sábado, 9 de agosto de 2014

Experiência infernal

O dia mais frio de todos embora sem queda de neve durante a noite. Ju continua debilitada da infecção intestinal motivo por que deixa o acampamento montada a cavalo. Hoje a pegada é fodástica porque temos 2 passos a enfrentar: Apachata e Arapa. O primeiro situa-se na montanha situada diante do acampamento da laguna Ausangate. Apesar de curto - a distância ultrapassa pouco mais que 1 km -, o ascenso é bem íngreme até os 4.900m de seu topo. E começa a nevar enquanto estamos subindo! De novo, oh, não!! Ultrapassado o passo cujo solo exibe-se bastante nevado, imersos numa nuvem, penetramos no belíssimo Pampachiri, um estreito vale delimitado à direita pelo extenso maciço do Ausangate e à esquerda por cordões rochosos que, em certos trechos, se afunilam formando algo parecido com o que aqui no sul chamamos de brete. Muito a fudê essa parte do vale. Passamos ao largo da laguna Vinococha cujas águas azuladas são bem escuras. Nesta banda, já estamos diante da face oeste do Ausangate onde, não muito distantes de seu cume, penduram-se enormes seracs. Uma pena a maior montanha do departamento de Cusco se encontrar parcialmente encoberta por nuvens. A merda do tempo mais uma vez nos sacaneia! Pois não é que o céu tem se mantido nublado já faz 3 dias? Merrrdaaa!! Passamos por três lagunas, todas chamadas Pucacocha, resultado do degelo dos glaciares que cobrem parcialmente o Ausangate. A escassa vegetação, constituída praticamente por ichus, imprime à paisagem uma paleta de cores que se reduz ao amarelo das gramíneas e ao cinza escuro das rochas. Almoçamos em frente ao Extremo Ausangate, um monolito de coloração preta, também parte integrante do maciço Ausangante. Turistas que pretendem escalá-lo estão acampados aqui. Daniel avisa que, embora “suave”, a subida até o passo Arapa demora um eito em razão de ser super longa sua travessia. A partir daqui, a paisagem vai se tornando cada vez mais árida, aberta, sem montanhas próximas que a confinem. Na verdade, alterna trechos “planos”, com pequenas elevações que lembram um pouco as coxilhas gaúchas. Cansada como estou qualquer lombinha significa um evereste pra mim, motivo por que um pouco antes de alcançar o passo Arapa, chego à conclusão que será tortura insistir em continuar caminhando. Tenho a impressão que se der mais 10 passos, desabo no chão. Ju então cede o cavalo pra mim, a querida. Tamanha a exaustão que mal consigo montar no lombo do manso cavalo onde alcanço “motorizada” os 4.800 metros do passo Arapa. Deste ponto em diante, novamente o Ausangate volta a exibir sua face norte, e nós completamos assim uma volta de 360º ao redor deste formidável nevado A paisagem torna-se totalmente desértica, sem um talo de gramínea que seja. Já recuperada, apeio do cavalo e vou caminhando até o acampamento armado em Upis. Na descida, rebanhos de alpaca pastam numa área onde a vegetação rasteira dá pinta novamente. Chegamos a Upis às 14 e 20 após 6 horas de pernada numa distância total de 15 km. Eu e Juju, felizes da vida com a possibilidade de relaxar nas águas termais, pegamos a trilha que conduz às piscinas. Quando entro, solto um formidável berro que deve ter sido ouvido em Cusco. A água não está quente, está fervendo, está pelando!!  Um horror!! Fico, inclusive, sem ar por alguns segundos, tamanha a violência do choque térmico. Espero seja esta a única experiência infernal sofrida não só em vida como na morte, hehe. A sorte de Juju é que ela não entrou comigo. Passamos as duas então pra outra piscina. No entanto, a temperatura morna da água não convida a que fiquemos nem 10 minutos ali. E foi outro martírio enfrentar o rústico vestiário cujas janelas sem vidro não nos protegeram nada das frias rajadas de vento que fustiga o lugar. Como a face norte do Ausangate ainda está escondida pelas nuvens, sem chances fotografá-la. Oxalá, amanhã o dia esteja melhor! Entro na barraca e ponho pra carregar meu relógio Garmin no recharger Sherpa 50 adquirido recentemente. Uma maravilha essa engenhoca! Nem precisei usar os painéis solares porque o recharger, carregado previamente na eletricidade antes de sair pro trek, só consumiu 20% de sua capacidade de armazenamento. Nunca mais vou ficar na mão sem poder registrar o trajeto de minhas aventuras, coisa que antes não conseguia porque o Garmin só agüenta 7 horas por dia. Posso agora ficar no mato sem cachorro mas never nunquinha mais máquina, ipod, celular e relógio me deixarão na mão, sem funcionamento por falta de carga!! Viva a modernidade uhuuu!! Deito-me e pego o livro de suspense que se desenrola na Lapônia norueguesa “40 dias sem sombra”, cujo nome se deve aos largos períodos quem que ausente a luz solar nesta parte do hemisfério norte. Tá aí um lugar que quero conhecer, não só por isso mas pelo espetacular fenômeno da aurora boreal. 

