km. Apesar da quilometragem, à noite, pegamos o busão em frente à avenida beira-rio e vamos jantar num dos aconchegantes restaurantes do centro histórico dessa charmosa cidade, construída na margem esquerda do rio de La Plata. Provo dum Tannat Rosé de sabor inesquecível! A essa altura da cicloviagem, as parcerias estão pra lá de fortalecidas, as afinidades já estão escancaradas e.....tchan tchan tchan.....sempre alguém se destaca pro bem ou pro mal. No nosso grupo, graças a deus, é pro bem, na pessoa do impagável Jair. Alcunhado pela galera do paraglider, esporte que pratica, de prefeito do minimundo, devido a sua pequena estatura (agora se é obrigado a ser politicamente correto, evitando chamar alguém de nanico ou tampinha, porque senão te fodem com um processo), o cara é figuraça demais! Perguntada se o marido se mostra igualmente bem humorado também no recesso do lar, Simone, a cara metade, não só confirma como entrega "é sempre, assim, bobinho". Ahahaha.....nada boba a gringolinda! A velha tática de desqualificar pra defender o que é seu! Tanta a animação, tamanha a felicidade que uns e outros extrapolam nos decibéis permitidos ao bom convívio. O gritero é de estourar os tímpanos! Mas gra-ças a deus, nossa comandante em chefe, Dona Cristiane, com sua pegada de educadora, posto que mãe de adolescente, passa um pito daqueles, chamando a galera a ordem! Não dá outra, os gritões passam então a falar baixo, olhando com o rabo do olho pra Dona Crisálida! Por causa disso, o prefeito Jair, a cada vez que o tom das vozes ultrapassa o limite da decência, alerta, com aquele forte sotaque da gringalhada de Caxias, “olha o gritiriu!”. Porém outro personagem se impõe, além de Jair. É Giumar. Enorme de alto, forte no pedal que nem touro miura, é dono de enormes olhos azuis exoftálmicos, chamado por isso de zoiudo pelos amigos! Faço questão de esclarecer que são seus amigos que o tratam assim. Eu, deus me livre de usar termos politicamente incorretos. Pra mim sempre será exoftálmico seu azulado olhar! Com sotaque de alemão da colônia, mais carregado que o acento italianado de Jair, Giumar come pelas beiradas. Conta seus causos em petit comité, não competindo com o prefeito. Quando dá uma brecha, ele se sai com estórias rocambolescas, proibidas pra menores de 60 anos. No último dia do pedal, terça, a forte chuva e o vento de rajadas torna impraticável qualquer tentativa de pedalar durante a manhã. O pessoal não se acanha na pousada e toca pro centro histórico. Fabiano, em consulta aos búzios meteorológicos, verifica que a chuva terá cessado até o final da manhã. Fica combinado que o pedal acontecerá a partir das 13 e 30...será?! Mulher de pouca fé que sou, pago pelo mau pensamento. A chuva não só pára como abre aquele solzão exibindo um céu azul-anil de dar gosto de olhar pra cima. E o passeio rende deliciosos 45 km ao longo de estradas de chão batido livres de veículos. O único contratempo é o ventão castigando os 15 km finais de pedalera. À noite, pra celebrar os bons momentos e antecipar a despedida, compramos tira-gostos num armazém e pizzas de variados sabores são encomendadas. Tudo devidamente regado com muchas botellas de tannat uruguaio!!! Tintim macacada......ops, galera!!

domingo, 10 de agosto de 2014

Casamento em Tinke

Mais bem disposta fico quando saio da barraca e constato a ausência de qualquer vestígio, sequer um fiapinho que seja de nuvem, embaçando a face norte do Ausante. De cara limpa, está deslumbrante neste domingão ensolarado. Aqui, em Upis, a visibilidade é maior que em Pacchanta já que se vê o maciço quase de cabo a rabo. Apenas duas encostas de montanhas, de baixa estatura, encobrem um tanto de seus flancos oeste e leste. Não consigo despregar os olhos deste colosso de rocha e neve. É hipnotizante. Assim como a vontade de fotografá-lo e filmá-lo torna-se algo próximo à compulsão. A mesa do café, montada ao ar livre, de frente pra montanha, permite que, assim, bem refestelados, a apreciemos enquanto comemos nosso desaiuno. Tsk tsk tsk....chegou a hora do retorno à civilização....merda....o trek tá terminando....que droga! Não há outro jeito senão partir rumo a Tinke, local onde a caminhada iniciou há 6 dias atrás. E a saudade já se faz sentir. Partimos de Upis, dando as costas, infelizmente, ao Ausangate. Assim, cada vez que quero vê-lo, rodo nos calcanhares e lanço-lhe olhares compridos. Pra tentar reter bem na lembrança a imagem desta paisagem que me é tão cara. À medida que avançamos, o Cayangate emerge, igualmente, magnífico em meio ao capim dourado, que reveste a ondulada superfície do pampa andino. E quanto mais nos acercamos de Tinke, melhor se percebe o contorno da cordilheira Vilcanota com seus cumes e encostas nevados. Após 2 horas de caminhada, entramos na estrada de chão batido. Uma pena que os impressionantes Cayangate e Ausangate continuam nos nossos costados. Portando nas cabeças as belas monteras e vestindo trajes típicos, quatro mulheres ultrapassam-nos com passo apurado. Daniel trata de acompanhá-las durante certo tempo enquanto a conversa se desenrola em meio a risadas femininas. Dirigem-se à feira que se realiza todos os domingos nos povoados e cidades peruanas. Na entrada da vila, celebra-se um casamento. A orquestra, que se organiza em frente à mesa onde estão os noivos, indica que vai rolar um baile. Uma pena que não possamos parar - mal tenho tempo pra fazer uns cliques e filmar - porque o veículo que nos levará de volta a Cusco sai às 13 horas e já são 12 e 30. Daniel conta que em seu casamento foram convidadas 800 pessoas!! “Gasté mucha plata”, acrescenta. Convida-nos, eu e Ju, pra conhecer a esposa que cuida da lanhouse, um dos negócios do casal, enquanto ele está viajando a serviço. O cara, bem empreendedor, não se limita apenas à profissão de guia. Atua em várias frentes. E pelo visto tem na mulher uma boa parceira. Conduz eu e Ju até o terraço de sua casa e faz questão de nos fotografar com a saia e a montera pertencentes à sua mulher. Fofo demais esse Dani! Almoçamos no mercado de Tinke onde se vende de tudo: desde roupas que são feitas na hora, a vegetais, frutas, hortaliças, legumes, galinhas, cabritos, agulhas, remédios e mais não cito porque não teria espaço para descrever tanta diversidade de mercadorias expostas à venda. Deixo o pueblito com o coração apertado, emocionada com o carinho e dedicação demonstrados por Daniel. Inesquecível guia! Durante o retorno pra Cusco, passam por nós na direção contrária, carros e caminhões com as carrocerias apinhadas de gente, muitas delas em pé. Os veículos, enfeitados com balões coloridos, dirigem-se a Tinke pro casório. Deve ser uma festa de arromba. Pra me distrair durante as quase 3 horas de viagem ao longo da carretera Transoceânica, resolvo assuntar com Rosembert algo que vem chamando minha atenção desde que aqui cheguei. Os muros e paredes externas das casas exibem recente propaganda política. A minha dúvida é, caso ainda não tenham ocorrido, quando serão as eleições? Serão em outubro - como as nossas – com a finalidade de renovar o quadro de governantes e legisladores dos departamentos e províncias. Em chegando a Cusco, Ju se manda prumas comprinhas de última hora. Já eu vou ao mercado comprar vinho peruano e snacks de choclos, a pedido de meu filho. Dia seguinte, segunda-feira, quase perdemos o voo pra Lima porque o táxi contratado pra nos buscar no hotel simplesmente não apareceu! Embora curta a viagem, tivemos de esperar quase 8 horas na capital peruana, quando então às 23 e 30 embarcamos no avião que nos trouxe de volta a Porto onde chegamos na terça-feira às 6 da manhã! Essas conexões são de fudê!! Mesmo assim é bom demais viajar!