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Passo Palomani

Muito chata mas muito chata mesmo essa função de guardar roupa nas sacolas, desinflar isolante térmico, enfiar saco de dormir dentro da capa e outras cositas mas. Sem esquecer o reverso quando a gente chega no acampamento e tem de tirar tudo de dentro da sacola, soprar o isolante, tirar o saco de dormir da capa e por aí afora!! Tudo realizado no interior do "big espaço" que são as barracas para uma pessoa. Essa rotina me mata. Adoro rotinas mas essa, por favorrr, ninguém merece!! Meu sonho de consumo é ter dinheiro suficiente pra poder pagar alguém que faça um dia isso por mim. E não estou brincando não, por isso não escrevo os he he he no final da frase, tá ligado? Bueno, sonhos ainda não custam nada, só rendem, às vezes, uma baita duma frustração porque nunca se realizam. O solo ao redor do acampamento está totalmente embranquecido pela queda de neve durante a noite. O nevado 3 Puntas mal dá pra se enxergar devido ao nevoeiro que toma conta daquela parte da cordilheira Vilcanota.Saímos do acampamento mais tarde, 9 e 30, porque estamos todos ainda cansados da pegada do ataque ao cume do Campa ontem. Deixamos a província de Quispicanchis, onde se deram os três primeiros dias de nossa pernada, e adentramos agora a província de Canchis. Caminhamos ao longo da belíssima quebrada ou vale Chillca que começa no passo de Campa e termina no distrito de Pitumarca. Ontem, do topo do Campa, a parte inicial deste vale já me chamara a atenção. Agora, percorrendo suas entranhas, mais encantada fico pelo colorido de suas pastagens e a cor avermelhada de algumas encostas de montanhas embora o céu mantenha-se nublado. Novos floquinhos de neve, se bem que minúsculos, tornam a cair durante um bom tempo. Pousados no chão, bandos de wallatas, pássaros que vivem aos pares, emitem ruídos similares ao cacarejar de galinhas. Um pouco antes da meia dúzia de casinhas de adobe com teto de palha, que vem a ser o pueblo de Huchuy Finaya, há um local para acampamento. O detalhe é que, por se localizar no flanco instável duma montanha, há risco de deslizamento, situação esta que aconteceu há um ano atrás, com queda de toneladas de areia e de enormes blocos de rocha. A sorte é que não havia ninguém acampado no lugar. Dobramos noutra quebrada à direita onde é possível avistar a cara sudeste do Ausangante e a face nevadíssima do Mariposa. Uma pena o tempo fechado porque deve ser um arraso curtir estes dois nevados brilhando ao sol. O vale, delimitado por altos platôs e montanhas, exibe, em algumas das encostas, uma vibrante coloração ferruginosa. Alpacas pastam próximas a um córrego que se origina das águas de degelo do glaciar do Mariposa. No lado oposto, a solitária casa do proprietário do rebanho marca presença na imensidão do pampa andino. Iniciamos a subida do passo Palomani cuja trilha infindável avisa que vai ser osso a caminhada até seu topo, não pela inclinação mas pela extensão. Na metade do caminho, parada pro almoço. O cozinheiro serve dum grande panelão massa com atum mais batatas camote fritas. Exceto as batatas, o resto está muito sem graça, tanto que nem repito. Definitivamente, o rapaz não é lá muito jeitoso na cozinha. Ju, cada vez mais depauperada pelos efeitos da altitude e da diarreia, tem de se valer do cavalo posto à disposição pra situações emergenciais. Assim, bem repoltreada, segue montada o restante do trajeto até o próximo acampamento. Com seus respeitáveis 5.100 m, o passo revela uma paisagem de respeito montanha abaixo: a face sul do Ausangate à direita, a laguna Ausangatecocha aos pés do nevado e, mais adiante, as barracas do acampamento Ausangate onde chegamos às 15 e 30, após percorrer modestos 11 km em 6 horas. Na verdade, o relógio Garmin acusou movimentação mesmo de apenas 4 horas, sendo que as outras 2 horas foram desfrutadas em pausas para fotografar, fazer pipi, regularizar o ritmo cardíaco e almoçar. Mal chegamos ao acampamento Ausangate, situado a 4.600 m, começa novamente a granizar. Tô me dando conta de que só no primeiro dia pintou neve. E o mais incrível: o frio não é de todo insuportável tanto que só usei a minha jaqueta de pluma duas vezes até agora. Pela segunda vez (a primeira foi em Pacchanta, onde há a "casinha" com o famoso buracon no chão), não se usa a barraquinha-banheiro. À disposição dos turistas, uma construção em alvenaria com 4 WC e uma pia, tudo sem água corrente. E o tempo continua feio, nublado, com modestíssimos rasgos de azul no céu, encobertos por espessa camada de nuvens. Servida a janta às 19 horas, conversamos um pouco mas o cansaço dos dias anteriores e do ataque ao cume se fazem sentir. Damos buenas noches aos nossos guias e vamos Juju e eu ao encontro de nossos “berços”.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Nevado Campa