sábado, 9 de agosto de 2014

Experiência infernal

O dia mais frio de todos embora sem queda de neve durante a noite. Ju continua debilitada da infecção intestinal motivo por que deixa o acampamento montada a cavalo. Hoje a pegada é fodástica porque temos 2 passos a enfrentar: Apachata e Arapa. O primeiro situa-se na montanha situada diante do acampamento da laguna Ausangate. Apesar de curto - a distância ultrapassa pouco mais que 1 km -, o ascenso é bem íngreme até os 4.900m de seu topo. E começa a nevar enquanto estamos subindo! De novo, oh, não!! Ultrapassado o passo cujo solo exibe-se bastante nevado, imersos numa nuvem, penetramos no belíssimo Pampachiri, um estreito vale delimitado à direita pelo extenso maciço do Ausangate e à esquerda por cordões rochosos que, em certos trechos, se afunilam formando algo parecido com o que aqui no sul chamamos de brete. Muito a fudê essa parte do vale. Passamos ao largo da laguna Vinococha cujas águas azuladas são bem escuras. Nesta banda, já estamos diante da face oeste do Ausangate onde, não muito distantes de seu cume, penduram-se enormes seracs. Uma pena a maior montanha do departamento de Cusco se encontrar parcialmente encoberta por nuvens. A merda do tempo mais uma vez nos sacaneia! Pois não é que o céu tem se mantido nublado já faz 3 dias? Merrrdaaa!! Passamos por três lagunas, todas chamadas Pucacocha, resultado do degelo dos glaciares que cobrem parcialmente o Ausangate. A escassa vegetação, constituída praticamente por ichus, imprime à paisagem uma paleta de cores que se reduz ao amarelo das gramíneas e ao cinza escuro das rochas. Almoçamos em frente ao Extremo Ausangate, um monolito de coloração preta, também parte integrante do maciço Ausangante. Turistas que pretendem escalá-lo estão acampados aqui. Daniel avisa que, embora “suave”, a subida até o passo Arapa demora um eito em razão de ser super longa sua travessia. A partir daqui, a paisagem vai se tornando cada vez mais árida, aberta, sem montanhas próximas que a confinem. Na verdade, alterna trechos “planos”, com pequenas elevações que lembram um pouco as coxilhas gaúchas. Cansada como estou qualquer lombinha significa um evereste pra mim, motivo por que um pouco antes de alcançar o passo Arapa, chego à conclusão que será tortura insistir em continuar caminhando. Tenho a impressão que se der mais 10 passos, desabo no chão. Ju então cede o cavalo pra mim, a querida. Tamanha a exaustão que mal consigo montar no lombo do manso cavalo onde alcanço “motorizada” os 4.800 metros do passo Arapa. Deste ponto em diante, novamente o Ausangate volta a exibir sua face norte, e nós completamos assim uma volta de 360º ao redor deste formidável nevado A paisagem torna-se totalmente desértica, sem um talo de gramínea que seja. Já recuperada, apeio do cavalo e vou caminhando até o acampamento armado em Upis. Na descida, rebanhos de alpaca pastam numa área onde a vegetação rasteira dá pinta novamente. Chegamos a Upis às 14 e 20 após 6 horas de pernada numa distância total de 15 km. Eu e Juju, felizes da vida com a possibilidade de relaxar nas águas termais, pegamos a trilha que conduz às piscinas. Quando entro, solto um formidável berro que deve ter sido ouvido em Cusco. A água não está quente, está fervendo, está pelando!!  Um horror!! Fico, inclusive, sem ar por alguns segundos, tamanha a violência do choque térmico. Espero seja esta a única experiência infernal sofrida não só em vida como na morte, hehe. A sorte de Juju é que ela não entrou comigo. Passamos as duas então pra outra piscina. No entanto, a temperatura morna da água não convida a que fiquemos nem 10 minutos ali. E foi outro martírio enfrentar o rústico vestiário cujas janelas sem vidro não nos protegeram nada das frias rajadas de vento que fustiga o lugar. Como a face norte do Ausangate ainda está escondida pelas nuvens, sem chances fotografá-la. Oxalá, amanhã o dia esteja melhor! Entro na barraca e ponho pra carregar meu relógio Garmin no recharger Sherpa 50 adquirido recentemente. Uma maravilha essa engenhoca! Nem precisei usar os painéis solares porque o recharger, carregado previamente na eletricidade antes de sair pro trek, só consumiu 20% de sua capacidade de armazenamento. Nunca mais vou ficar na mão sem poder registrar o trajeto de minhas aventuras, coisa que antes não conseguia porque o Garmin só agüenta 7 horas por dia. Posso agora ficar no mato sem cachorro mas never nunquinha mais máquina, ipod, celular e relógio me deixarão na mão, sem funcionamento por falta de carga!! Viva a modernidade uhuuu!! Deito-me e pego o livro de suspense que se desenrola na Lapônia norueguesa “40 dias sem sombra”, cujo nome se deve aos largos períodos quem que ausente a luz solar nesta parte do hemisfério norte. Tá aí um lugar que quero conhecer, não só por isso mas pelo espetacular fenômeno da aurora boreal. 

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Passo Palomani

Muito chata mas muito chata mesmo essa função de guardar roupa nas sacolas, desinflar isolante térmico, enfiar saco de dormir dentro da capa e outras cositas mas. Sem esquecer o reverso quando a gente chega no acampamento e tem de tirar tudo de dentro da sacola, soprar o isolante, tirar o saco de dormir da capa e por aí afora!! Tudo realizado no interior do "big espaço" que são as barracas para uma pessoa. Essa rotina me mata. Adoro rotinas mas essa, por favorrr, ninguém merece!! Meu sonho de consumo é ter dinheiro suficiente pra poder pagar alguém que faça um dia isso por mim. E não estou brincando não, por isso não escrevo os he he he no final da frase, tá ligado? Bueno, sonhos ainda não custam nada, só rendem, às vezes, uma baita duma frustração porque nunca se realizam. O solo ao redor do acampamento está totalmente embranquecido pela queda de neve durante a noite. O nevado 3 Puntas mal dá pra se enxergar devido ao nevoeiro que toma conta daquela parte da cordilheira Vilcanota.Saímos do acampamento mais tarde, 9 e 30, porque estamos todos ainda cansados da pegada do ataque ao cume do Campa ontem. Deixamos a província de Quispicanchis, onde se deram os três primeiros dias de nossa pernada, e adentramos agora a província de Canchis. Caminhamos ao longo da belíssima quebrada ou vale Chillca que começa no passo de Campa e termina no distrito de Pitumarca. Ontem, do topo do Campa, a parte inicial deste vale já me chamara a atenção. Agora, percorrendo suas entranhas, mais encantada fico pelo colorido de suas pastagens e a cor avermelhada de algumas encostas de montanhas embora o céu mantenha-se nublado. Novos floquinhos de neve, se bem que minúsculos, tornam a cair durante um bom tempo. Pousados no chão, bandos de wallatas, pássaros que vivem aos pares, emitem ruídos similares ao cacarejar de galinhas. Um pouco antes da meia dúzia de casinhas de adobe com teto de palha, que vem a ser o pueblo de Huchuy Finaya, há um local para acampamento. O detalhe é que, por se localizar no flanco instável duma montanha, há risco de deslizamento, situação esta que aconteceu há um ano atrás, com queda de toneladas de areia e de enormes blocos de rocha. A sorte é que não havia ninguém acampado no lugar. Dobramos noutra quebrada à direita onde é possível avistar a cara sudeste do Ausangante e a face nevadíssima do Mariposa. Uma pena o tempo fechado porque deve ser um arraso curtir estes dois nevados brilhando ao sol. O vale, delimitado por altos platôs e montanhas, exibe, em algumas das encostas, uma vibrante coloração ferruginosa. Alpacas pastam próximas a um córrego que se origina das águas de degelo do glaciar do Mariposa. No lado oposto, a solitária casa do proprietário do rebanho marca presença na imensidão do pampa andino. Iniciamos a subida do passo Palomani cuja trilha infindável avisa que vai ser osso a caminhada até seu topo, não pela inclinação mas pela extensão. Na metade do caminho, parada pro almoço. O cozinheiro serve dum grande panelão massa com atum mais batatas camote fritas. Exceto as batatas, o resto está muito sem graça, tanto que nem repito. Definitivamente, o rapaz não é lá muito jeitoso na cozinha. Ju, cada vez mais depauperada pelos efeitos da altitude e da diarreia, tem de se valer do cavalo posto à disposição pra situações emergenciais. Assim, bem repoltreada, segue montada o restante do trajeto até o próximo acampamento. Com seus respeitáveis 5.100 m, o passo revela uma paisagem de respeito montanha abaixo: a face sul do Ausangate à direita, a laguna Ausangatecocha aos pés do nevado e, mais adiante, as barracas do acampamento Ausangate onde chegamos às 15 e 30, após percorrer modestos 11 km em 6 horas. Na verdade, o relógio Garmin acusou movimentação mesmo de apenas 4 horas, sendo que as outras 2 horas foram desfrutadas em pausas para fotografar, fazer pipi, regularizar o ritmo cardíaco e almoçar. Mal chegamos ao acampamento Ausangate, situado a 4.600 m, começa novamente a granizar. Tô me dando conta de que só no primeiro dia pintou neve. E o mais incrível: o frio não é de todo insuportável tanto que só usei a minha jaqueta de pluma duas vezes até agora. Pela segunda vez (a primeira foi em Pacchanta, onde há a "casinha" com o famoso buracon no chão), não se usa a barraquinha-banheiro. À disposição dos turistas, uma construção em alvenaria com 4 WC e uma pia, tudo sem água corrente. E o tempo continua feio, nublado, com modestíssimos rasgos de azul no céu, encobertos por espessa camada de nuvens. Servida a janta às 19 horas, conversamos um pouco mas o cansaço dos dias anteriores e do ataque ao cume se fazem sentir. Damos buenas noches aos nossos guias e vamos Juju e eu ao encontro de nossos “berços”.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Nevado Campa