Acordo às 3 e meia da manhã e quando saio da barraca me alegro ao ver o céu vazado de nuvens. Somente estrelas e uma lua crescente já bem grandota. Nem parece que ontem caiu o maior pancadão de granizo sobre o acampamento. Bastante frio mas nada insuportável. Terminada o desjejum, partimos em direção ao passo Campa. Ainda escuro, são 4 e meia, usamos lanternas de testa. Uma hora depois, as dispensamos porque as primeiras luzes da manhã já iluminam a morena que conduz ao início do glaciar Campa. É um pedrario de respeito. Pergunto a Daniel se já ultrapassamos o passo Campa com seus 5 mil metros. Ele responde que sim. E eu que nem senti muito a subida, ala putcha! Aos pés do glaciar, colocamos as cadeirinhas e os grampones necessários pra andar sobre o gelo. Daniel nos encorda, ficando Juju atrás dele, depois eu e por fim Rosembert. Carregando uma pesada mochila com todo o material, Rosembert, praticamente, está pondo os bofes pela boca. Para seguidamente não só pra equalizar seus batimentos cardíacos como para aliviar a dor que sente na lombar. Numa dessas, o coitado chega a se abraçar numa pedra tão exausto está. É engraçado ver um homem agir dessa maneira, dando tanta bandeira de seu cansaço. Bueno, a primeira subida é exigente, um tanto quanto técnica. Crivada de penitentes, a inclinação varia de 45º a 55º. O que complica são as concavidades naturais formadas no gelo, criando uma série de degraus, distantes entre si. Por isso, sou obrigada a malabarismos já que minhas curtas pernas têm dificuldade em vencer os íngremes e altos degraus. Ponho o joelho no gelo e vou assim me içando com o auxílio do piolet e das mãos. Quase duas horas pra escalar os 150 metros dessa pendente de penitentes, pode? Imagino que seria pior se a neve estivesse fofa. Nesse ínterim, o tempo até então impecável, com céu azul e 100% de visibilidade, muda dramaticamente. Baixa um severo white off, enxergando-se nada versus nada da paisagem ao redor. Escalaminhamos, a seguir, um trecho de rochas sob pesada cerração. Algumas coisas neste ascenso estão sendo minha primeira experiência: penitentes e white off, dos quais só tivera conhecimento por leituras nos livros. Se não estivesse calçando grampones e tampouco encarapitada nesta altitude, teria sido moleza trepar nas pedras. Pero a 5. 300 metros nada é facinho, não! Ainda bem que a pegada das rochas é breve, porque chego arfante no alto da parede. E compreendo que o pior está por vir! Faltam ainda 100 metros até o cume. Embora seja uma aresta curta, com superfície lisa, a inclinação atinge bem uns 65º. Caminhando, ou melhor, nos arrastando ao longo da tenebrosa rampa, eu e Juju, descansamos a cada 2 metros pra recuperar o fôlego. Eu cá com meus botões torço para que Juju desista. Sabem por quê? Não há álibi melhor para amparar desistências do que ser solidários aos amigos. Deus que me perdoe tanta calhordice, hehe!! E não é que Ju também pensou a mesma coisa? Quase no final, próxima ao cume, Ju senta, ou melhor, desaba no gelo. Vendo que ela está muito cansada porém não exaurida, trato de incentivá-la, mexendo nos seus brios de aventureira e lasco um “tu vai morrer na praia agora é? vamu, vamu, levanta, guria!” Foi o que bastou pra ela se erguer e vencer os poucos metros que a separavam dos 5.415 metros do cume do Campa (meu relógio Garmin registra esta altimetria, já Daniel afirma que são 5.485 m). Sofrida pernada desde o acampamento, gente: 4 km e 380 metros em 6 horas! E daí foi aquele chororô das gurias. Eu emocionada por vê-la emocionada, ela pelo debut em seu primeiro 5 mil. Ju, passada a emoção inicial, tira da mochila uma cartolina onde está escrito: “Esta filha veio dizer: te amo mãe! Feliz aniversário!” Homenagem a sua genitora que completará 80 anos daqui a 2 dias. Graças a deus que, quando chegamos ao cume, o nevoeiro já havia se dissipado, conforme garantira Daniel durante o ascenso. Pudemos, então, curtir a deslumbrante visão, ao sul, do vale e das lagunas Armachocha e Pucacocha, bem como dos nevados Ausangate, Mariposa, Santa Catalina e Maria Huamanticlla. Já a oeste, separados do Campa por um estreito vale, os nevadíssimos Pucapunta, Hatunpunta e 3 Puntas. O topo do Campa parece a proa dum navio:  largo e comprido, o platô nevado, separa-se dum segundo cume, mais baixo, por uma estreita e também nevada aresta. Ficamos uma meia hora nos deliciando com o visual e tirando fotos até que iniciamos o descenso. No trecho rochoso, Daniel arma um rapel em que ele funciona como ancoragem. Depois disso, caminhada em meio a flocos de neve que caem até que alcancemos o estreito vale visto do cume do Campa. Ju, de tão cansada, teve de ir a cavalo desde o sopé do Campa até o acampamento. Eu vou me arrastando atrás tanto que nem quero saber de curtir as velozes viscayas que correm assustadas campo afora. Não tenho mais forças pra tirar fotos. Quando estou a dez minutos do acampamento, chega o cavalo, enviado por Daniel, pra me resgatar. Que guia bom esse guri! Super atento, calmo, simpático e bem informado. Transmite a maior segurança pra gente. Devo a ele bastante do meu sucesso em fazer cume no Campa! Chego ao acampamento às 15 e 20 e pouco depois sou chamada pro chá com  pipocas na barraca-refeitório. A altitude tá pegando pra valer em Ju. A pobre tá com diarreia desde que acordou. Tenho pra mim que ela também deve ter comido algo com glúten, substância a que é alérgica. Desde que começou o trek, os cuidados com sua alimentação não têm sido dos mais atentos. E não foi por falta de aviso, já que Ju, nos email, alertara a agência pra sua problemática. Previdentemente, medica-se com Imozec, um remédio que age como uma “rolha intestinal”. Reforço o tratamento, repassando-lhe alguns comprimidos de Bactrim F 800 mg, antibiótico de largo espectro que serve pra combater tanto amigdalite quanto infecção intestinal. Oxalá, essa guria não piore!

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Entre lagunas e nevados

Bexiga apertada, acordo à noite e pra meu consolo, quando saio da barraca pro pipi, dou de cara com o Ausangate totalmente descoberto cercado por zilhões de estrelas. Que mijada mais cênica essa, putzgrila!! Quando levanto de manhã - merrrdaa!! - o nuvaredo voltou a encobri-lo. Da piscina, escapam rolinhos de fumaça. Porém não me animo a mergulhar na tépida água devido a temperatura ambiente beirar os 2º C. Um pouco antes de deixarmos o povoado de Pacchanta, por volta das 9 horas, eis - aleluia - o Ausangate desembaraçado de qualquer vestígio de nevoeiro. Na sua cara norte, alternam-se a negritude das rochas e a alvura dos glaciares. Após 20 minutos de caminhada, paro e viro pra trás, enxergando, lá embaixo, a vila de Pacchanta reduzida a minúsculas casinhas. A trilha, demarcada por pedrinhas, segue em direção ao Ausangate. À minha esquerda, o Cayangate vai despontando da terra como se fosse um gigantesco cogumelo albino. Tão grande quanto o Ausangate, o maciço é muito lindo também! No meio do nada, sentadas no chão, duas índias, tendo diante de si mercadorias expostas sobre mantas, aguardam os turistas. Os dois guias se detêm pra conversar com as mulheres. Aproveito, enquanto espero o conversê terminar, pra especular o material. Encanto-me com uma fita bordada, arrematada por pompons coloridos que trato de colocar ao redor de meu chapéu. Assim, bem enfeitada, retomo faceira a caminhada. Como estamos em ascensão, a temperatura vai caindo, em especial, quando estamos cara a cara com o Ausangate e seus dois grandes glaciares. Contornamos sua face norte, e, na baixada, Daniel aponta a laguna Azulcocha cuja coloração, entretanto, é esverdeada. Mais adiante, lado a lado, duas pequenas lagunas de nomes Embra (significa fêma) e Macho. Na primeira, o espelho d´água, duma invulgar tonalidade azulada, reflete os flocos brancos e arredondados de nuvens estacionadas no céu. Ao norte, já dá pra se avistar perfeitamente o Campa e o Yana Ccaqa; passados 20 minutos, volto a encará-los e uma névoa baixou, sem contudo encobri-los. Gosto do resultado da foto que tiro: como se um fino véu suavizasse seus ásperos contornos. Dani observa que a cerração significa provavelmente queda de neve sobre a montanha. Putz, oxalá não haja muita precipitação porque senão amanhã vai ser osso enfrentar trilha coberta com neve fofa. Estamos num vale ladeado por diversos nevados pertencentes à cordilheira Vilcanota. À direita, o sempre presente Ausangate cujas morenas de cor cinza escuro formam altas colinas aos pés dos glaciares. Lá pelas tantas, começa a cair uma aquanieve e a temperatura baixa mais ainda. Quando passamos diante duma laguna, sou atraída pela forte coloração turquesa da água. Não dá outra, posiciono a máquina porque não há como deixar de fotografar tal belezura. Algumas turistas de meia-idade que lá estavam em trajes de banho, aparentemente saindo das águas friíssimas do pequeno lago, começam a berrar e a gesticular, sinalizando com tal pantomima que não querem ser fotografadas. Fico pasma com tamanha pretensão. Quem disse que eu quero fotografar aquelas velhotas feiosas? A explicação de tão agressiva conduta se deve ao fato de o bando de doidas estar ali realizando rituais xâmanicos. Segundo essa prática espiritual, a fotografia roubaria as almas de seus seguidores. Putz, mas que tipo de espiritualidade têm umas criaturas que agem duma forma tão histérica, hein?! Bueno, após passarmos por mais três lagunas de cor turquesa, começamos a subir a encosta duma montanha onde há dezenas de alpacas de pelagem branca e preta pastando icchu. A vegetação nesta altitude de 4.000 m é formada basicamente por gramíneas cuja tonalidade amarelada contrapõe-se ao verde das lagunas e ao tom ocre e cinzento das encostas das montanhas. Uma palheta de cores a fudê de bonita! Até então só aparecendo as pontas de seus cumes, neste ponto da trilha já é possível avistar, em toda a inteireza, Pucapunta e Rutapunta. São uma beleza! Quase completamente embranquecidos pela neve, esses dois picos merecem a denominação de nevados. Chegamos ao acampamento-base às 15 horas e logo após começa a cair granizo cuja precipitação intermitente se prolonga até as 18 horas. Nesse ínterim, até sol dá pinta pras bandas do ocidente, revelando pequenos rasgões de céu azul. A região ao redor do acampamento Pachaspata fica coalhada de branco. A neve lembra bolinhas de isopor ou de sagu (como quiserem), fazendo crak crak quando se pisa nela. Pipoca e chá são servidos de lanche enquanto a mininevasca cai lá fora. O barulho soa exatamente como grão de milho estourando na panela. Cada vez que dá uma estiada, a gente sai pra filmar e fotografar, voltando correndo pra barraca, a cada nova queda de granizo. Embora - agora sim - sofrendo os efeitos da altitude, afinal já estamos na cota dos 4.600 m, onde se localiza nosso acampamento, Juju está encantada com o espetáculo da queda da neve. A guria nunca presenciara algo parecido. Durante a janta (estou achando a comida muito fraquinha e o cozinheiro nada talentoso), Daniel garante que amanhã fará bom tempo, portanto, desencano rapidinho de meus temores de o ascenso ao Campa não se realizar devido ao mau tempo. E assim, me jogo, tranquila, mais uma vez nos braços de Morfeu.........buenas noches!! 