Acordo às 3 e meia da manhã e quando saio da barraca me alegro ao ver o céu vazado de nuvens. Somente estrelas e uma lua crescente já bem grandota. Nem parece que ontem caiu o maior pancadão de granizo sobre o acampamento. Bastante frio mas nada insuportável. Terminada o desjejum, partimos em direção ao passo Campa. Ainda escuro, são 4 e meia, usamos lanternas de testa. Uma hora depois, as dispensamos porque as primeiras luzes da manhã já iluminam a morena que conduz ao início do glaciar Campa. É um pedrario de respeito. Pergunto a Daniel se já ultrapassamos o passo Campa com seus 5 mil metros. Ele responde que sim. E eu que nem senti muito a subida, ala putcha! Aos pés do glaciar, colocamos as cadeirinhas e os grampones necessários pra andar sobre o gelo. Daniel nos encorda, ficando Juju atrás dele, depois eu e por fim Rosembert. Carregando uma pesada mochila com todo o material, Rosembert, praticamente, está pondo os bofes pela boca. Para seguidamente não só pra equalizar seus batimentos cardíacos como para aliviar a dor que sente na lombar. Numa dessas, o coitado chega a se abraçar numa pedra tão exausto está. É engraçado ver um homem agir dessa maneira, dando tanta bandeira de seu cansaço. Bueno, a primeira subida é exigente, um tanto quanto técnica. Crivada de penitentes, a inclinação varia de 45º a 55º. O que complica são as concavidades naturais formadas no gelo, criando uma série de degraus, distantes entre si. Por isso, sou obrigada a malabarismos já que minhas curtas pernas têm dificuldade em vencer os íngremes e altos degraus. Ponho o joelho no gelo e vou assim me içando com o auxílio do piolet e das mãos. Quase duas horas pra escalar os 150 metros dessa pendente de penitentes, pode? Imagino que seria pior se a neve estivesse fofa. Nesse ínterim, o tempo até então impecável, com céu azul e 100% de visibilidade, muda dramaticamente. Baixa um severo white off, enxergando-se nada versus nada da paisagem ao redor. Escalaminhamos, a seguir, um trecho de rochas sob pesada cerração. Algumas coisas neste ascenso estão sendo minha primeira experiência: penitentes e white off, dos quais só tivera conhecimento por leituras nos livros. Se não estivesse calçando grampones e tampouco encarapitada nesta altitude, teria sido moleza trepar nas pedras. Pero a 5. 300 metros nada é facinho, não! Ainda bem que a pegada das rochas é breve, porque chego arfante no alto da parede. E compreendo que o pior está por vir! Faltam ainda 100 metros até o cume. Embora seja uma aresta curta, com superfície lisa, a inclinação atinge bem uns 65º. Caminhando, ou melhor, nos arrastando ao longo da tenebrosa rampa, eu e Juju, descansamos a cada 2 metros pra recuperar o fôlego. Eu cá com meus botões torço para que Juju desista. Sabem por quê? Não há álibi melhor para amparar desistências do que ser solidários aos amigos. Deus que me perdoe tanta calhordice, hehe!! E não é que Ju também pensou a mesma coisa? Quase no final, próxima ao cume, Ju senta, ou melhor, desaba no gelo. Vendo que ela está muito cansada porém não exaurida, trato de incentivá-la, mexendo nos seus brios de aventureira e lasco um “tu vai morrer na praia agora é? vamu, vamu, levanta, guria!” Foi o que bastou pra ela se erguer e vencer os poucos metros que a separavam dos 5.415 metros do cume do Campa (meu relógio Garmin registra esta altimetria, já Daniel afirma que são 5.485 m). Sofrida pernada desde o acampamento, gente: 4 km e 380 metros em 6 horas! E daí foi aquele chororô das gurias. Eu emocionada por vê-la emocionada, ela pelo debut em seu primeiro 5 mil. Ju, passada a emoção inicial, tira da mochila uma cartolina onde está escrito: “Esta filha veio dizer: te amo mãe! Feliz aniversário!” Homenagem a sua genitora que completará 80 anos daqui a 2 dias. Graças a deus que, quando chegamos ao cume, o nevoeiro já havia se dissipado, conforme garantira Daniel durante o ascenso. Pudemos, então, curtir a deslumbrante visão, ao sul, do vale e das lagunas Armachocha e Pucacocha, bem como dos nevados Ausangate, Mariposa, Santa Catalina e Maria Huamanticlla. Já a oeste, separados