 

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Cordilheira Vilcanota

Na ponta dos cascos, espero na recepção do hotel Rosembert. Ele será nosso acompanhante não só até Tinke, destino inicial de nosso trek, como também durante a caminhada dos 6 dias ao redor do Ausangate. Deixamos Cusco às 8:30 e pegamos a Transoceanica, rodovia criada em 2005 com o objetivo de ligar Brasil e Peru cruza diversas cidadezinhas do departamento de Cusco. Bem conservada, exceto em alguns trechos onde há obras de manutenção e alargamento de pista, ela corta encostas de montanhas e propicia a visão de verdejantes vales formados entre seus vãos. À medida que subimos, a rodovia mais sinuosa se torna devido ao relevo montanhoso, em especial quando adentramos a província de Quispicanchi. Na altura de outra província, de nome Canchis, um largo rio chama minha atenção. Rosembert indagado, responde que se trata do rio Vilcanota. Sabem no que esse rio se transforma? Nada mais nada menos que no nosso Amazonas!! Apertada pra fazer xixi, aviso a Rosembert de minha urgência. Quando estou agachada já mijando, umas índias gritam que ali não é banheiro. “Estoy necesitada, señoras, perdoname”, respondo eu, não ousando nem usar papel higiênico pra não sujar o terreno alheio. Completamente sem noção o motorista ao estacionar o carro em lugar tão inadequado. E por causa disso, quase sou linchada pela indiada, ala putcha!! Um pouco antes de atravessarmos a diminuta Kcauri, a cara norte do Ausangate começa a dar pinta embora suas formas sejam mais adivinhadas do que vistas já que encobertas por densas nuvens. Chegamos às 11:30 em Tinke, pueblito situado na beira da carretera Transoceanica. Encarapitado a nada desprezíveis 3.790 m acima do nível do mar, o pequeno povoado faz parte do distrito de Ocongate que, com mais onze, compõe a província de Quispicanchi. Esta por sua vez é uma das 13 províncias pertencentes ao departamento de Cusco. Complicado né? Não se pensarmos que departamentos equivalem a estados, províncias a municípios e distritos a distritos mesmo, hehe. Conhecemos então Daniel (não entendo direito a função de Rosembert no trek: será guia auxiliar? Dificilmente, porque pelo que sei é formado em Ciências Contábeis, trabalhando como contador em Lima), o guia de fato e de direito, responsável pelas muchachas aqui. Magrinho, 27 anos, casado e sem filhos, frequentou durante 5 anos o curso de guia de montanha cujo currículo compreende 3 anos de teoria e 2 de prática. Gosto dele de imediato. Parece sério e atencioso, além de saber dar informações tão ao meu gosto. Já de cara esclarece o significado de Tinke em quéchua (encontro de 2 caminhos ou rios). Adooorooo saber esse tipo de coisa mesmo que depois esqueça. Enquanto o arriero não chega, ele nos leva pra conhecer o Mercado Modelo de Tinke onde há uma reprodução em pedra dum condor muito do cafona. Mesmo assim fotografo e filmo tudo, hehe. Num armazém, a variedade de frutas me espanta: maças, uvas, pêssegos, bergamotas e melões. Fotografo disfarçadamente uma mulher vestindo roupas e chapéu típicos da região. O sombrero, de nome montera, é largo e redondo, ricamente bordado e amarrado ao queixo por várias fitas coloridas. Antes de iniciar a caminhada, um almocinho ao ar livre. Pra mim sandu, pra Ju, 3 tamales mais salada de abacate com tomates e pepinos. Tudo porque a guria é alérgica a glúten e lactose. Terminada a refeição, iniciamos a caminhar, atravessando o rio Mapacho que passa ao largo de Tinke. Grudados num muro de taipa, observo uma fieira de cactus. Daniel explica que servem tanto pra impedir a fuga do gado de seus cercados quanto para evitar que invadam as plantações. Melhor que arame farpado, né? Pegamos uma estrada de chão batido e nela nos mantemos até atingir Pacchanta. Decorridos uns 40 minutos após Tinke, Daniel chama nossa atenção pra Cordilheira Vilcanota que se avista à esquerda. Com 120 km de extensão seus nevados principais são Sinaqara, seguido pelo Cayangate (o segundo em tamanho com 6.110 m), Hatun Punta, Puca Punta, Campa, Yana Ccaqa, Mariposa, Santa Catalina, Maria Huamanticlla e por fim o top Ausangate com 6.372 m. A paisagem pras bandas do Cayangate e Ausangate mostra má feição, com nevoeiro espesso encobrindo todos os nevados. Ju, agora, já começando a sentir os efeitos da altitude, consegue, porém, mandar bem durante a caminhada. Atravessamos a única rua do pueblito, mas bota pueblito nisso, de Pinchimuro. Apesar da modéstia do lugar, eu queria ter uma casinha ali porque a visão do Ausangate é um luxo só! Já pensou tu poder ver todos os dias da janela da tua sala ou do teu quarto ou de toda a casa a face nevada desse 6 mil? Não tem preço!! Atravesso o passo Cumpicalli com seus 4.400 m sem sentir qualquer esforço. Só fico sabendo porque Daniel faz questão de registrar o momento. Sinto-me super bem. Até me espanto com minha boa forma física. Um cemitério – mais parece de brinquedo - diante da cordilheira Vilcanota me faz repensar se quero ser cremada. Aqui bem que eu nem me importaria em ser enterrada, podicre. Bueno, após derrotar o passo Cumpicalli (hehe), começa a descida até Pacchanta que fica a 4.260 m. Como deixar de mencionar o cachorro que vem nos acompanhando desde Tinke? Um fofo de pelagem preta, olhos e temperamento mansos, tanto que, quando foi cercado por outros dogues perto de Pacchanta, só fez baixar a cabeça com ar sabiamente resignado! No pequeno Pueblo, onde há piscinas com águas termais, relaxo após a nem tão árdua pernada cuja duração foi de 4 horas e 30 minutos. Juju não se anima ao banho, a querida. Teme enfrentar o frio porque a piscina, ao ar livre, encontra-se imersa na sombra já que o sol escafedeu-se atrás das montanhas devido ao adiantado da hora, 17 e 30. Eu saio aos gritos, na tentativa de esconjurar o frio que se gruda na minha pele arrepiada. Podem me chamar de escandalosa, eu, contudo, apenas expresso com vigor minhas emoções, tá ligado? Ausangate encoberta quando chegamos, somente à noite, exibe seus contornos, revelando a beleza de montanha que é. Espalhadadésima, seu formato trapezoidal impressiona. Céu estrelado com lua crescente cada vez mais gordota....ebaaaa!!! A vida é bela embora minha bici amarela não esteja comigo, hehehe

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Retorno a Cusco

Férias se aproximando, eu retorno meu olhar pro trek ao redor do maciço Ausangate no Peru, obrigada que fui a abortá-lo coisa de 2 anos atrás devido a doença na família. Mas agora vai dar, tanto que envio os devidos emails à agência peruana que me presta assistência nesse país. E convido para ir comigo, Jucilene, Juju, a quem conhecera num pedal em terras uruguaias por ocasião do feriadão de carnaval. A guria se entusiasma com a possibilidade de incursionar em alta montanha, acontecimento inédito até então em sua vida. E, às 6:35, dum sábado, 02 de agosto, pegamos o vôo da Avianca POA-Cusco com conexão em Lima, desembarcando em Cusco às 12:35. Visitara a cidade em 2005, quando vim a primeira vez ao Peru, iniciando justamente neste país a fazer alta montanha. Na famosa trilha de 4 dias até Machu Pichu. Sérgio, proprietário da agência Nuestra Montaña, (http://www.nuestramontana.com) nos aguarda no aeroporto, já com um táxi de prontidão que nos conduz a Urubamba onde pernoitaremos. Tudo pelo bem de nossa aclimatação já que esta cidade está a 2.870 m de altitude, portanto, menos elevada que Cusco cuja altitude é 3.300 m. Durante o caminho, uma montanha se agiganta mais e mais à medida que vamos nos aproximando de nosso destino. Trata-se do nevado Chicón, um cinco mil, pertencente à cordilheira Urubamba cujas montanhas rodeiam a pequena cidade de mesmo nome, situada no Vale Sagrados dos Incas. Nosso hotel, Amaru Valle, cujas habitações são chalezinhos com 2 dormitórios, cada um com seu banheiro, separados entre si por um corredor, arranca elogios rasgados de Juju. Cada uma ocupará um quarto para o bem de preservar a amizade. Afinal, quando se viaja em parceria, vivendo quase o dia inteiro juntas, o convívio tem de ser refrescado por pausas, não é mesmo? Ajeitadas as malas nos aconchegantes aposentos e após bebericarmos um chá de coca, vamos dar uma banda na cidade. A Plaza de Armas, distante 4 quadras do hotel, exibe o belo templo de San Pedro Apóstolo de Urubamba, com altar folheado a ouro. Tanto na Bolívia quanto no Peru, é super comum, carrocinhas vendendo todo tipo de comida. Aqui não é diferente. Paro diante duma cuja oferta são ovos de codorna, cozidos e já descascados, 4 por 2 soles, acondicionados num saquinho plástico. À disposição do freguês, pasta de aji verde para temperá-los. Por certo que os comprei! Deliciosos! O dia tem estado lindo desde que chegamos com temperatura agradável a ponto de ser possível usar camisa de manga curta e short. Belas e gordas nuvens brancas se aninham no céu azulado. Fazemos um almoço-janta às 16 e 30 no surpreendentemente bom restaurante Huacatay. Tanto a truta e sopa de quinua coroada com ovo de cordona poché estavam de lamber os beiços. À noite, como toda cidade localizada em altitude, a temperatura cai, exigindo um bom agasalho. Como não há muita coisa mais para ver ou fazer na cidadezinha, sem desprezar o fato de que amanhã devemos acordar cedo prum trek de aclimatação, retornamos ao hotel. Eu pelo menos já sinto os efeitos da altitude materializados numa certa sensação de preguiça. Caminha é o que o meu corpitcho necessita. Simbora mergulhar nos braços de Morfeu!!