do Campa por um estreito vale, os nevadíssimos Pucapunta, Hatunpunta e 3 Puntas. O topo do Campa parece a proa dum navio:  largo e comprido, o platô nevado, separa-se dum segundo cume, mais baixo, por uma estreita e também nevada aresta. Ficamos uma meia hora nos deliciando com o visual e tirando fotos até que iniciamos o descenso. No trecho rochoso, Daniel arma um rapel em que ele funciona como ancoragem. Depois disso, caminhada em meio a flocos de neve que caem até que alcancemos o estreito vale visto do cume do Campa. Ju, de tão cansada, teve de ir a cavalo desde o sopé do Campa até o acampamento. Eu vou me arrastando atrás tanto que nem quero saber de curtir as velozes viscayas que correm assustadas campo afora. Não tenho mais forças pra tirar fotos. Quando estou a dez minutos do acampamento, chega o cavalo, enviado por Daniel, pra me resgatar. Que guia bom esse guri! Super atento, calmo, simpático e bem informado. Transmite a maior segurança pra gente. Devo a ele bastante do meu sucesso em fazer cume no Campa! Chego ao acampamento às 15 e 20 e pouco depois sou chamada pro chá com  pipocas na barraca-refeitório. A altitude tá pegando pra valer em Ju. A pobre tá com diarreia desde que acordou. Tenho pra mim que ela também deve ter comido algo com glúten, substância a que é alérgica. Desde que começou o trek, os cuidados com sua alimentação não têm sido dos mais atentos. E não foi por falta de aviso, já que Ju, nos email, alertara a agência pra sua problemática. Previdentemente, medica-se com Imozec, um remédio que age como uma “rolha intestinal”. Reforço o tratamento, repassando-lhe alguns comprimidos de Bactrim F 800 mg, antibiótico de largo espectro que serve pra combater tanto amigdalite quanto infecção intestinal. Oxalá, essa guria não piore!

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Entre lagunas e nevados

Bexiga apertada, acordo à noite e pra meu consolo, quando saio da barraca pro pipi, dou de cara com o Ausangate totalmente descoberto cercado por zilhões de estrelas. Que mijada mais cênica essa, putzgrila!! Quando levanto de manhã - merrrdaa!! - o nuvaredo voltou a encobri-lo. Da piscina, escapam rolinhos de fumaça. Porém não me animo a mergulhar na tépida água devido a temperatura ambiente beirar os 2º C. Um pouco antes de deixarmos o povoado de Pacchanta, por volta das 9 horas, eis - aleluia - o Ausangate desembaraçado de qualquer vestígio de nevoeiro. Na sua cara norte, alternam-se a negritude das rochas e a alvura dos glaciares. Após 20 minutos de caminhada, paro e viro pra trás, enxergando, lá embaixo, a vila de Pacchanta reduzida a minúsculas casinhas. A trilha, demarcada por pedrinhas, segue em direção ao Ausangate. À minha esquerda, o Cayangate vai despontando da terra como se fosse um gigantesco cogumelo albino. Tão grande quanto o Ausangate, o maciço é muito lindo também! No meio do nada, sentadas no chão, duas índias, tendo diante de si mercadorias expostas sobre mantas, aguardam os turistas. Os dois guias se detêm pra conversar com as mulheres. Aproveito, enquanto espero o conversê terminar, pra especular o material. Encanto-me com uma fita bordada, arrematada por pompons coloridos que trato de colocar ao redor de meu chapéu. Assim, bem enfeitada, retomo faceira a caminhada. Como estamos em ascensão, a temperatura vai caindo, em especial, quando estamos cara a cara com o Ausangate e seus dois grandes glaciares. Contornamos sua face norte, e, na baixada, Daniel aponta a laguna Azulcocha cuja coloração, entretanto, é esverdeada. Mais adiante, lado a lado, duas pequenas lagunas de nomes Embra (significa fêma) e Macho. Na primeira, o espelho d´água, duma invulgar tonalidade azulada, reflete os flocos brancos e arredondados de nuvens estacionadas no céu. Ao norte, já dá pra se avistar perfeitamente o Campa e o Yana Ccaqa; passados 20 minutos, volto a encará-los e uma névoa baixou, sem contudo encobri-los. Gosto do resultado da foto que tiro: como se um fino véu suavizasse seus ásperos contornos. Dani observa que a cerração significa provavelmente queda de neve sobre a montanha. Putz, oxalá não haja muita precipitação porque senão amanhã vai ser osso enfrentar trilha coberta com neve fofa. Estamos num vale ladeado por diversos nevados pertencentes à cordilheira Vilcanota. À direita, o sempre presente Ausangate cujas morenas de cor cinza escuro formam altas colinas aos pés dos glaciares. Lá pelas tantas, começa a cair uma aquanieve e a