Domingão, Sergio vem nos buscar juntamente com mais dois guias locais, os simpáticos e falantes Joc e Max. Fazem parte do nosso grupo, três suíços e três argentinas. Embora ainda sejam 7 horas, há indícios de que o dia será estupendo. Nosso trajeto será ao longo dum trecho da Cordilheira Urubamba, uma das três existentes no Departamento de Cusco. Com 75 km de extensão no sentido oeste-leste tem como nevados principais, Sahuasiray, Veronica e Chicon, este último onipresentíssimo durante a viagem de Cusco a Urubamba. Iniciamos a pernada às 8 da matina pela quebrada Pumahuanca, cujo tradução do quéchua significa “o uivo do puma”. A vegetação compõe-se de bosques tropicais andinos entremeada pela presença de eucaliptos, introduzidos em território peruano no século XIX. À medida que ganhamos altitude, a exuberante vegetação cede lugar a vastas campinas ocupadas por arbustos de pequeno porte e ichu, uma espécie de gramínea típica dos altiplanos andinos cuja utilidade é dupla: serve de pasto para lhamas, alpacas e vicunhas bem como teto nas casas dos pastores. Já na cota dos 3.500 m, avista-se, no fundão do vale, a cidadezinha de Urubamba abraçada por uma enfiada de montanhas em seu entorno. Os suíços exibem sua boa forma física e logo tomam a dianteira do grupo (como nós, eles também estão se aclimatando antes de enfrentar o nevado Pisco, pertencente à Cordilheira Blanca, na província de Huaraz). Não há como segui-los até porque são uns baita pernudos! As argentinas, exceto Soledad, totalmente sem noção, usam mochilas, roupas e calçados inadequados. Com excesso de peso, todas andam sem bastões, e de cara, duas vão ficando pra trás, tocando ao guia Joc lhes fazer companhia. Nos pontos de parada, as duas demoram bem uns 10 minutos pra alcançar o resto do grupo. Claro está que não completam o percurso, desistindo lá pela metade do caminho e retornando ao ponto de partida. Já Juju, embora seja sua primeira experiência em altitude, tá mandando bem. Caminha despacito, sem contudo parar, a não ser pra fotografar, por supuesto. Ao cabo duma boa subida onde se vê a ponta dum nevado, deixamos Pumahuanca para trás e entramos noutra quebrada, a Sutok. Pequenas quedas d’água formadas por ribeirões cortam a paisagem cujos contornos adquirem tons mais secos em termos de vegetação. Algumas casas bem rústicas feitas com pedras e teto de palha servem de moradia aos proprietários de lhamas e alpacas. Contou-nos Joc, no início do trek, que foi criada em Urubamba a organização não-governamentel Lhama Pack resgatando como animal de carga estes camelídeos, tão ao gosto dos incas antes de os espanhóis terem invadido o continente sulamericano e introduzido os equinos como meio de transporte e tração a partir do século XVI. O bolo da cereja do trek é atingir a cota dos 4 mil metros e, quando lá chegamos, os suíços fazem questão de que troquemos beijinhos de congratulações. Nunca imaginei que essa gente fosse tão afetiva e simpática! Terminada a pernada, retornamos todos - exceto Max e Joc que vivem em Urubamba - a Cusco onde chegamos às 18 horas. Largamos as malas no hotel - muito bem localizado, somente 3 quadras da Plaza de Armas - e nos mandamos em busca dum bom restaurante onde jantar. Brindamos à nossa boa aclimatação, Juju bebendo suco de maracujá (a guria ainda está em tratamento com antibiótico) e eu degustando um saboroso malbec-merlot peruano de sugestivo nome Tavernero. Que vengam los 5 mil!!!


Na segunda-feira, decidimos dormir até a hora que nos dá na telha. Claro está que não passo das 9 da manhã. Nem bato no quarto de Ju, desço sozinha ao refeitório e quando estou quase terminando meu desaiuno minha parceira aparece. Comento que sinto minha cabeça um pouco dolorida. Ela responde que nada sente. Invejável aclimatação a dessa guria, ala putcha! Vamos juntas às compras já que pretendemos ambas adquirir roupas de montanha. Ju se lava comprando jaquetas, calças, blusas, bastões e garrafas térmicas. Detalhe: quase tudo fake, por supuesto. Porém, o que importa é que cumpra o objetivo de protegê-la do frio da alta montanha. E isso os produtos fakes fazem muito bem! Ju que antes de chegar a Cusco tinha me garantido que não iria gastar muito (me engana que eu gosto,
hahahaha) perde a cabeça e enlouquece comprando xales, chaveiros, máscaras, presépios, bonecas, toucas, imãs de geladeira, cobertas, miniaturas de lhamas, enfim, um arsenal de bugigangas a que turista algum resiste quando vê exposto nas lojas. O dia está delicioso com céu azul manchado aqui e ali por rechonchudas nuvens brancas. Quando estamos diante da Plaza de Armas, nos preparando pra fotografar a catedral e a igreja da Companhia de Jesus, estaciona diante da calçada um daqueles ônibus turístico com 2 andares, oferecendo por 20 soles um rolê pelo centro histórico e adjacências. Convenço Ju a desistir temporariamente de suas investidas nas tiendas cusquenhas e embarcamos no busão. Durante uma hora e meia, encarapitadas no 2º andar do veículo, fotografando enlouquecidas até fios de eletricidade, vemos desfilar as estreitas vielas da cidade histórica, com breve shop stop numa lojinha de artesanato. Juju feliz da vida arremata dúzias de pequenos objetos (cá com meus botões, acho que até o porteiro do edifício fronteiro ao dela vai ganhar lembrancinha peruana). Nova parada, dessa feita, num mirador, situado no alto duma colina, de onde se tem uma visão panorâmica de Cusco bem como da nevada face norte da montanha Ausangate. No retorno, passa-se ao largo do sítio arqueológico de Sacsayhuaman, sem, contudo, se descer do busão.  Estamos eu e Juju revoltadíssimas com a internete, péssima no hotel, e sofrível no restante da cidade. Como o real está custando praticamente o mesmo valor dum sol, o Peru não está lá muito barato, não. Uma refeição com uma taça de vinho não sai por menos de 40 reais. À noite esfria e o céu torna-se estreladíssimo, já dando pinta uma lua crescente que se tornará cada vez mais gorda noite após noite. Uhuuuu, vai ter lua cheia daqui a 4 dias! E, amanhã, inicia o nosso trek de 6 dias ao redor do nevado Ausangate.....ebaaaa!!!!

domingo, 22 de junho de 2014

Pedal Tô Fora da Copa - Parte 2

Dia seguinte, sexta-feira, ao contrário de ontem, pulamos cedo da cama. Não queremos mais repetir o feito de pedalar à noite como fizemos ontem. Quem gosta de escuro ou é coruja ou morcego!! Terminado o café, nos despedimos da boa Janete e pegamos a estrada que, segundo suas palavras, tem “3 tops”, motivo por que meus cabelos grisalhos já cheios de frizz ficaram mais arrepiados ainda. Foi susto à-toa, os aclives nem foram tão danados assim. Lá pelas tantas, por causa dum trecho cujo terreno exibia uma coloração avermelhada, a Fátima entrou numa que haviam estendido um tapete vermelho em nossa homenagem, hahahaha!! Adoro essa pequena, é muito engraçada! Uns 10 km antes de Guaraqueçaba, dum mirante, construído no lado esquerdo da estrada, se tem uma visão privilegiada da Serra Negra de Guaraqueçaba e duma nesga do mar. Chegamos por volta das 17 horas a Guaraqueçaba, cidadezinha localizada na baia de mesmo nome. Do hotel, a visão privilegiada de várias ilhas e parte do litoral paranaense. Hospedados, no estabelecimento hoteleiro, um grupo de ciclistas, alguns amigos de Fátima. Um copo de uísque passava de mão em mão tal qual cuia de chimarrão. Hidratação irrecusável! Afinal, há que se repor as energias perdidas ao longo dos 46 km de soca-bota. Aceitamos o convite dos guris para jantarmos juntos. A bem da verdade de guris eles não tinham nada. Exceto um, o resto do grupo já ultrapassou há muito os 50 anos. Desde terça, nossa dieta alimentar tem sido peixe, camarão e frutos do mar. No restaurante guaraqueçabense não foi diferente. Aliás, digno de menção, os croquetes de camarão, os mariscos ao vinagrete e o peixe empanado. Embora a companhia estivesse agradável, dia seguinte teríamos que acordar 6 da matina pra pegar o barco. Assim, nos despedimos do grupo e obedientes ao olhar severo de Morfeu fomos pra caminha antes das 22 horas.

 No sábado, contamos com a ajuda duns ciclistas curitibanos pra içar as bicis até o deque superior da embarcação Ilha do Mel que faz a travessia até Paranágua em 2 horas e 30 minutos. Bem mais vantajoso do que de busão cuja duração é 5 horas e meia! O porto, cheio de guindastes com milhares de contêineres, impressiona pela monumentalidade. Resolvemos fazer um brunch já que não tomáramos café da manhã devido ao horário madrugador em que havíamos despertado. Provamos então o famoso pastel do Mercado Municipal. Finda a refeição tratamos de pegar a estrada já que nos esperavam cerca de 60 km até Antonina. Acabamos saindo de Paranágua às 12 e 30 porque deu um problema na válvula da câmara da bici da Fatima quando nós fomos calibrar os pneus num posto de gasolina. Ficamos rodando de oficina em oficina até enfim consertar o defeito. Pegamos a BR 277, rodovia com 2 pistas e bons acostamentos, suficientemente largos para que 2 bicis pedalassem lado a lado. Mas por cautela, considerando o potencial psicopata dos motoras brasileiros, seguimos em fila indiana estrada afora. Paramos 3 vezes pra fazer xixi, beber água de côco e caldo de cana além, é claro, das indefectíveis fotos de nossas magrelitas! Passamos batido por Morretes, preferindo visitá-la dia seguinte quando faríamos o derradeiro pedal de nosso circuito turístico. Jantamos no restaurante em frente à praça da Matriz, com direito a 2 garrafas de vinho tinto, sem contar as várias doses de Domeq que entornáramos quando chegamos no hotel. Claro está que dormimos como anjos, exceto Fatima cujo sono deveras sensível foi afetado pelos ronronar vibrante de Juju.


Aleluia, no domingão, o céu, enfim azul, deixa o sol mostrar seu sorriso amarelo, hehe. Vamos a Morretes não só pra conhecer a cidade como também na intenção de completar 200 km. A ideia de fechar o pedal em tal cifra partiu de Juju quando percebeu, ao chegarmos ontem, aqui, em Antonina, que nossa quilometragem batia nos 170 km (segundo o cronômetro da Fatima, já o meu mais modesto apontou 165 km). Embora tenha uma pista, a rodovia PR 408 tem acostamentos em ambos os lados. Com alguns aclives e declives suaves, o trajeto ida e volta não ultrapassou 32 km. A pequena Morretes tem um atraente e bem conservado centro histórico, com casarios coloridos em estilo colonial. Almoçamos barreado, prato típico da região, cuja origem remonta às ilhas açorianas. A carne, de tão
cozida, torna-se esfiapada e ao seu molho mistura-se farinha e banana. O restaurante escolhido, à beira do rio Nhundiaquara, proporcionou uma bela paisagem. Como o vinho mostrou-se azedo, e mais garrafas dessa bebida não mais havia, mudamos pra caipirinha de maracujá, muito bem preparada. No retorno a Antonina, demos um rolê rápido pela cidade, parando apenas na estação ferroviária onde tiramos algumas fotos. Mais não deu pra conhecer porque tínhamos pressa de voltar a Curitiba de modo a visitar nossa amiga Denise MiuMiu, companheira do igualmente memorável pedal carnavalesco em plagas uruguaias. Nem bem terminou a viagem, já estávamos combinando futuros pedais. Com certeza, prezamos - e muito - a companhia masculina. Contudo, nessa pequena aventura, exclusivamente feminina, a ausência dos queridos guris não foi sentida nem pra trocar pneus.......até porque nenhum furou!