temperatura baixa mais ainda. Quando passamos diante duma laguna, sou atraída pela forte coloração turquesa da água. Não dá outra, posiciono a máquina porque não há como deixar de fotografar tal belezura. Algumas turistas de meia-idade que lá estavam em trajes de banho, aparentemente saindo das águas friíssimas do pequeno lago, começam a berrar e a gesticular, sinalizando com tal pantomima que não querem ser fotografadas. Fico pasma com tamanha pretensão. Quem disse que eu quero fotografar aquelas velhotas feiosas? A explicação de tão agressiva conduta se deve ao fato de o bando de doidas estar ali realizando rituais xâmanicos. Segundo essa prática espiritual, a fotografia roubaria as almas de seus seguidores. Putz, mas que tipo de espiritualidade têm umas criaturas que agem duma forma tão histérica, hein?! Bueno, após passarmos por mais três lagunas de cor turquesa, começamos a subir a encosta duma montanha onde há dezenas de alpacas de pelagem branca e preta pastando icchu. A vegetação nesta altitude de 4.000 m é formada basicamente por gramíneas cuja tonalidade amarelada contrapõe-se ao verde das lagunas e ao tom ocre e cinzento das encostas das montanhas. Uma palheta de cores a fudê de bonita! Até então só aparecendo as pontas de seus cumes, neste ponto da trilha já é possível avistar, em toda a inteireza, Pucapunta e Rutapunta. São uma beleza! Quase completamente embranquecidos pela neve, esses dois picos merecem a denominação de nevados. Chegamos ao acampamento-base às 15 horas e logo após começa a cair granizo cuja precipitação intermitente se prolonga até as 18 horas. Nesse ínterim, até sol dá pinta pras bandas do ocidente, revelando pequenos rasgões de céu azul. A região ao redor do acampamento Pachaspata fica coalhada de branco. A neve lembra bolinhas de isopor ou de sagu (como quiserem), fazendo crak crak quando se pisa nela. Pipoca e chá são servidos de lanche enquanto a mininevasca cai lá fora. O barulho soa exatamente como grão de milho estourando na panela. Cada vez que dá uma estiada, a gente sai pra filmar e fotografar, voltando correndo pra barraca, a cada nova queda de granizo. Embora - agora sim - sofrendo os efeitos da altitude, afinal já estamos na cota dos 4.600 m, onde se localiza nosso acampamento, Juju está encantada com o espetáculo da queda da neve. A guria nunca presenciara algo parecido. Durante a janta (estou achando a comida muito fraquinha e o cozinheiro nada talentoso), Daniel garante que amanhã fará bom tempo, portanto, desencano rapidinho de meus temores de o ascenso ao Campa não se realizar devido ao mau tempo. E assim, me jogo, tranquila, mais uma vez nos braços de Morfeu.........buenas noches!! 

 

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Cordilheira Vilcanota

Na ponta dos cascos, espero na recepção do hotel Rosembert. Ele será nosso acompanhante não só até Tinke, destino inicial de nosso trek, como também durante a caminhada dos 6 dias ao redor do Ausangate. Deixamos Cusco às 8:30 e pegamos a Transoceanica, rodovia criada em 2005 com o objetivo de ligar Brasil e Peru cruza diversas cidadezinhas do departamento de Cusco. Bem conservada, exceto em alguns trechos onde há obras de manutenção e alargamento de pista, ela corta encostas de montanhas e propicia a visão de verdejantes vales formados entre seus vãos. À medida que subimos, a rodovia mais sinuosa se torna devido ao relevo montanhoso, em especial quando adentramos a província de Quispicanchi. Na altura de outra província, de nome Canchis, um largo rio chama minha atenção. Rosembert indagado, responde que se trata do rio Vilcanota. Sabem no que esse rio se transforma? Nada mais nada menos que no nosso Amazonas!! Apertada pra fazer xixi, aviso a Rosembert de minha urgência. Quando estou agachada já mijando, umas índias gritam que ali não é banheiro. “Estoy necesitada, señoras, perdoname”, respondo eu, não ousando nem usar papel higiênico pra não sujar o terreno alheio. Completamente sem noção o motorista ao estacionar o carro em lugar tão inadequado. E por causa disso, quase sou linchada pela indiada, ala putcha!! Um pouco antes de atravessarmos a diminuta Kcauri, a cara norte do Ausangate começa a dar pinta embora suas formas sejam mais adivinhadas do que vistas já que encobertas por densas nuvens. Chegamos às 11:30 em Tinke, pueblito situado na beira da carretera Transoceanica. Encarapitado a nada desprezíveis 3.790 m acima do nível do mar, o pequeno povoado faz parte do distrito de Ocongate que, com mais onze, compõe a província de Quispicanchi. Esta por sua vez é uma das 13 províncias pertencentes ao departamento de Cusco. Complicado né? Não se pensarmos que departamentos equivalem a estados, províncias a municípios e distritos a distritos mesmo, hehe. Conhecemos então Daniel (não entendo direito a função de Rosembert no trek: será guia auxiliar? Dificilmente, porque pelo que sei é formado em Ciências Contábeis, trabalhando como contador em Lima), o guia de fato e de direito, responsável pelas muchachas aqui. Magrinho, 27 anos, casado e sem filhos, frequentou durante 5 anos o curso de guia de montanha cujo currículo compreende 3 anos de teoria e 2 de prática. Gosto dele de imediato. Parece sério e atencioso, além de saber dar informações tão ao meu gosto. Já de cara esclarece o significado de Tinke em quéchua (encontro de 2 caminhos ou rios). Adooorooo saber esse tipo de coisa mesmo que depois esqueça. Enquanto o arriero não chega, ele nos leva pra conhecer o Mercado Modelo de Tinke onde há uma reprodução em pedra dum condor muito do cafona. Mesmo assim fotografo e filmo tudo, hehe. Num armazém, a variedade de frutas me espanta: maças, uvas, pêssegos, bergamotas e melões. Fotografo disfarçadamente uma mulher vestindo roupas e chapéu típicos da região. O sombrero, de nome montera, é largo e redondo, ricamente bordado e amarrado ao queixo por várias fitas coloridas. Antes de iniciar a caminhada, um almocinho ao ar livre. Pra mim sandu, pra Ju, 3 tamales mais salada de abacate com tomates e pepinos. Tudo porque a guria é alérgica a glúten e lactose. Terminada a refeição, iniciamos a caminhar, atravessando o rio Mapacho que passa ao largo de Tinke. Grudados num muro de taipa, observo uma fieira de cactus. Daniel explica que servem tanto pra impedir a fuga do gado de seus cercados quanto para evitar que invadam as plantações. Melhor que arame farpado, né? Pegamos uma estrada de chão batido e nela nos mantemos até atingir Pacchanta. Decorridos uns 40 minutos após Tinke, Daniel chama nossa atenção pra Cordilheira Vilcanota que se avista à esquerda. Com 120 km de extensão seus nevados principais são Sinaqara, seguido pelo Cayangate (o segundo em tamanho com 6.110 m), Hatun Punta, Puca Punta, Campa, Yana Ccaqa, Mariposa, Santa Catalina, Maria Huamanticlla e por fim o top Ausangate com 6.372 m. A paisagem pras bandas do Cayangate e Ausangate mostra má feição, com nevoeiro espesso encobrindo todos os nevados. Ju, agora, já começando a sentir os efeitos da altitude, consegue, porém, mandar bem durante a caminhada. Atravessamos a única rua do pueblito, mas bota pueblito nisso, de Pinchimuro. Apesar da modéstia do lugar, eu queria ter uma casinha ali porque a visão do Ausangate é um luxo só! Já pensou tu poder ver todos os dias da janela da tua sala ou do teu quarto ou de toda a casa a face nevada desse 6 mil? Não tem preço!! Atravesso o passo Cumpicalli com seus 4.400 m sem sentir qualquer esforço. Só fico sabendo porque Daniel faz questão de registrar o momento. Sinto-me super bem. Até me espanto com minha boa forma física. Um cemitério – mais parece de brinquedo - diante da cordilheira Vilcanota me faz repensar se quero ser cremada. Aqui bem que eu nem me importaria em ser enterrada, podicre. Bueno, após derrotar o passo Cumpicalli (hehe), começa a descida até Pacchanta que fica a 4.260 m. Como deixar de mencionar o cachorro que vem nos acompanhando desde Tinke? Um fofo de pelagem preta, olhos e temperamento mansos, tanto que, quando foi cercado por outros dogues perto de Pacchanta, só fez baixar a cabeça com ar sabiamente resignado! No pequeno Pueblo, onde há piscinas com águas termais, relaxo após a nem tão árdua pernada cuja duração foi de 4 horas e 30 minutos. Juju não se anima ao banho, a querida. Teme enfrentar o frio porque a piscina, ao ar livre, encontra-se imersa na sombra já que o sol escafedeu-se atrás das montanhas devido ao adiantado da hora, 17 e 30. Eu saio aos gritos, na tentativa de esconjurar o frio que se gruda na minha pele arrepiada. Podem me chamar de escandalosa, eu, contudo, apenas expresso com vigor minhas emoções, tá ligado? Ausangate encoberta quando chegamos, somente à noite, exibe seus contornos, revelando a beleza de montanha que é. Espalhadadésima, seu formato trapezoidal impressiona. Céu estrelado com lua crescente cada vez mais gordota....ebaaaa!!! A vida é bela embora minha bici amarela não esteja comigo, hehehe